A linha do tempo de seis séculos de registros da varíola mostra como uma doença fatal é eliminada

0
218
Registros de sepultamento para Londres de 1665. Tradução da imagem: disenteria (flox) e small-pox (varíola). (Créditos: Londres; E. Cotes, 1665)

Traduzido por Julio Batista
Original de Carly Cassella para o ScienceAlert

Em meio a uma pandemia global, os pesquisadores estão olhando para trás no tempo, para analisar a única doença humana que já erradicamos com sucesso.

Mesmo hoje, quatro décadas depois que a varíola parou de circular publicamente, a doença ainda é considerada uma das maiores assassinas da história, tirando vidas por mais séculos do que qualquer outra doença infecciosa, até mesmo a peste e a cólera. 

No século 18, 400.000 europeus morriam todos os anos de varíola. Só em Londres, na Inglaterra, mais de 321.000 pessoas morreram da doença após 1664.

Um terço dos que sobreviveram ficaram cegos e vários ficaram desfigurados por cicatrizes. 

“A atual pandemia da COVID-19 causou um aumento no interesse no estudo da transmissão de doenças infecciosas e como as intervenções de saúde pública podem mudar o curso da pandemia”, disse David Earn, que modela a transmissão de doenças infecciosas na Universidade McMaster em Ontário, Canadá.

“Nosso objetivo era descrever e disponibilizar publicamente a série temporal semanal da mortalidade por varíola em Londres e identificar eventos históricos que podem ter influenciado a dinâmica da varíola ao longo dos séculos.”

Por quase 300 anos, entre 1664 e 1930, as autoridades em Londres mantiveram registros cuidadosos das mortes por varíola. Digitalizando mais de 13.000 desses relatórios semanais, os pesquisadores criaram uma importante linha do tempo de mortalidade e prevenção da varíola, rastreando a disseminação do vírus em Londres e as formas como ele foi influenciado pelas estações do ano, políticas de saúde pública e eventos históricos. 

Com o tempo, os resultados mostram claramente que um melhor controle do vírus levou a menos mortes por varíola.

Os surtos apareceram esporadicamente em registros anteriores, estabelecendo-se em ondas regulares de infecção em 1770, quando uma forma não muito segura de inoculação de varíola chamada variolação ganhou popularidade.

Somente em 1810, coincidindo com a introdução da prática muito mais segura de vacinação, os dados mostram uma redução dramática na amplitude das epidemias, embora os surtos tenham sido mais frequentes e os dados sejam mais ruidosos”.

Uma epidemia particularmente grande na Londres de 1830, que acabou se espalhando pela Europa, foi na verdade o ímpeto para o primeiro Ato de Vacinação da Inglaterra em 1840, dando vacinas gratuitas a qualquer um que as quisesse e banindo práticas mais perigosas como a variolação. Só então os níveis de vacinação aumentaram, com o número de fatalidades caindo vertiginosamente.

Outros impactos, como a estrutura sazonal das epidemias e o momento sazonal dos surtos, foram mais difíceis de desvendar, e os autores admitem que seus dados precisarão de mais investigação.

Dito isso, a linha do tempo é, até onde eles sabem, a mais longa série semanal de mortalidade por doenças infecciosas já reunida. Como tal, ajuda a ilustrar como um vírus pode ir de ser “um perigo aterrorizante e inevitável” – matando cerca de uma em cada três pessoas infectadas – para uma causa extremamente incomum de morte.

Da fatalidade à raridade

Nos anos que antecederam a última morte por varíola em Londres, por volta de 1934, apenas pouquíssimas mortes foram relatadas pelo vírus.

“Está claro que a introdução de medidas de controle da varíola – [inoculação] e posteriormente vacinação – tornou a erradicação possível”, diz Olga Krylova, que trabalhou no projeto enquanto estudava matemática e estatística na McMaster.

“Nossa análise também sugere que o maior uso de medidas de controle e mudanças nas políticas públicas de saúde foram correlacionadas com mudanças na frequência das epidemias.”

Série temporal semanal de mortalidade por varíola em Londres, Inglaterra, 1664–1930. Tradução da imagem: na vertical, a densidade espectral (spectral density). (Créditos: Krylova e Earn, PLOS Biology, 2020)

A varíola tem uma longa e complexa história, com o consenso atual associando-a a uma doença transmitidas por ratos que surgiu na África alguns milhares de anos atrás. Ao longo de milênios, conforme o mundo se tornou mais globalizado, parece que esse vírus viu a oportunidade de se espalhar e crescer ao lado das civilizações humanas e de suas rotas comerciais.

Na Idade Média da Europa, o vírus frequentemente causava epidemias. A colonização então o espalhou para a África, Austrália e América do Norte.

Antes do desenvolvimento das vacinas, pessoas na África, Índia e China começaram a depender da variolação para controlar a propagação da varíola. Isso implicava em um pequeno corte no braço ou na perna no qual uma pequena quantidade do vírus da varíola era introduzida, retirada de pústulas ou crostas de pessoas já infectadas.

A ideia notável finalmente chegou à Europa no século 18 por meio do comércio com a Turquia e foi rapidamente adotada pelos médicos. 

Em 1796, um cientista chamado Edward Jenner descobriu que a varíola bovina, que nasce de um vírus semelhante à varíola, poderia proteger os humanos contra epidemias dessa doença infecciosa. Quando ele inoculou pacientes com esse vírus animal, ele proporcionou imunidade de forma mais segura, barata e eficaz do que a inoculação com o vírus humano.

Em 1800, seu trabalho ajudou a produzir uma vacina contra a varíola na Inglaterra. Em 1840, a inoculação era coisa do passado.

Mas isso não foi o fim da varíola. Não foi até o final do século 19 que os cientistas perceberam que a imunidade à vacina não era vitalícia e que as pessoas precisavam ser revacinadas.

Depois disso, uma campanha global da Organização Mundial de Saúde conseguiu erradicar o vírus com sucesso em uma década. As últimas amostras restantes agora estão armazenadas nos EUA e na Rússia.

Ao longo de toda essa linha do tempo, Londres estava passando por seu próprio conjunto de grandes mudanças culturais e históricas. A Revolução Industrial, por exemplo, pode ter desempenhado um papel nas epidemias de varíola à medida que a urbanização se espalhou e a demografia social mudou. As guerras também eram outro mecanismo possível de propagação.

“Mais pesquisas usando modelos matemáticos são necessárias para quantificar os impactos das intervenções e eventos históricos sobre os surtos de varíola”, diz Krylova. 

Esta extensa linha do tempo pode permitir que os cientistas façam exatamente isso. Ao nos concentrarmos em eventos específicos e seus efeitos, podemos compreender melhor como as infecções contagiosas podem oscilar ao longo do tempo e o que podemos fazer para vencê-las no final. 

“A longa história de documentar a mortalidade por varíola em Londres oferece uma oportunidade extraordinária de aprender com o passado sobre a mudança dos padrões de transmissão de doenças infecciosas”, concluem os autores.

Agora é hora de pesquisar os dados. 

O estudo foi publicado na PLOS Biology.