A chave para a ciência (e a vida) é estar errado

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Por Steven Ross Pomeroy
Publicado na Scientific American

Em 1964, o físico ocasionalmente enigmático, mas também sempre enérgico, Dr. Richard Feynman deu uma palestra na Universidade de Cornell para um salão lotado de jovens atentos e curiosos. O comportamento de Feynman foi brilhante e perspicaz naquele dia, um estilo reforçado por sua aparência aguçada. O cabelo do professor estava limpo e arrumado, e ele estava bem vestido com um terno fino e sob medida.

Com a mão direita segurando um pedaço de giz, a esquerda aninhada no bolso do casaco, Feynman começou a falar. “Vou discutir como procuramos uma nova lei”, disse com seu sotaque do Queens, referindo-se ao seu trabalho como físico teórico.

Feynman foi até a lousa e começou a escrever. Seu discurso continuou quase de uma maneira sincronizada com seus rabiscos. “Primeiro nós fazemos uma suposição… então calculamos as consequências da suposição para ver o que isso implicaria. E então nós comparamos esses resultados de computação… diretamente à observação para ver se funciona”.

Feynman fez uma pausa, tirou a mão esquerda do bolso do casaco e caminhou de volta para o atril buscando examinar algumas anotações. Logo após, ele se lançou de volta ao seu discurso.

“Se não está de acordo com o experimento, então está errado”, afirmou, esticando o pescoço para frente e apontando habilmente a mão esquerda para o quadro-negro, onde destacou um ponto. “Essa declaração simples é a chave para a ciência”.

“Não faz nenhuma diferença o quão bonito é a sua suposição”, proclamou Feynman, gesticulando em movimentos amplos, circulares e um tanto extravagantes. “Não faz qualquer diferença o quanto esperto você é, quem fez a suposição, ou como se chama. Se não está de acordo com o experimento, então está errado. Isso é tudo que vale”.

Feynman estava absolutamente certo.

Um bom cientista deve estar disposto a estar errado. Tal inclinação é libertadora, pois permite que ele ou ela investigue possíveis respostas – por mais improváveis ​​que sejam – às difíceis questões inspiradas por esse vasto e maravilhoso universo. Além do mais, uma aceitação de que supostamente pode estar errado, liberta o cientista para buscar qualquer caminho aberto por evidências, mesmo que essa evidência não apoie sua suposição original.

“A regra dura, mas justa, é que, se as ideias não funcionam você deve descartá-las”, escreveu o grande divulgador científico Carl Sagan. “Não desperdice neurônios no que não funciona. Dedique esses neurônios a novas ideias que melhor expliquem os dados”.

O conselho honesto de Sagan foi seguido com plenitude em 1998, quando dois grupos altamente competitivos de cientistas de Harvard e Berkeley estavam competindo para encontrar a taxa que mostraria a desaceleração na expansão do universo. Foi uma competição de alto risco, pois se acreditava que um prêmio Nobel estivesse em jogo.

Mas, para espanto de ambos os grupos, os dados acabaram apontando exatamente na direção oposta. Os cientistas descobriram que a expansão do universo não estava diminuindo; estava acelerando! “Eu estava, honestamente, negando o que estava acontecendo”, disse Brian Schmidt, de Harvard. Todavia, como Schmidt e seus colegas superaram sua decepção e estavam dispostos a errar, o mundo aprendeu algo inteiramente novo sobre o cosmos.

Para os astrofísicos de Berkeley e Harvard, reconhecer seu erro era fácil, pois os dados irrefutavelmente apontavam em uma direção completamente diferente. Mas nem sempre é assim tão simples. Às vezes, os dados podem ser inconclusivos, deixando espaço para o pesquisador tirar uma série de conclusões. Infelizmente, isso ocasionalmente leva à má conduta, sobretudo para os cientistas que estão mais interessados ​​em seguir dogmaticamente suas teorias preferidas ao invés das provas. Eles podem ajustar pequenos fragmentos de dados para obter significância estatística no onipresente teste do valor-p ou podem ignorar certos detalhes que entram em conflito com suas hipóteses.

Isso, é claro, é eticamente errado, mas a natureza humana frequentemente nos estimula a errar para guardar nossas crenças enraizadas. Enquanto os cientistas são considerados homens e mulheres insensíveis, a verdade é que eles nunca deixaram de ser humanos.

A fim de reconhecer o erro, os cientistas devem manter algum nível de desapego de suas queridas teorias e estar abertos às ideias dos outros em seus respectivos campos. Richard Dawkins descreveu um ótimo exemplo disso em seu livro Deus, um delírio:

“Eu contei anteriormente a história de um integrante respeitado do Departamento de Zoologia de Oxford quando eu fazia a graduação. Durante anos, ele acreditava e ensinava apaixonadamente que o complexo de Golgi (uma estrutura microscópica do interior das células) não existia… Era costume do departamento ouvir, toda tarde de segunda-feira, uma palestra de um convidado sobre alguma pesquisa. Uma segunda-feira, o visitante foi um biólogo celular americano que apresentou evidências completamente convincentes de que o complexo de Golgi existia. No fim da palestra, o senhor de Oxford caminhou para a frente do salão, apertou a mão do americano e disse, apaixonadamente: “Caro companheiro, gostaria de agradecer-lhe. Eu estava errado por todos esses quinze anos”.

No ano passado, fomos apresentados a dois exemplos inspiradores desse tipo de modéstia. O professor de física da Universidade da Califórnia, Richard Muller, mudou sua postura cética em relação à mudança climática quando seu próprio estudo produziu dados que conflitavam com suas ideias preconcebidas. Ele agora admite que a mudança climática é causada pela atividade humana. Em outro exemplo notável, o Dr. Robert Spitzer, o psiquiatra que, num artigo de 2001, argumentou que os gays poderiam ser “curados”, reverteu sua posição e pediu desculpas por seu “estudo totalmente errado”.

“Acredito que devo desculpas à comunidade gay”, escreveu Spitzer em uma carta.

O erro é algo que todos nós secretamente ou abertamente tememos. De acordo com a auto-descrição da “Wrongologist” (errologista) Kathryn Schulz, todos nós entendemos que somos falíveis, mas no nível pessoal, deixamos pouco ou nenhum espaço para estar errado.

Mas Schulz acredita que devemos encarar essa situação de uma maneira tipicamente diferente. Perceber que você está enganado é ruim, mas estar errado muitas vezes pode ser motivador. Na verdade, muitas vezes pode ser igual a estar correto.

Como Wile E. Coyote perseguindo o Papa-Léguas de um penhasco naqueles antigos desenhos animados da Warner Bros., nós só começamos a cair quando chegamos à conclusão de que nós, junto com nossas noções incorretas, não temos nenhum terreno seguro para nos apoiarmos. Mas o simples fato é que já tínhamos fugido do precipício há muito tempo! Assim, é melhor admitir que estamos errados e prosseguirmos com a queda para que possamos aterrissar (esperamos que não com muita força), sacudir a poeira e voltar a ficar de pé.

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