A armadilha da pseudociência no campo da nutrição

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Imagem: Google.

Há pseudociência na nutrição?

Quando o assunto é sobre alimentação a área de nutrição não fica imune das armadilhas da pseudociência. Nos últimos anos o índice de obesidade e enfermidades pelo consumo demasiado de alimentos ultraprocessados aumentou drasticamente. Segundo os dados do Ministério da Saúde, nos últimos 10 anos, a prevalência da obesidade no Brasil aumentou em 60%, passando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016. Isso se tornou uma ameaça à saúde pública, sugerindo medidas como campanhas de reeducação alimentar. Entretanto, a difusão de informações de reeducação alimentar para a saúde coletiva vinculada a mídia tem demonstrado efeito contraproducente, colocando a saúde individual em risco. A partir disso surgem as dietas da moda, sem comprovação ou falta de evidências científicas, com promessas milagrosas para curar todos os males e aumentar a longevidade. Essa pseudociência é uma panaceia (cura pela natureza) em forma de suco verde “detox”, dietas sem glúten para pessoas sem intolerância ou DC (doença celíaca), dieta da Lua, dieta da NASA, jejum intermitente, dietas hiperproteicas, dietas do shake, dieta alcalina e a mais comentada nos últimos tempos, dieta “crudívora” (crua) ou dieta “sem muco”.

O problema de seguir essas dietas disseminadas na mídia é a observação recorrente de pacientes em ambiente clínico e hospitalar com diagnósticos de carências nutricionais, gastrite ulcerativa, intoxicação por hipervitaminose, diabetes tipo II, anemia ferropriva e perniciosa, perda de massa muscular e compulsão alimentar desencadeada por essas dietas milagrosas.

Especificamente, a dieta “crudívora” e o jejum tem sido incentivado nas redes sociais por alguns médicos para qualquer indivíduo. Muitos profissionais da saúde que acreditam em medicina alternativa tem acreditado nessas dietas milagrosas sendo embasada na pseudociência naturopática de Arnold Ehret, autor do livro “Sistema de cura da dieta sem muco”. O livro que, não tem estrutura acadêmica e técnica, é inteiramente especulativo contra a ciência, abordagem agressiva com teorias da conspiração afirmando que estudos metabólicos e fisiológicos da ciência são uma “farsa”. Em um trecho do livro que aborda dieta crua e jejum podemos notar a falta de seriedade, cujo as frases são puramente filosóficas baseadas em espiritualismo:

Quanto tempo se deve jejuar?’
A natureza responde a esta pergunta no reino animal com certa crueldade: jejue até que esteja curado ou morto!

pág. 77 do livro Sistema de Cura da Dieta sem Muco.

Onde está o grau de evidências, as hipóteses testadas em que esses argumentos se apoiam e são defendidos como única e exclusiva verdade absoluta?

Resposta: Em lugar algum.

O autor Arnold Ehret não era médico ou muito menos foi profissional saúde de outra área. Na biografia de Arnold Ehret (1866 a 1922) é informado ele foi um professor de Design durante 15 anos e aos 31 anos de idade desenvolveu doenças cardiovasculares e doença nos rins, falecendo aos 56 anos apenas. Durante sua vida ele passou em consultas com mais de 24 médicos renomados, onde todos eles deram pouco tempo de vida e que não haveria um tratamento de cura para a sua doença. E então, se sentindo contrariado com o diagnóstico médico, ele foi procurar sanatórios holísticos de medicina alternativa com tratamentos puramente filosóficos e espirituais, e lá aprendeu a naturopatia. Naquela época a pseudociência da naturopatia já era refutada apresentando não ter eficácia tal como a astrologia era desmascarada.

Arnold Ehret acreditava que alimento cru ou dieta “sem muco” era a cura pela natureza, mas apesar da ciência ao longo do tempo ter conseguido comprovar a presença de substâncias denominadas como fator antinutriente em determinados alimentos crus que são capazes de inibir a absorção de minerais e proteínas, a presença de bactérias que só morrem após o cozimento de determinados alimentos e a baixa qualidade de proteínas, esse ideal se perpetua até hoje sob a justificativa sem fundamentos de que os animais de outras espécies não cozinham e, por isso, os seres humanos deveriam consumir tudo cru. Boa parte dos grãos e cereais não foram desenvolvidos para serem consumidos todos crus, devido determinados alimentos no processo de germinação não apresentar qualidade suficiente de digestibilidade podendo elevar o suco pancreático e enzimas hidrolíticas.

As enzimas hidrolíticas tem como função no processo de degradação e absorção dos alimentos. Não há evidências de que alimentos germinados (crus) passam a ser totalmente absorvidos pelas vilosidades do intestino delgado, pois esses alimentos contêm percentual maior de fibra insolúvel ao contrário do cozimento de alimentos que contém fibras solúveis e, sendo assim, mais facilmente absorvidas no processo de digestão. Uma das principais enzimas que vai atuar no processo de digestão de grãos e cereais crus/germinados é a enzima pepsina, responsável pela quebra de proteínas em peptídeos. A pepsina em estado de nível sérico é responsável pelo desenvolvimento de atrofia gástrica ulcerativa.

Uma dieta crua pode ser nutricionalmente desequilibradas por não fornecerem necessidades calóricas suficientes composta por proteínas, lipídeos e carboidratos, estando associada à baixa massa óssea em regiões esqueléticas clinicamente importantes. Além da redução dos níveis de HDL e vitamina B12, erosão dentária, concentrações séricas de THcy conforme constatou estudos transversais por aderentes a uma dieta de alimentos crus.

Mas, tudo bem. Para que iremos falar sobre isso, não é mesmo? É só uma dieta natural, deixa as pessoas seguir não vai causar problemas em longo prazo, porque cientistas tem mais o que fazer. Ou será que devemos começar a se importar?

Então, eu trago aqui reflexões éticas do que queremos enquanto profissionais para a nossa sociedade: A validação de fábulas tranquilizadoras utilizando a linguagem científica para se promover e enganar as pessoas ou começar a dialogar com a sociedade pautando a nossa atuação por meio de ciência baseada em evidências?

É preciso manter o viés de lado e ser crítico na hora de ler um artigo. É preciso que essas empresas parem de financiar pesquisas inconscientes e publicar resultados falsos.

Referências

  • Fontana, Luigi, et al. “Low bone mass in subjects on a long-term raw vegetarian diet.” Archives of internal medicine 165.6 (2005): 684-689.
  • Koebnick, Corinna, et al. “Long-term consumption of a raw food diet is associated with favorable serum LDL cholesterol and triglycerides but also with elevated plasma homocysteine and low serum HDL cholesterol in humans.” The Journal of nutrition 135.10 (2005): 2372-2378.
  • Mendes, Fabia Queiroz, et al. “Protein digestibility and bromatological characterization of soybean genotypes with absense or presence of the trypsin inhibitor kunitz and lipoxygenases.” (2007).
  • Pires, Christiano Vieira, et al. “Nutritional quality and chemical score of amino acids from different protein sources.” Food Science and Technology 26.1 (2006): 179-187.

Camila Baungartel

Formada em Técnico de Biotecnologia pela ETEC, graduanda em Nutrição pela Faculdade das Américas (FAM), criadora e colunista do site de informação científica Nice Science.
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