Antigos artistas de caverna podem ter deliberadamente se privado de oxigênio para pintar

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Pintura rupestre na Grotte de Rouffignac. (Créditos: Wikimedia Commons/Domínio Público)

Traduzido por Julio Batista
Original de Carly Cassella para o ScienceAlert

Algumas das artes humanas mais antigas da Europa estão totalmente escondidas – ocultadas nos espaços estreitos de cavernas profundas, escuras e sinuosas.

Para ver as paredes, quanto mais decorá-las, os artistas da idade da pedra precisariam se esgueirar com várias tochas, e os arqueólogos agora suspeitam que toda aquela fumaça induziu a um estado alterado de consciência.

As plantas alucinógenas já foram conectadas à natureza sobrenatural da arte das cavernas antes, mas essa nova hipótese sugere que os humanos antigos estavam buscando conscientemente uma experiência transformadora semelhante nas profundezas do submundo, muito antes de começarem a usar outras substâncias psicoativas.

Quanto mais longe do ar fresco eles se arrastavam, propõem os especialistas, maior a viagem mental eles tinham e mais artísticos eles se tornavam.

“Há alguns anos, quando estava visitando algumas cavernas com pinturas na França, comecei a notar que a maioria das imagens são encontradas no fundo de cavernas muito estreitas”, disse o arqueólogo Yafit Kedar, da Universidade de Tel-Aviv, em Israel, ao The Jerusalem Post.

“Comecei a me perguntar por que eles optaram por trabalhar dessa forma, em vez de pintar na entrada de cavernas mais amplas, onde também poderiam ter desfrutado de alguma luz natural.”

Modelando o efeito de tochas e lâmpadas no fluxo de ar de uma caverna, Kedar e seus colegas descobriram que quanto mais estreita é a entrada de uma caverna, mais rápido um humano fica sem oxigênio.

Em uma caverna profunda com apenas uma entrada, as simulações mostram que os níveis de oxigênio podem cair abaixo de 18% em apenas quinze minutos, possivelmente induzindo um estado de hipóxia se as concentrações caírem o suficiente.

Em humanos, a privação de oxigênio pode liberar dopamina naturalmente no cérebro, às vezes resultando em sonolência, euforia, alucinações ou experiências fora-do-corpo. Na verdade, cientistas que estudam cavernas relataram experimentar efeitos semelhantes, mesmo sem uma tocha acesa na mão.

O uso adicional do fogo torna esse estado muito mais provável.

Em uma grande entrada de caverna com acesso aberto ao mundo exterior, uma chama ardente tende a criar duas camadas distintas de ar: a camada inferior consiste em ar externo e a camada superior consiste em gases de exaustão fluindo de volta.

Fluxo de ar em uma caverna aberta. (Créditos: Kedar et al., The Journal of Archaeology, Consciousness and Culture, 2021)

Quando o fogo queima em uma passagem estreita, por outro lado, as camadas superior e inferior se misturam parcialmente, o que significa que o ar em todos os lugares carrega significativamente menos oxigênio do que os 21% que normalmente respiramos.

Além do mais, como os átomos de oxigênio são mais leves que o dióxido de carbono, eles tendem a flutuar para cima, descendo dos túneis de uma caverna até a entrada. Quanto mais fundo em um sistema de cavernas alguém percorre com uma chama ardente, maior é a probabilidade de ter falta de oxigênio.

Em várias simulações, quando a ventilação era particularmente restrita, os pesquisadores descobriram que os níveis de oxigênio podem cair para até 9 por cento, o que é quase o ponto em que uma pessoa pode perder a consciência.

Isso pode soar como um grande impedimento, mas centenas de pinturas em cavernas antigas do Paleolítico Superior, entre 14.000 e 40.000 anos atrás, estão localizadas em profundidades muito semelhantes. Na verdade, algumas artes rupestres foram encontradas tão longe da entrada de uma caverna quanto um artista poderia chegar.

Na caverna de Rouffignac na França, por exemplo, a maioria das imagens antigas foram pintadas nas paredes de passagens extremamente estreitas, a 730 metros da única entrada.

Mapa da caverna de Rouffignac com pontos vermelhos representando a arte rupestre. Tradução da imagem: entrada (entrance). (Créditos: Dachary, Plassard e Valladas, 2016)

Portanto, parece possível que alguns humanos antigos estavam se esgueirando nas profundezas das cavernas escuras da Europa para entrar propositalmente em um estado alterado de consciência. Os efeitos da privação sensorial, combinados com a falta de oxigênio, podem até ter sido o próprio gatilho para a natureza surreal de suas artes nas cavernas.

“As imagens visualizadas em tal estado de alucinação parecem pairar nas superfícies das cavernas (paredes, pisos e tetos) como se constituíssem uma membrana conectando os mundos superior e inferior”, explicam os autores. Kedar agora espera testar os níveis de oxigênio em cavernas reais para comparar com as simulações.

Embora as plantas psicoativas estejam definitivamente disponíveis na Europa, as evidências de seu uso aparecem muito mais tarde no registro arqueológico do que nessas pinturas rupestres.

A hipóxia pode, portanto, ter sido uma maneira mais fácil e natural para os humanos primitivos alterarem conscientemente seu estado de espírito, fazendo a pessoa se sentir mais conectada ao mundo ao seu redor e mais expressiva em seu trabalho.

As cavernas de Lascaux na França – lar de algumas das pinturas mais famosas do Paleolítico Superior – foram até vistas sendo capazes de liberar gases naturais, o que pode ter induzido um estado alucinatório semelhante em humanos antigos.

“O ambiente da caverna foi concebido tanto como um espaço liminar quanto como uma arena ontológica, permitindo aos primeiros humanos manter sua conexão com o cosmos”, propõem os autores.

“Não foi a arte que tornou as cavernas significativas; ao contrário, o significado das cavernas escolhidas foi o motivo de suas artes.”

O estudo foi publicado no The Journal of Archaeology, Consciousness and Culture.