As ‘Estatuetas de Vênus’ têm uma nova explicação e é surpreendentemente tocante

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Vênus de Willendorf. Créditos: Bjørn Christian Tørrissen / Wikimedia Commons.

Por Peter Dockrill
Publicado na ScienceAlert

Elas estão entre as mais antigas obras de arte conhecidas no mundo. Estranhas estatuetas de figuras femininas que datam do final da Idade da Pedra, muitas com seios, nádegas, coxas, quadris e estômagos fortemente arredondados.

Essas representações icônicas e estilizadas de mulheres do Paleolítico Superior – frequentemente chamadas de estatuetas de Vênus, em uma referência vaga à deusa romana da beleza – foram encontradas espalhadas pela Europa e Eurásia.

Mais de 200 dessas misteriosas estatuetas foram descobertas, datadas entre 38.000 e 14.000 anos atrás, com a maioria delas recuperadas de cerca de 26.000-21.000 anos atrás.

Embora haja muito debate acadêmico sobre o que as estatuetas de Vênus representavam aos olhos de seus antigos escultores, muitos pesquisadores interpretaram as características voluptuosas das estátuas como símbolos de fertilidade, sexualidade, beleza e maternidade.

Outros também notaram, entretanto, que os corpos voluptuosos oferecem uma representação muito realista da aparência da obesidade humana. A obesidade é um problema grave para as pessoas no século 21, embora não esteja totalmente claro o porquê ela estaria na mente de nossos ancestrais antigos 30.000 anos atrás.

“Algumas das primeiras artes do mundo são essas misteriosas estatuetas de mulheres obesas da época dos caçadores coletores da Idade do Gelo na Europa, onde você não esperaria ver obesidade de forma alguma”, diz o pesquisador médico Richard Johnson, da Universidade do Colorado (EUA).

Em um novo estudo, Johnson e outros pesquisadores oferecem uma explicação alternativa para o mistério do físico exagerado das estatuetas: os corpos não são exagerados para servirem de símbolos de sexualidade, dizem eles, mas como símbolos de sobrevivência.

Os pesquisadores analisaram dezenas de figuras com traços obesos de vários períodos dessa era, medindo as proporções cintura-quadril e cintura-ombro das estátuas. Quando essas medidas são comparadas ao local onde as estátuas foram encontradas – especificamente, observando as distâncias das geleiras antigas que existiam – uma conexão interessante foi encontrada.

Muitas das estatuetas de Vênus foram esculpidas durante um período extremo de mudança climática chamada de Último Máximo Glacial, na qual as temperaturas despencaram e as massas de gelo se expandiram por muitas partes do mundo.

Em meio às dificuldades, as estátuas foram esculpidas; é possível, dizem os pesquisadores, que suas formas bem torneadas tenham sido criadas em uma espécie de resposta ao frio terrível.

“Durante este período, os humanos enfrentaram o avanço das geleiras e a queda das temperaturas que levaram ao estresse nutricional, extinções regionais e redução da população”, explicam os pesquisadores no estudo, observando a estranha relação que encontraram.

“As estatuetas ficam menos obesas à medida que a distância das geleiras aumenta… Especificamente, as proporções do tamanho do corpo eram maiores quando as geleiras avançavam, enquanto a obesidade diminuía quando o clima esquentava e as geleiras recuavam”.

Na hipótese da equipe, as Vênus encorpadas existiam como um símbolo de sobrevivência em face de um inverno implacável, exemplificando as virtudes das mulheres supernutridas, cujos corpos maiores e mais gordos poderiam suportar melhor as condições adversas e frias.

“Propomos que eles transmitissem ideais de tamanho corporal para mulheres jovens, especialmente aquelas que viviam perto de geleiras”, diz Johnson.

Os pesquisadores afirmam que as mulheres obesas teriam se saído melhor em gestações durante o Último Máximo Glacial, e também na amamentação.

“A estatueta representaria uma imagem desejada da mulher na qual a imagem tinha o poder de trazer uma mãe e um filho mais saudáveis, abrangendo a concepção, uma gravidez precária, parto e amamentação”, escrevem os autores.

“O aumento da gordura forneceria uma fonte de energia durante a gestação e durante o desmame de um bebê, bem como para o isolamento necessário na época”.

É um argumento fascinante, embora seja importante notar que nem todos na comunidade arqueológica acolheram bem suas descobertas.

Ainda assim, se os pesquisadores estiverem certos, essas estatuetas icônicas – muitas desgastadas, como se tivessem sido tratadas como relíquias de família ao longo de gerações sucessivas – poderiam ter desempenhado um papel simbólico maior do que nunca, conduzindo a humanidade através de um de seus mais sombrios desafios climáticos.

“Durante este período, as estatuetas surgiram como uma ferramenta ideológica para ajudar a melhorar a fertilidade e a sobrevivência da mãe e dos recém-nascidos”, concluem os pesquisadores.

“A estética da arte, portanto, teve uma função significativa em enfatizar a saúde e a sobrevivência para acomodar as condições climáticas cada vez mais austeras”.

Os resultados são relatados em Obesity.