A consciência é irredutível

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Os argumentos a seguir foram reconstruídos e extraídos da obra A Redescoberta da Mente, de John Searle, e têm como objetivo defender que a consciência não pode ser reduzida.

O autor começa por retomar o argumento do texto “what is like to be a bat” do Thomas Nagel, o qual, numa interpretação epistêmica, demonstra que embora tenhamos o conhecimento da neurofisiologia dos morcegos, e este conhecimento é objetivo, do tipo terceira pessoa, não podemos ter conhecimento da experiência subjetiva de como é ser um morcego.

Searle dá uma interpretação ontológica a esse argumento. Ele vai argumentar no sentido de que, tomando o caso da dor como exemplo, não podemos reduzir aspectos subjetivos (a sua particular experiência de sentir dor) a aspectos objetivos (descargas neuronais ou algo do tipo) no caso da consciência sem descaracterizá-la totalmente. Ele afirma que se “tentássemos dizer que a dor é na verdade ‘nada exceto’ as disposições de descargas de neurônios (…) as características essenciais da dor seriam deixadas de lado” (Searle, 2006. pp. 170). A ideia é que mesmo conhecendo completamente a neurofisiologia da dor (que é o nosso exemplo, mas poderiam ser vários outros), ainda não se saberia o que é uma dor sem nunca ter tido a sensação da dor.

Acho que essa parte é, pouco mais ou pouco menos, ponto pacífico. A questão que me interessa mesmo é a justificação do Searle para a impossibilidade da redução da consciência (no caso, de uma redução ontológica). Ele discute o modelo de redução para propriedades perceptíveis, como o calor. Esse tipo de modelo tem como objetivo “suprimir as características superficiais e redefinir a noção original em termos das causas que produzem essas características superficiais” (pp. 172). Vejamos o caso do calor*: intuitivamente nos surge a ideia de que algo é quente se o sentimos como quente ou frio se o sentimos como frio, ou seja, a aparência subjetiva é o cerne da noção pré-teórica. Contudo, a partir do momento que temos uma teoria do que causa esse tipo de fenômeno, redefinimos calor em termos de suas causas subjacentes (a saber, movimentos moleculares causam sensações de calor e de frio), removendo, deste modo, qualquer referência aos aspectos subjetivos. Assim, calor é definido nos termos de suas causas e a sensação subjetiva de calor é entendida apenas como um efeito do calor.

Há uma certa semelhança entre dor e calor. Vejamos, num enunciado sobre calor (“está quente neste ambiente”) há tanto fatos “físicos”**, como o movimento de moléculas, quanto fatos “mentais”**, como a minha experiência subjetiva de estar com calor, que são causados pela ação dos primeiros em meu sistema nervoso. O mesmo ocorre se o enunciado for sobre a dor (“estou com dor”), haverá novamente alguns fatos “físicos” (excitação dos neurônios das fibras C) e outros fatos “mentais” (a minha experiência subjetiva de sentir dor). Mas a grande questão é que aceitamos a redutibilidade do calor e não da dor porque o que nos interessa do primeiro não são seus aspectos subjetivos, mas sim as causas físicas subjacentes. Compreender o funcionamento causal da realidade, controlá-la e aprimorar nossos conceitos para que se ajustem a natureza são razões convincentes para aceitarmos a redução ontológica de alguns fenômenos, como o calor.

Quando se trata da dor, e da consciência como um todo, uma redução ontológica (por exemplo, em termos neurobiológicos) não dá conta de reduzir os aspectos subjetivos, a experiência de sentir dor (da mesma forma que a redução do calor não deu conta), simplesmente porque o modo como a fazemos é tal que esses aspectos são eliminados. No entanto, no caso da dor, a parte mais essencial dela é exatamente seu aspecto subjetivo, então não há como eliminá-lo. Searle afirma que isso vale para toda a consciência porque nesse tipo de redução o fenômeno é “definido em termos da ‘realidade’ e não em termos da ‘aparência'” (pp. 176), o que não pode ser feito com a consciência, já que esta consiste em suas próprias aparências.

Resumindo: quando se trata da consciência, ela não pode ser reduzida como os demais fenômenos são usualmente reduzidos por conta do modelo de redução que usamos, que supõe uma distinção entre “realidade física objetiva” e “aparências subjetivas”, eliminando estas em favor daquela. No caso da consciência, “sua realidade é a aparência” (pp. 176).

*Usei “calor” aqui sem muito rigor científico porque não é o cerne da questão.
**Mantive as aspas nos termos porque um dos pontos centrais da obra é questionar o dualismo de conceitos que tanto materialistas quanto dualistas aceitam, desde de Descartes.

Referência: Searle, J. R. (2006) A Redescoberta da Mente. 2ªed. São Paulo: Martins Fontes.

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