A ameaça de extinções em cascata na Terra pode ser maior do que pensávamos

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(Créditos: Freestocks/Unsplash)

Traduzido por Julio Batista
Original de Tessa Koumondouros para o ScienceAlert

Na teia delicadamente entrelaçada de um ecossistema, quebrar certos fios pode fazer com que tudo desmorone mais rápido do que cortar outros fios.

Agora, os pesquisadores descobriram que as espécies que consideramos mais valiosas e que vale a pena proteger muitas vezes não são os ‘fios’ mais críticos para manter as complexas teias ecológicas das quais dependemos.

A ecologista Aislyn Keyes da Universidade da Califórnia (EUA) e seus colegas usaram dados de três teias alimentares costeiras para simular diversas sequências de extinção a fim de obter uma melhor compreensão de como as conexões sustentam os serviços ecossistêmicos e a estabilidade de todas as teias.

Os serviços ecossistêmicos são as formas pelas quais a natureza contribui para o bem-estar da humanidade, como recursos de água doce, polinização ou plantas mitigando a erosão do solo. Só a contribuição dos serviços dos insetos vale bilhões de dólares por ano apenas nos Estados Unidos.

Esses serviços estão interligados a tudo o que fazemos. Por exemplo, até os investimentos de instituições financeiras são altamente dependentes de serviços ecossistêmicos, e acredita-se que mais da metade de todo o PIB global dependa de bens e serviços fornecidos pelo mundo natural.

No entanto, muitas de nossas atividades estão cortando os fios que sustentam esses serviços ecossistêmicos de forma aleatória e em um ritmo acelerado. Quando a perda de uma espécie em cascata resulta na perda de outras espécies que antes dependiam dela (extinções secundárias), isso cria mais ameaças aos serviços ecossistêmicos dos quais dependemos.

No início deste mês, uma equipe de pesquisadores encontrou uma base para uma forte conexão entre o desaparecimento rápido da diversidade de espécies e os serviços ecossistêmicos.

“Essas conexões precisam se tornar mais visíveis nas avaliações das contribuições da natureza para o bem-estar humano, a fim de compreender completamente como gerenciar e proteger esses benefícios para os humanos”, explicou a coautora e ecologista Silvia Ceaușu do Colégio Universitário de Londres.

Agora, em um esforço para compreender melhor essas contribuições, a modelagem no estudo de Keyes e de sua equipe descobriu que “as espécies que prestam serviços não desempenham um papel crítico na estabilização das teias alimentares – enquanto as espécies desempenhando papéis de apoio nos serviços por meio de interações são essenciais para a robustez das teias alimentares e dos serviços.”

Isso significa que os serviços ecossistêmicos estão sob uma ameaça maior do que o previsto, porque mais espécies sustentam esses serviços do que contabilizamos. E é um grande problema quando se trata de como priorizamos a conservação.

“Quase não há dinheiro suficiente para a conservação”, explicou Keyes. “[As] abordagens tradicionais que avaliam os serviços ecossistêmicos podem não ter [dinheiro] o suficiente.”

“Muitas avaliações de serviços ecossistêmicos se concentram apenas nas espécies que fornecem o serviço diretamente, mas sabemos que os impactos podem se espalhar por um ecossistema e, portanto, mostramos que essas extinções secundárias representam um aumento da vulnerabilidade dos serviços que não foi necessariamente considerado.”

Já foi demonstrado que a perda de espécies altamente conectadas causa mais extinções secundárias, pelo menos em ecossistemas de campos, e as descobertas do novo estudo confirmam isso.

Além do mais, nem todos os níveis do ecossistema são tão vulneráveis ​​a esse efeito do entrelaçamento. Aqueles no topo da cadeia alimentar, como peixes grandes, eram mais propensos a serem afetados negativamente por extinções secundárias do que aqueles em níveis tróficos mais baixos, como as plantas.

“Proteger certas espécies que estão contribuindo desproporcionalmente para os serviços, seja apoiando-os ou fornecendo-os diretamente, pode potencialmente ajudar a mitigar quaisquer ameaças indiretas”, sugere Keyes.

“Acho que essa abordagem poderia ser uma maneira de alocar melhor os recursos para proteger várias espécies e serviços.”

Os pesquisadores alertam que seu modelo ainda não incorpora muitos fatores de interação – é apenas um primeiro passo para compreender os impactos das extinções secundárias. Também há muito trabalho a ser feito para identificar as espécies-chave e suas complicadas interações no campo, especialmente em interações em grande escala.

Um relatório recente do Índice de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos sugeriu que a perda de “serviços ecossistêmicos poderia ser significativamente desacelerada ou até mesmo revertida se o papel da biodiversidade e sua plena contribuição para a produção econômica fossem parte integrante das decisões tomadas por entidades governamentais, empresas e outras partes interessadas.”

Keyes e a equipe estão planejando investigar se os mesmos fatores que tornam as teias alimentares mais resistentes à extinção também ajudam a manter os serviços ecossistêmicos.

Esta pesquisa foi publicada na Nature Communications.