Astrônomos identificaram outro aspecto importante dos planetas que podem hospedar vida

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(Créditos: Mark Garlick/Science Photo Library/Getty Images)

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

Estamos, agora, bastante familiarizados com o conceito de zona de Cachinhos Dourados. Também conhecida como zona habitável, é a distância de uma estrela na qual a água líquida pode estar presente na superfície de um planeta – não tão quente para ser vaporizada, nem tão fria para ser congelada.

Essas condições são importantes porque consideramos a água líquida um ingrediente vital para a vida. Mas não é o único critério que pode nos ajudar a avaliar a habitabilidade potencial de um planeta; de acordo com uma nova pesquisa baseada em décadas de dados, também existem estrelas de Cachinhos Dourados.

Nem todas as estrelas, como sabemos, são feitas da mesma forma. Algumas são extremamente quentes e brilhantes – como as estrelas OB, que são azuis brilhantes e muito novas. Algumas tem temperaturas bastante baixas, como anãs do vermelhas tipo M. Esta poderia ser uma boa temperatura, mas a zona de Cachinhos Dourados ficaria muito perto da estrela, e as anãs vermelhas tendem a ser turbulentas, chamuscando seu espaço circundante com erupções violentas.

Nosso Sol está situado entre esses dois extremos, o que é conhecido como anã amarela – uma estrela do tipo G da sequência principal. Mas, embora saibamos que a vida surgiu no Sistema Solar (estamos, afinal, vivendo aqui), nem mesmo o Sol é uma estrela de Cachinhos Dourados.

Pois é, de acordo com astrônomos da Universidade Villanova (EUA), as melhores estrelas para a vida estão mais além no gráfico de Hertzsprung-Russell de tipos de estrelas – ou seja, as estrelas do tipo K, que são estrelas laranja um pouco mais frias que o Sol e um pouco mais quentes que uma anã vermelha.

“As estrelas anãs do tipo K estão no ‘ponto ideal’, com propriedades intermediárias entre as estrelas do tipo solar mais raras, mais luminosas, mas de vida mais curta (estrelas G) e as estrelas anãs vermelhas mais numerosas (estrelas M)”, explicou o astrônomo e astrofísico Edward Guinan da Universidade Villanova.

“As estrelas do tipo K, especialmente as mais quentes, têm o melhor de todos os mundos. Se você está procurando planetas com habitabilidade, a abundância de estrelas K aumenta suas chances de encontrar vida.”

Junto com um colega, o astrônomo Scott Engle, da Universidade Villanova, eles apresentaram suas pesquisas no 235º encontro da American Astronomical Society em janeiro de 2020.

Vamos ser claros aqui: os astrônomos não estão procurando planetas habitáveis ​​para encontrar uma Terra reserva. Mesmo se encontrarmos uma Terra 2.0, simplesmente não teríamos a tecnologia para nos levar até lá.

Nossa busca pelos planetas de Cachinhos Dourados tem mais a ver com descobrir se existe vida lá fora no Universo – e, um passo adiante, se existe vida inteligente. A vida é algo normal ou alguma anomalia que aconteceu na Terra? Restringir onde é provável que a vida surja pode nos ajudar nessa busca.

Guinan, Engle e outros cientistas têm monitorado várias estrelas do tipo F a G em raios ultravioleta e raios-X nos últimos 30 anos como parte de seu programa Sun in Time, e anãs vermelhas do tipo M por 10 anos para o programa Living with a Red Dwarf.

Ambos os programas têm ajudado a avaliar o impacto dos raios-X e da radiação ultravioleta das estrelas em questão sobre a habitabilidade potencial de seus planetas.

Recentemente, eles expandiram sua pesquisa para incluir coleta de dados semelhantes sobre estrelas do tipo K – o que eles chamaram de Anãs do tipo K com Zonas de Cachinhos Dourados. E, de fato, essas estrelas parecem ser as mais promissoras para as condições de suporte à vida.

Tradução da imagem: na horizontal, da esquerda para a direita, o tamanho da zona habitável (habitable zone size), a irradiância de raios-X (X-Ray Irradiance) e a longevidade (longevity); na vertical, de cima para baixo, 100 bilhões de anos (100 billion years), 40 bilhões de anos (4 billion years) e 10 bilhões de anos (10 billion years). (Créditos: NASA/ESA/Z. Levy/STScI)

Embora a zona habitável das estrelas do tipo K seja menor, elas são muito mais comuns do que as estrelas do tipo G, com cerca de 1.000 delas a apenas 100 anos-luz do Sistema Solar. E eles têm tempos de vida da sequência principal muito mais longos.

O Sol tem cerca de 4,6 bilhões de anos, com uma vida útil na sequência principal de cerca de 10 bilhões de anos. A vida complexa só surgiu na Terra há cerca de 500 milhões de anos, e os cientistas pensam que, em outro bilhão de anos, o planeta se tornará inabitável à medida que o Sol começar a se expandir, eliminando a zona habitável do Sistema Solar.

As anãs vermelhas são mais comuns, mas elas são agressivas, submetendo o espaço ao seu redor a intensa radiação e atividade de erupções que podem retirar qualquer planeta próximo de sua atmosfera e da possibilidade de água líquida.

Em contraste, estrelas do tipo K têm vidas entre 25 e 80 bilhões de anos, oferecendo um período muito maior na qual a vida pode emergir do que estrelas do tipo G; de acordo com os dados da equipe, elas também são muito mais calmas do que as anãs vermelhas.

E já existem estrelas do tipo K das quais planetas ao redor foram localizados – no caso, Kepler-442, Tau Ceti e Epsilon Eridani.

“Kepler-442 é notável porque esta estrela (classificação espectral, K5) hospeda o que é considerado um dos melhores planetas de Cachinhos Dourados, Kepler-442b, um planeta telúrico que tem um pouco mais do que o dobro da massa da Terra”, disse Guinan.

“Portanto, o sistema Kepler-442 tem um planeta de Cachinhos Dourados hospedado por uma estrela de Cachinhos Dourados!”

A busca por vida poderia, é claro, ser muito mais complicada do que isso – por exemplo, se o planeta tem uma órbita altamente elíptica, ele poderia produzir temperaturas extremas que tornariam um planeta de Cachinhos Dourados inabitável.

A localização de outros planetas no sistema também pode fazer diferença; e existe a possibilidade de que toda a galáxia tenha sua própria zona habitável (se tiver, sabemos que estamos nela, portanto, procurar nas proximidades é um bom começo).

Mas esta pesquisa pode representar uma peça do quebra-cabeça que pode tornar a agulha da vida no palheiro espacial um pouco mais fácil de encontrar.

A pesquisa foi apresentada no 235º encontro da American Astronomical Society no Havaí.