As ‘nuvens’ do cigarro eletrônico não são ‘vapor’. Essa palavra é usada para parecer mais seguro

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Créditos: Antonio Garcia / EyeEm / Getty Images.

Por Carly Cassella
Publicado na ScienceAlert

As nuvens dos cigarros eletrônicos não são inofensivas e chamá-las de vapor é propositalmente enganoso, argumentam os cientistas.

Embora as baforadas de cigarros eletrônicos não sejam exatamente fumaça, o termo ‘vapor’ geralmente traz à mente uma nuvem inofensiva de água.

Dessa forma, especialistas em saúde pública argumentam que ‘aerossol‘ é uma descrição mais precisa, já que as nuvens de cigarros eletrônicos contêm substâncias químicas nocivas que podem pairar no ar e se estabelecer em superfícies próximas.

A mudança no nome pode parecer estética, mas novas pesquisas sugerem que ela tem um impacto real nas políticas públicas e na forma como os indivíduos avaliam o risco de exposição aos produtos do tabaco.

Comparando três termos usados para emissões do cigarro eletrônico entre 791 estudantes universitários, os pesquisadores descobriram que a palavra “vapor” estava ligada a um menor senso de risco de exposição passiva.

Por outro lado, os alunos que responderam a perguntas usando as palavras “produtos químicos” ou “aerossóis” tiveram duas vezes mais chances de descrever as emissões como “prejudiciais” ou “muito prejudiciais”.

Esses indivíduos também eram mais propensos a apoiar uma política para o campus universitário 100% livre do tabaco nas dependências.

“A ausência de ambientes no campus para o fumo e para o tabaco é sempre uma medida de saúde pública presente no senso comum, e são especiais neste momento, dada a forte ligação entre o uso do tabaco e a transmissão da COVID-19 entre os jovens”, disse o cientista de saúde pública Matthew Rossheim da Universidade George Mason (EUA).

“As faculdades e universidades estão sendo encorajadas a adotar urgentemente políticas de campus ‘livres do tabaco’ para ajudar a prevenir a disseminação do coronavírus”.

Desde 2012, o número de universidades livres do fumo e do tabaco nos Estados Unidos mais do que triplicou e, ainda assim, 1 em cada 6 desses campus ainda não inclui cigarros eletrônicos nessa equação.

Isso é problemático, dizem os pesquisadores, porque embora a fumaça normal do cigarro possa conter mais tóxicos, evidências recentes sugerem que as nuvens do cigarro eletrônico ainda podem expor as pessoas próximas à nicotinametais pesados, partículas ultrafinascompostos orgânicos voláteis e outras partículas tóxicas.

Hoje, os cigarros eletrônicos são uma das formas mais comum de uso do tabaco entre os jovens, em grande parte porque foram comercializados como uma alternativa segura aos cigarros comuns.

Em um relatório de 2017 dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, do inglês Centres for Disease Control and Prevention) dos EUA, mais da metade dos alunos do ensino fundamental e médio disseram que foram expostos a emissões de produtos de tabaco passivamente em locais públicos internos ou externos.

O cirurgião-geral dos EUA classificou o aumento do uso de cigarros eletrônicos entre os jovens como uma “epidemia” de saúde pública, e os cientistas estão preocupados que isso possa reverter décadas de trabalho árduo de campanha contra o uso do tabaco.

Termos como “vapor”, que tendem a minimizar o risco de exposição passiva, podem muito bem contribuir para esse uso generalizado.

Com evidências recentes mostrando que as pessoas usam os cigarros eletrônicos correm maior risco na COVID-19, especialistas em saúde pública dizem que é importante tomarmos medidas para minimizar o risco de cigarros eletrônicos, especialmente em campus universitários reabrindo em meio à pandemia.

Acompanhar as mudanças no cenário de nomes – incluindo “e-cigarros”, “e-cigs”, “e-narguilés”, “mods”, “vape PENs”, “vapes” e “e-cigarrette” – já é um desafio, mas precisamos reconhecer o poder que esse cenário pode ter e evitar o uso de termos imprecisos que perpetuam equívocos, argumentam os pesquisadores.

Em um estudo de 2016 sobre as percepções da terminologia do cigarro eletrônico, por exemplo, os usuários do cigarro eletrônico não se viam como “fumantes”.

“Sim, parece fumaça, mas você tem que corrigi a galera se for em um ambiente público, apenas para deixar claro que é vapor”, disse um jovem adulto.

Outro estudo recente descobriu que muitos veem a segurança das pessoas próximas como um benefício do tabagismo eletrônico, enquanto as novas gerações de cigarros eletrônicos são comumente chamadas de “vapes” entre os jovens.

“Os esforços de controle do tabagismo também devem ser direcionados para a aprovação de uma nova legislação para regulamentar as práticas de marketing da indústria de cigarros eletrônicos de forma que, entre outras questões, não façam uso da comunicação para minimizar nem enganar o público quanto à nocividade de seus produtos”, concluem os autores.

O estudo foi publicado no Journal of American College Health.