Até mesmo pequenas erupções vulcânicas podem desencadear uma catástrofe global

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Vulcão de Fogo em erupção na Guatemala, 19 de novembro de 2018. Créditos: Johan Ordonez / Agence France-Presse / Getty Images.

Por Peter Dockrill
Publicado na ScienceAlert

O espectro de erupções vulcânicas aterrorizantes está estampado em nossa imaginação desde a infância: uma explosão de abalar a terra, seguida por jorros de lava e fumaça.

Os perigos das erupções vulcânicas em grande escala são muito reais: na pior das hipóteses, uma erupção supervulcânica extremamente rara e poderosa pode até devastar o planeta. Mas os cientistas agora alertam que não seria necessária uma explosão tão extrema para desencadear uma catástrofe global.

De acordo com uma nova pesquisa, eventos vulcânicos de escala muito menor ainda podem desencadear caos suficiente para colocar o mundo moderno em perigo.

“Mesmo uma pequena erupção em uma das áreas que identificamos pode espalhar cinzas ou gerar tremores grandes o suficiente para interromper redes que são centrais para cadeias de suprimentos globais e sistemas financeiros”, disse a pesquisadora de risco global Lara Mani da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

“No momento, os cálculos estão muito inclinados para explosões gigantes ou cenários advindos de pesadelos, quando os riscos mais prováveis ​​vêm de eventos moderados que desativam as principais comunicações internacionais, redes de comércio ou centros de transporte”.

Erupções moderadas podem não prender nossa atenção tanto quanto suas contrapartes mais estrondosas, mas podem causar mais estragos.

Caso em questão: a erupção de magnitude 6 do Monte Pinatubo nas Filipinas em 1991 foi aproximadamente 100 vezes mais poderosa do que a erupção de magnitude 4 do Eyjafjallajökull na Islândia em 2010.

Porém, Eyjafjallajökull acabou sendo a erupção vulcânica mais cara da história, com um prejuízo de US$5 bilhões (aprox. R$25 bilhões, ajustado para inflação) para a economia global – enquanto os prejuízos da erupção muito maior do Monte Pinatubo foram apenas uma fração disso (US$740 milhões em 2021, ou aprox. R$3,8 bilhões, ajustado para inflação).

Como esse desequilíbrio é possível? Mani e sua equipe chamam isso de ‘assimetria VEI-GCR’: um novo tipo de paradigma onde o perigo dos vulcões (risco catastrófico global, da sigla em inglês GCR) não aumenta em relação com o poder dos vulcões (índice de explosividade vulcânica, da sigla em inglês VEI).

Historicamente, as avaliações de risco vulcânico sugeriram que quanto mais poderosas as erupções de um vulcão, maior o perigo que ele representa em termos de risco catastrófico global: uma relação que pode ser chamada de ‘simetria VEI-GCR’.

Mas isso pode não ser mais o caso, já que grande parte da infraestrutura crítica do mundo hoje – incluindo passagens marítimas internacionais, cabos de telecomunicações submarinos e rotas de transporte aéreo – não está especialmente perto das regiões vulcânicas que produzem as erupções mais poderosas (com um VEI de 7 ou 8).

“Observamos que muitas dessas infraestruturas e redes críticas convergem em regiões onde poderiam ser expostas a erupções vulcânicas de escala moderada (VEI 3-6)”, escreveram os pesquisadores em seu estudo.

“Essas regiões de interseção, ou pontos cúspides, apresentam localidades onde priorizamos a eficiência sobre a resiliência e fabricamos um novo cenário global de risco catastrófico”.

De acordo com a análise da equipe, existem sete desses ‘pontos cúspides’ ao redor do globo, onde elementos críticos de infraestrutura agora estão perigosamente próximos a erupções de magnitude 3 a 6 do VEI.

Isso inclui Taiwan, que produz uma grande quantidade de microchips do mundo, cujo fornecimento global é prejudicado pela proximidade com o Grupo Vulcânico Tatun (TVG, na sigla em inglês).

Nos Estados Unidos, erupções moderadas no noroeste do Pacífico têm o potencial de interromper o comércio e as viagens tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá, causando enormes prejuízos econômicos.

Enquanto isso, os vulcões na Islândia têm o potencial de criar um ponto cúspide no Atlântico Norte, interrompendo o tráfego aéreo entre Londres e Nova York e causando sérios atrasos nas redes de comércio e transporte.

Outros pontos cúspides, localizados no Mediterrâneo e ao redor da Malásia, ameaçam algumas das rotas marítimas mais movimentadas do mundo.

Outro, localizado no Estreito de Luzon, é uma rota importante para cabos de telecomunicações subaquáticos que conectam China, Hong Kong, Taiwan, Japão e Coreia do Sul – todos os quais podem ser danificados por erupções que causam deslizamentos de terra e tsunamis submarinos, causando graves interrupções na capacidade de comunicação e mercados financeiros globais.

Esses tipos de consequências posteriores não são as primeiras coisas que vêm à mente quando pensamos no poder destrutivo dos vulcões, mas talvez devessem ser, sugerem os pesquisadores.

“É hora de mudar a forma como vemos o risco vulcânico extremo”, disse Mani.

“Precisamos deixar de pensar em termos de erupções colossais destruindo o mundo, conforme retratado nos filmes de Hollywood. Os cenários mais prováveis ​​envolvem erupções de menor magnitude interagindo com nossas vulnerabilidades sociais e nos levando à catástrofe”.

As descobertas foram publicadas na Nature Communications.