Cientistas descobrem que formigas podem farejar câncer na urina

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Formiga-seda (Formica fusca). (Créditos: FrankRamspott/iStock/Getty Images Plus)

Traduzido por Julio Batista
Original de Tessa Koumoundouros para o ScienceAlert

Um dia, as formigas podem ajudar a salvar vidas agindo como biodetectores baratos. Seu poderoso olfato lhes permite distinguir diferenças moleculares sutis em amostras biológicas que, de outra forma, precisaríamos de equipamentos caros para detectar.

Um novo estudo de prova de conceito acaba de demonstrar que essa habilidade pode ser aproveitada para detectar cânceres em amostras de urina, pelo menos de camundongos de laboratório.

“As formigas mostram o potencial de se tornar uma ferramenta rápida, eficiente, barata e não invasiva para a detecção de tumores humanos”, escreveram o etólogo da Universidade Sorbonne, Baptiste Piqueret, e seus colegas em seu paper.

O câncer continua sendo a principal causa de morte no mundo, com mais de 19 milhões de casos em 2020. Quanto mais cedo o câncer for detectado, maiores serão as chances de os pacientes se recuperarem, mas os métodos de detecção atuais são invasivos ou caros, o que pode impedir os pacientes de se submeterem a exames tão cedo quanto necessário.

Assim, os pesquisadores recorreram a animais em busca de ajuda, de camundongoscachorros, para ver se esse processo poderia ser mais acessível. Piqueret e a equipe também testaram as formigas.

Eles condicionaram 35 formigas-sedas (Formica fusca) a associar urina de camundongo saudável com uma recompensa de água com açúcar e outras 35 a associar o cheiro de urina de camundongos portadores de tumores cancerígenos humanos.

Foram necessárias apenas três sessões de treinamento para as formigas diferenciarem os odores. Essas formigas são conhecidas por seu rápido aprendizado e retenção de memória; eaes podem ser testadas nove vezes sem recompensa antes que suas respostas comecem a desaparecer.

Em seu estudo anterior, os pesquisadores descobriram que as formigas podem distinguir entre amostras de células cancerígenas e saudáveis ​​e diferentes tipos de células cancerígenas.

Depois de treinadas, as formigas passaram cerca de 20% mais tempo perto do odor-alvo do que outras, procurando por essa recompensa açucarada e, incidentalmente, fornecendo um sinal claro e preciso da presença ou ausência de câncer de mama na urina do camundongo.

Isso ocorreu apesar do fato de que os biomarcadores de câncer do tumor humano enxertado foram potencialmente alterados ao passar pelo corpo do camundongo e misturados com outros aromas na urina do camundongo.

A análise química confirmou que as moléculas voláteis malcheirosas na urina dos camundongos com câncer são realmente diferentes daquelas sem. Além do mais, quanto maior o tumor do câncer, mais diferentes são os odores.

No entanto, as formigas não mostraram diferença em sua capacidade de detectar a presença de pequenos tumores em comparação com grandes tumores nos camundongos; elas poderiam farejar tumores grandes e pequenos de controles sem câncer da mesma forma.

Embora esses resultados sejam promissores, ainda há mais trabalho a ser feito antes de qualquer uso potencial em ambientes clínicos.

“Uma limitação do nosso estudo é que os odores que usamos podem não representar a grande diversidade de odores de câncer que existe na natureza”, escreveu a equipe.

“Em uma situação da vida real, fatores de confusão como idade, dieta, condição ou estresse podem contribuir para a variabilidade interindividual de odores corporais individuais. Nosso método precisa de mais validações usando diferentes tipos de tumores/câncer e, mais importante, amostras de origem humana direta, antes de ser considerado adequado como teste de rotina para o rastreamento do câncer”.

Esta pesquisa foi publicada no Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences.