A Terra pode ser ainda mais habitável. Só precisaríamos mudar a órbita de Júpiter

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Uma imagem do hemisfério sul tempestuoso de Júpiter capturada pela sonda Juno. (Créditos: NASA/JPL/MSSS/Gerald Eichstädt/Justin Cowart)

Traduzido por Julio Batista
Original de Michelle Starr para o ScienceAlert

Temos exatamente um mundo, em todo o Universo, que sabemos de fato ser hospitaleiro para a vida: o nosso.

Então, quando procuramos planetas habitáveis ​​em outros sistemas planetários, além do nosso próprio canto da galáxia, geralmente usamos a Terra como o modelo perfeito.

Mas um novo estudo revelou que a Terra não é tão habitável quanto poderia ser. Na verdade, poderia ser ainda mais habitável, se a órbita de Júpiter mudasse ligeiramente.

É um estudo importante porque há muitas partes móveis e ingredientes para a vida e para a morte no Sistema Solar, e descobrir quais contribuem para a habitabilidade da Terra é extremamente complicado.

Também pode nos ajudar a entender melhor o que torna um mundo habitável, bem, habitável.

“Se a posição de Júpiter permanecesse a mesma, mas a forma de sua órbita mudasse, poderia realmente aumentar a habitabilidade deste planeta”, disse a cientista planetária Pam Vervoort, da Universidade da Califórnia, Riverside (EUA).

“Muitos estão convencidos de que a Terra é o epítome de um planeta habitável e que qualquer mudança na órbita de Júpiter, sendo o planeta massivo que é, só poderia ser ruim para a Terra. Mostramos que ambas as suposições estão erradas.”

Os resultados também têm implicações para a busca de mundos habitáveis ​​fora do Sistema Solar, fornecendo um novo conjunto de parâmetros pelos quais a habitabilidade potencial pode ser avaliada.

Embora atualmente não tenhamos nenhuma ferramenta que possa avaliar conclusivamente a habitabilidade de um exoplaneta – planetas que orbitam estrelas fora do nosso Sistema Solar – os cientistas estão coletando uma população de mundos nos quais devemos examinar mais de perto, com base em várias características.

A primeira é onde o exoplaneta está em relação à sua estrela hospedeira – ele precisa estar a uma distância não tão próxima que qualquer água líquida da superfície evapore, nem tão distante que a água congele.

A segunda é o tamanho e a massa do exoplaneta – é provável que seja rochoso, como a Terra, Vênus ou Marte? Ou gasoso, como Júpiter, Saturno ou Urano?

Cada vez mais, parece que um gigante gasoso semelhante a Júpiter no mesmo sistema pode ser um bom indicador de habitabilidade. Mas parece haver algumas ressalvas.

Em 2019, a equipe internacional de pesquisadores publicou um estudo no qual mostravam, com base em simulações, que alterar a órbita de Júpiter poderia muito rapidamente tornar todo o Sistema Solar instável.

Agora, mais simulações mostraram que o oposto pode ser verdade, o que ajudará a diminuir o alcance das órbitas de gigantes gasosos que ajudam ou dificultam a habitabilidade.

Ver aqui: uma animação da NASA ilustrando uma série de excentricidades orbitais. (Créditos: NASA/JPL-Caltech)

O estudo foi baseado na excentricidade da órbita de Júpiter – o grau em que essa órbita é alongada e elíptica.

Atualmente, Júpiter tem apenas uma órbita ligeiramente elíptica; é quase circular.

No entanto, se essa órbita for esticada, terá um efeito muito perceptível no resto do Sistema Solar. Isso porque Júpiter é massivo, 2,5 vezes a massa de todos os outros planetas do Sistema Solar combinados.

Então, ajuste a excentricidade de Júpiter e o efeito gravitacional que terá nos outros planetas será real.

Para a Terra, isso também significa um aumento na excentricidade. Isso significa, descobriram os pesquisadores, que algumas partes do planeta se aproximariam do Sol, aquecendo em uma faixa temperada e habitável.

Mas se você mover Júpiter para mais perto do Sol, a habitabilidade da Terra sofre. Isso porque fará com que nosso planeta natal se incline mais acentuadamente em seu eixo rotacional do que atualmente, um recurso que nos dá variações sazonais.

Uma inclinação mais acentuada, no entanto, faria com que grandes seções do nosso planeta congelassem, com estações mais extremas. O gelo marinho no inverno se estenderia a uma área quatro vezes maior do que atualmente.

Esses resultados podem ser aplicados a qualquer sistema multiplanetário que encontrarmos, para avaliá-los quanto à potencial habitabilidade, disseram os pesquisadores.

Mas eles também destacam quantos fatores podem ter influenciado nossa presença aqui em nosso pálido ponto azul – como quase não acabamos existindo, talvez. E o que pode acontecer com o Sistema Solar se ele se desestabilizar.

“Ter água em sua superfície é uma primeira métrica muito simples, e não leva em conta a forma da órbita de um planeta ou as variações sazonais que um planeta pode experimentar”, disse o astrofísico Stephen Kane, da Universidade da Califórnia, Riverside (EUA).

“É importante entender o impacto que Júpiter teve no clima da Terra ao longo do tempo, como seu efeito em nossa órbita nos mudou no passado e como isso pode nos mudar mais uma vez no futuro”.

A pesquisa foi publicada no The Astronomical Journal.