Alguns diamantes raros são formados a partir dos restos mortais de seres vivos, descobriu um novo estudo

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Esses da foto provavelmente não são diamantes reais. Créditos: MirageC / Getty Images.

Por Jacinta Bowler
Publicado na ScienceAlert

Apesar do intenso fascínio da humanidade por pedaços brilhantes de carbono, parece que ainda há muito o que aprender sobre como os diamantes se formam nas profundezas do nosso planeta.

Uma nova pesquisa descobriu que dois tipos diferentes de diamantes raros compartilham uma história de origem comum – a reciclagem de organismos que viviam a mais de 400 quilômetros abaixo da superfície.

Existem três tipos principais de diamantes naturais. Os primeiros são os diamantes litosféricos, que se formam na camada litosférica a cerca de 150 a 250 quilômetros abaixo da superfície da Terra. Esses são de longe os mais comuns e provavelmente o tipo de diamante que você encontraria em um anel de casado.

Depois, há dois tipos mais raros – diamantes oceânicos e superprofundos continentais.

Os diamantes oceânicos são encontrados em rochas oceânicas, enquanto os diamantes continentais profundos são aqueles formados entre 300 e 1.000 quilômetro abaixo da superfície da Terra.

Apenas para colocar isso em perspectiva: categorizamos o espaço como 100 quilômetros  acima do nível do mar, a Estação Espacial Internacional orbita cerca de 400 km acima da Terra e os humanos nunca conseguiram cavar mais do que 12,2 km no chão. Então, diamantes continentais superprofundos se formam…  nas superprofundezas no manto da Terra.

Como seria de esperar, os diamantes oceânicos e os superprofundos continentais parecem bastante diferentes. Como a variação na assinatura de um isótopo de carbono chamada δ13C (delta carbono treze) pode ser usada para determinar se o carbono tem uma origem orgânica ou inorgânica, pesquisadores anteriores sugeriram que os diamantes oceânicos originalmente se formaram a partir do carbono orgânico que já existia nos seres vivos.

Os diamantes continentais superprofundos, por outro lado, têm uma quantidade extremamente variável de δ13C. É difícil dizer se eles são feitos de carbono orgânico ou não.

Mas neste novo estudo, liderado pelo geólogo Luc Doucet da Universidade Curtin, na Austrália, a equipe descobriu que os núcleos de diamantes continentais superprofundos têm uma composição de δ13C semelhante. Surpreendentemente, isso significa que, como os diamantes oceânicos, essas joias também contêm os restos de criaturas que já viveram.

“Trazendo um novo significado para o velho ditado do lixão que nasce flor, esta pesquisa descobriu que o mecanismo da Terra na verdade transforma carbono orgânico em diamantes muitas centenas de quilômetros abaixo da superfície”, disse Doucet.

“Rochas emergidas do manto mais profundo da Terra, chamado de pluma mantélica, carregam os diamantes de volta à superfície da Terra por meio de erupções vulcânicas para os humanos desfrutarem como pedras preciosas”.

De volta à litosfera, alguns desses diamantes profundos tornam-se núcleos envoltos em crostas de diamantes inorgânicos, cujos isótopos correspondem aos diamantes da litosfera. Isso explica porque sua composição de δ13C é tão variável.

Modelo para a gênese de três tipos de diamantes. Créditos: Doucet et al., Sci Rep, 2021.

Nos últimos anos, aprendemos muito sobre a segunda forma de carbono favorita dos cientistas.

Olhar para diamantes com falhas pode ajudar os pesquisadores a descobrir seus primeiros momentos; a estrutura desses cristais permanece de pé mesmo sob pressão cinco vezes maior do que o núcleo da Terra; em 2019, descobrimos até um diamante com um outro diamante inteiro dentro.

Mas essa nova pesquisa não é o fim da história – nem de longe. Os cientistas não sabem ao certo por que esses diamantes raros e profundos, encontrados mais profundamente do que a litosfera, estão usando esse carbono orgânico reciclado.

“Isso pode ter algo a ver com o ambiente físico-químico de lá”, explicou o geólogo Zheng-Xiang Li da Universidade Curtin.

“Não é incomum que uma nova descoberta científica levante mais questões que requerem mais investigação”.

A pesquisa foi publicada em Scientific Reports.