Análise do problema experimental da Teoria de Cordas

Crédito da Imagem: Floriang.

As duas críticas mais comuns à Teoria de Cordas são:

A) A Teoria de Cordas não é uma ciência, ou não é uma teoria científica.
B) A Teoria de Cordas é altamente especulativa e não fornece nenhuma predição testável (veja aqui).

Pretendo desconstruir algumas destas afirmações com uma rápida análise filosófica.

A) Podemos dizer que a Teoria de Cordas não é uma teoria científica consolidada, mas uma hipótese que carece do aprimoramento tecnológico para realizar a experimentação. Alguns físicos diriam que a Teoria de Cordas é insuficiente no que se espera de uma ciência (veja aqui) e, portanto, seria apenas mais uma ideia filosófica do que ciência propriamente dita.

Diferentemente da filosofia, a hipótese em Teoria de Cordas baseia-se num hierárquico conjunto matemático capaz de fazer algumas previsões indiretas que podem ser testadas no LHC – isso já é o suficiente para eliminar a ideia de que a Teoria de Cordas só faz parte do campo filosófico. Porém, podemos classificar a Teoria de Cordas como uma ciência em desenvolvimento (isto é, protociência) capaz de nos fornecer futuramente resultados satisfatórios no que diz respeito à sua validade empírica (ou seja, as Cordas são verdadeiras? Elas existem?).

Pelos critérios atuais de demarcação na ciência (veja aqui), a Teoria de Cordas pode ser classificada como protociência (veja aqui), porque ela é uma atividade científica em pleno desenvolvimento teórico que estabelece predições testáveis e que segue todos os procedimentos do que se espera de uma ciência propriamente dita.

B) A Teoria de Cordas, assim como a Teoria-M e a supersimetria, entre outras teorias recebem críticas sobre a forma matemática delas, por possuírem um número grande de parâmetros livres, e quanto mais parâmetros livres tiver uma teoria melhor ela se ajusta aos dados. Podendo até mesmo se ajustar a quaisquer dados. Ou seja, explica tudo.

Vou usar como exemplo uma situação hipotética entre a Teoria de Cordas e o LHC: Digamos que um cientista teórico X chega com a Teoria de Cordas de uma forma e diz, “Oh, tu vai achar isso no LHC!” Ou seja, ele faz uma predição testável…

As predições podem ser sobre:

  1. dimensões extras, pois em aceleradores de partículas o que vemos são padrões de espalhamento. Cada teoria de partículas elementares fornece diferentes padrões de espalhamento. Se encontramos padrões que apoiam dimensões extras, ponto pra cordas.
  2. no caso de supercordas há partículas supersimétricas que podem ser encontradas no LHC.

Aí um cientista experimental Y testa tudo e não acha nada. De acordo com Popper, a Teoria foi falseada (ou seja, provada falsa). Mas aí o Teórico X recalcula os parâmetros livres e diz: “Pronto, desse jeito você pode achar no próximo teste”. E se não achar ele pode fazer isso de novo e de novo…

Portanto, sabemos que a predição na Teoria de Cordas pode ser testada e, portanto, falseada. Porque você pode provar que ela é falsa para aquele conjunto de parâmetros. Mas o teórico X pode recalcular o valor dos parâmetros e dizer que você não achou só porque estava olhando para a escala de energia errada.

Neste caso, é trabalhada uma forma de “Adequação Empírica” a partir do teórico para salvar a Teoria de Cordas. Os empirista-construtivistas (portanto, anti-realistas) afirmariam que esse é apenas o objetivo da ciência: a adequação empírica e não a busca por dados e descrições objetivas (e reais) da natureza. O que não é verdade e expliquei aqui o motivo.

Podemos fazer a seguinte pergunta:

Mas esse procedimento ocorre sempre com a intenção de buscar de fato algo real (ou próximo da realidade) ou apenas a mera vontade de salvar a teoria?

Podemos dizer que a intenção do teórico X é fazer inferências para salvar a teoria (porque talvez ele ama sua hipótese e não quer desistir dela), mas… partindo de predições que possam ser testáveis…

Agora a próxima pergunta é:

“E se os dados forem encontrados no LHC? A teoria evolui ou continua insatisfatória?”

Podemos dizer que ela evolui se não houver uma outra teoria concorrente que ajuste melhor os dados.

“E se existir uma evidência insuficiente para demonstrar qual teoria é a certa? Isto é, se tiver mais de uma teoria concorrente.”

Aí acabamos caindo no Problema da Indeterminação da Teoria pela Evidência (veja aqui).

E de certa forma, a busca pelos resultados objetivos através do cientista experimental pode ajudar a resolver o problema do conflito entre qual das duas teorias distintas que fornece a mesma explicação (mas por caminhos diferentes) é a correta.

Conclusão

Apesar de algumas predições teóricas em Teoria de Cordas não poderem ser testadas por falta de tecnologia, ainda podemos considerar que uma parte da Teoria de Cordas é atualmente testável, é falseável, é científica, mas protocientífica.

Agradecimentos

Esse texto foi escrito em colaboração com o físico Marcelo Vargas que atualmente está doutorando em Física pela UFRJ.

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Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira
Sou fundador do Universo Racionalista | Graduando em Tecnologia em Redes de Computadores pela Universidade de Franca | Pós-graduando em Ethical Hacking e Cybersecurity do Centro de Inovação VincIT (UNICIV) pela Faculdade Eficaz | Especializando em Cybersecurity pela Rochester Institute of Technology (edX MicroMasters Programs) | Especialização em Fundamentals of Computing Network Security pela University of Colorado System (Coursera Specialization) | Especialização em Journey of the Universe: A Story for Our Times pela Yale University (Coursera Specialization) | Graduação interrompida em Licenciatura em Filosofia pela Universidade de Franca | Colaborador do Instituto Ética, Racionalidade e Futuro da Humanidade | Colunista da Climatologia Geográfica | Membro da Rede Brasileira de Astrobiologia | Membro do Science Vlogs Brasil | Interesse em Divulgação Científica das ciências fáticas em geral | Interesse em Filosofia da Ciência no problema da demarcação entre Ciência e Pseudociência e da justificação entre Realismo e Antirrealismo | Estudando também o problema entre Tecnologia e Pseudotecnologia na Filosofia da Tecnologia | Interesse em Segurança Defensiva e Segurança Ofensiva em sites, servidores e redes de computadores | Endereço do Currículo Lattes e do LinkedIn.