Ao contrário do que diz Trump, não há drogas aprovadas contra o novo coronavírus

Para suscitar esperanças, presidente americano falou erradamente sobre "medicamentos praticamente aprovados".

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Crédito: Shutterstock.

Por Kelly McBride Folkers e Arthur Caplan
Publicado no The Hastings Center

Embora seja possível que pacientes se recuperem da infecção por coronavírus  e que podem, e que alguns consigam efetivamente, ainda não existem tratamentos aprovados e efetivos contra o COVID-19. O presidente Trump pensa diferente. Ele disse numa recente coletiva de imprensa que dois medicamentos, a hidroxicloroquina e o remdesivir, foram “essencialmente aprovados para uso com prescrição” para o tratamento de pacientes com COVID. Ele se referiu a essas “aprovações” como um “tremendo avanço”, e aplaudiu o Comissário de Administração de Drogas e Comida, Stephen Hahn, e os cientistas da agência pela rápida aprovação desses medicamentos. O comissário Hahn subiu ao pódio para esclarecer a mensagem do presidente, dizendo que ainda não se sabe se esses remédios são, na verdade, seguros e efetivos no tratamento do coronavírus. Mais uma vez, o presidente Trump enganou a população americana sobre a resposta da nação a pandemia. Em um mundo ideal, existiriam diversos remédios em grande quantidade ao redor do mundo que poderiam ser usados imediatamente e de modo seguro para restaurar a saúde de pacientes com infecções de coronavírus severas e em risco de morte. Entretanto, até que os cientistas interpretem os dados de estudos rigorosos, é irresponsável e imprudente que o líder do país diga que existem remédios disponíveis, apenas esperando para serem utilizados.

O presidente tagarela sobre uma de suas fantasias preferidas, a importância da legislação do “direito de tentar”. Por décadas, a FDA (agência que administra o setor de Drogas e Alimentos nos EUA) permitiu aos médicos que lidavam com pacientes acometidos por doenças severas ou sob risco de vida, e que já tivessem esgotado as opções aprovadas de tratamento ou que não pudessem participar de testes clínicos, que solicitassem o uso de drogas experimentais através de um sistema chamado de “uso compassivo”.

Geralmente, o modo mais comum para que um paciente acesse um medicamento experimental é participando de um estudo para pesquisa clínica, onde cientistas reúnem dados sobre a segurança e a efetividade do remédio para uma indicação particular, em um grupo específico de pacientes com a mesma condição de saúde.

Simplesmente não existe lugar para todos que querem participar de testes clínicos. E alguns indivíduos podem se mostrar não compatíveis com critérios de elegibilidade restritos, particularmente pacientes com múltiplas condições de saúde ou que estão morrendo. Mas, para pacientes que esgotaram todas as opções possíveis, a FDA criou o caminho do uso compassivo para aqueles indivíduos que buscam acesso a medicamentos sendo testados em testes clínicos.

Nesse contexto do coronavírus, isso significa que a FDA está trabalhando para expandir o acesso a potenciais opções terapêuticas em desenvolvimento. Remédios experimentais ou que já foram aprovados para outras condições que podem – ou não – tratar infecções por coronavírus, podem, teoricamente, ser prescritas para pacientes.  A hidroxicloroquina, por exemplo, já foi aprovado para o tratamento de malária e de certas condições de artrite, e alguns especialistas acreditam que pode funcionar no combate ao COVID-19. A literatura que existe sobre o remédio não é – ao contrário do que diz o presidente- promissora.

O remdesivir é diferente. É um remédio antiviral experimental que, de acordo com seus dados extremamente limitados em animais, pode ter potencial contra o COVID-19. A empresa proprietária, Gilead, está atualmente conduzindo estudos randômicos em adultos diagnosticados com COVID-19 em diversos países asiáticos. O remdevisir não foi aprovado em nenhum lugar do mundo. Para que pacientes dos Estados Unidos tenham acesso a ambas as medicações, eles devem participar de estudos clínicos conduzidos nos E.U.A, ou o médico deve pedir ao fabricante do remédio que o disponibilize por meio do “uso compassivo”. Importante: as empresas não são obrigadas legalmente a disponibilizar suas drogas em desenvolvimento, por nenhuma razão, em nenhuma circunstância. A  FDA não pode obrigá-las, nem pode a legislação do direito de tentar.

Assim, não existem dados confiáveis que sugiram a hidroxicloroquina, o  remdesivir ou qualquer outro remédio possam tratar o COVID-19. Simplesmente ainda não há suficientes informações disponíveis para disponibilizar com segurança o acesso à população desses medicamentos. Enquanto a FDA permite o acesso a medicamentos em teste como último recurso, isso não é uma garantia de recuperação. Na verdade, pacientes podem piorar devido ao medicamento. Usar medicamentos não aprovados num contexto sem dados fará mais mal do que bem, possivelmente causando uma doença pior ou aproximando mortes, enquanto não permite qualquer aprendizado sobre o que de fato funciona.

O presidente Trump não entende o funcionamento do sistema de desenvolvimento de remédios. Mas, ainda pior, deu a nação e aos pacientes desesperados a falsa esperança sobre quais as opções abertamente disponíveis para tratar aqueles que estão batalhando por suas vidas. Sugerindo que esses medicamentos estão nas prateleiras aguardando para serem utilizados, o presidente aumenta a demanda pública por medicamentos que podem não ser seguros, nem efetivos, nem em quantidade suficiente nem uma boa escolha para o momento.

Pesquisas clínicas existem por um motivo: a vasta maioria dos medicamentos testados em humanos não são seguros ou efetivos. E mesmo em uma pandemia, deve assegurar uma condução criteriosa da ciência,  para garantir que médicos não estejam causando males aos seus pacientes sem saber, tratando-os com algo que carece de evidências científicas que apoiem o seu uso. O comissário Hahn diz melhor: “precisamos garantir que, nesse mar de novos tratamentos, iremos obter o remédio certo, para o paciente certo, na dosagem certa e na hora certa”. A única maneira de atingir esse objetivo é através da pesquisa, não espalhando falsas esperanças sobre o direito de tentar.

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