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Artemis II: a humanidade volta ao entorno da Lua após 53 anos

Na quarta-feira, 1º de abril de 2026, às 19h23 (horário de Brasília), a humanidade volta a enviar pessoas ao entorno da Lua. A missão Artemis II, da NASA, levará quatro astronautas a bordo da cápsula Orion, lançada pelo foguete SLS (Space Launch System), em uma trajetória de dez dias que passará por trás da Lua antes de retornar à Terra. Não é um pouso — mas é algo que não ocorria desde dezembro de 1972, quando a tripulação da Apollo 17 fez a última viagem humana ao entorno do satélite natural da Terra. Mais de cinquenta anos de ausência chegam ao fim.

E a Artemis II vai ainda mais longe do que as Apollo: enquanto as missões dos anos 1960 e 1970 orbitavam a Lua em trajetórias próximas, a Orion passará pelo lado oposto do satélite, colocando a tripulação a uma distância da Terra que nenhum ser humano alcançava desde o programa Apollo. Desde o fim daquele programa, ninguém viajou a mais de 600 quilômetros de altitude. Amanhã, quatro pessoas irão a quase 400.000 quilômetros.

A missão e sua tripulação

A Artemis II é o segundo voo do programa Artemis da NASA, criado com o objetivo de estabelecer uma presença humana sustentável na Lua e, no longo prazo, preparar a infraestrutura necessária para missões tripuladas a Marte. O primeiro voo, a Artemis I (novembro de 2022), foi não tripulado e testou o foguete SLS e a cápsula Orion em uma trajetória lunar completa. O sucesso daquela missão abriu caminho para o que acontece agora.

A tripulação é composta por quatro pessoas: o comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover, a especialista de missão Christina Koch (todos da NASA) e o astronauta canadense Jeremy Hansen, da Agência Espacial Canadense (CSA). É a primeira vez que um astronauta não americano participa de uma missão tripulada ao entorno da Lua. Christina Koch também entra para a história como a primeira mulher a viajar além da órbita terrestre baixa, tendo já estabelecido o recorde de permanência contínua feminina na Estação Espacial Internacional, com 328 dias.

Dez dias de viagem, passo a passo

Depois de sucessivos adiamentos e uma revisão de prontidão de voo concluída em 13 de março, o lançamento está marcado para amanhã, 1º de abril, às 19h23 (horário de Brasília), no Centro Espacial Kennedy, na Flórida. Serão dez dias de viagem no total, distribuídos em etapas bem definidas.

O processo começa com o SLS superando a gravidade terrestre para inserir a Orion em uma órbita inicial ao redor da Terra. Em apenas 1 minuto e 11 segundos, a nave já estará a 12 quilômetros de altitude. Após a estabilização orbital, o motor criogênico realizará a injeção translunar, acelerando a Orion em direção à Lua. A trajetória planejada é a chamada trajetória de retorno livre híbrida: mesmo em caso de falha nos propulsores, a gravidade combinada da Lua e da Terra trará a nave de volta com segurança — um mecanismo passivo herdado da era Apollo.

A passagem mais impressionante ocorrerá quando a Orion contornar o lado afastado da Lua, o ponto mais distante da Terra que qualquer ser humano terá alcançado desde a Apollo 17. A nave não pousará na superfície, mas a aproximação será suficiente para que a tripulação observe a Lua diretamente pelas janelas da Orion. Após o sobrevoo, a espaçonave usará a gravidade lunar como estilingue para ganhar velocidade e iniciar o retorno à Terra, com amerissagem prevista no Oceano Pacífico.

Por que isso importa para a ciência

O programa Artemis não é uma repetição das Apollo. Enquanto aquelas missões foram conquistas geopolíticas da Guerra Fria com janelas curtas de presença científica, o programa atual foi concebido para estabelecer infraestrutura permanente: a estação orbital Gateway (que orbitará a Lua e servirá de base de operações), módulos de pouso reutilizáveis e, eventualmente, uma base na superfície lunar próxima ao polo sul.

O polo sul lunar é de particular interesse científico. Sondas como o LRO (Lunar Reconnaissance Orbiter) da NASA e a missão Chandrayaan-1 da Índia confirmaram a existência de gelo de água em crateras permanentemente sombreadas nessa região. Esse gelo pode ser utilizado como água potável para astronautas e, por eletrólise, separado em hidrogênio e oxigênio para produção de combustível de foguete in loco, reduzindo drasticamente o custo das missões futuras.

A Artemis II também valida tecnologias críticas para o que vem a seguir. A Artemis III, que pretende pousar na superfície lunar, só pode avançar após a certificação da Orion em condições reais com tripulação humana — o que acontece exatamente nesta missão.

O contexto geopolítico e a nova corrida espacial

Seria ingênuo analisar a Artemis II sem considerar o contexto geopolítico. A China tem avançado sistematicamente: pousou robôs no lado oculto da Lua, coletou amostras do solo lunar e declarou a intenção de realizar missões tripuladas antes de 2035. O programa Artemis nasceu, em parte, como resposta estratégica a esse cenário.

Os Acordos Artemis, tratado multilateral liderado pelos EUA e assinado por mais de 40 países, buscam estabelecer normas de uso pacífico e sustentável dos recursos lunares. O direito espacial internacional, baseado no Tratado do Espaço Exterior de 1967, proíbe a soberania nacional sobre corpos celestes — mas é silencioso sobre a exploração de recursos, lacuna que as potências emergentes estão ansiosas para preencher.

O que esperar nos próximos anos

A Artemis II não é um fim em si mesma. Se a missão for concluída com sucesso nos próximos dez dias, a NASA e seus parceiros terão validado todo o sistema de transporte humano interplanetário de próxima geração. A Artemis III poderá então tentar o primeiro pouso humano na Lua desde 1972, com uma mulher e uma pessoa de origem não europeia pisando na superfície.

Mais adiante, a lógica do programa aponta para Marte. Cada tecnologia testada no ambiente lunar — de propulsão avançada a sistemas de suporte de vida de longa duração — é iteração direta das ferramentas que serão necessárias em uma viagem de seis a nove meses até o planeta vermelho.

Cinquenta anos depois da última missão Apollo, a humanidade está de volta à vizinhança da Lua. Não ainda na superfície, mas no caminho. E desta vez, a intenção é permanecer.

Universo Racionalista

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Fundada em 30 de março de 2012, Universo Racionalista é uma organização em língua portuguesa especializada em divulgação científica e filosófica.