Cientistas descobriram uma maneira totalmente nova das cobras se moverem

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(Créditos: Cell Press/YouTube)

Por Peter Dockrill
Publicado na ScienceAlert

Os cientistas identificaram um modo inteiramente novo de locomoção das cobras. O comportamento de escalada recentemente documentado é algo difícil de ser realizado, mas permite que as cobras subam de forma impressionante em cilindros grandes e lisos.

Os pesquisadores a apelidaram de ‘locomoção do laço’, porque a cobra sobe em postes laçando seu corpo ao redor das estruturas cilíndricas, prendendo-as firmemente em um laço do tronco à cauda.

O fenômeno, que expande o conhecido repertório de escalada de cobras, parece permitir que a cobra-arbórea-marrom (Boiga irregularis) suba por cilindros lisos muito maiores do que em qualquer comportamento de escalada conhecido anteriormente – e pode constituir a primeira forma inteiramente nova de movimento de cobra identificada na história recente.

“Por quase 100 anos, toda a locomoção de cobras foi tradicionalmente categorizada em quatro modos: retilíneo, ondulação lateral, enrolamento lateral e sanfona”, explica uma equipe de pesquisa liderada pela bióloga conservacionista Julie Savidge da Universidade do Estado de Colorado (EUA) no novo paper.

(Créditos: Savidge et al., Current Biology, 2020)

Outro tipo de movimento de cobra, o deslizamento, também é reconhecido por alguns na comunidade científica como uma forma distinta de locomoção e ocorre em superfícies planas. Além disso, alguns sugeriram que as categorizações existentes deveriam ser mais diversas do que as previamente reconhecidas.

Em qualquer caso, a locomoção do laço é bastante diferente de todas as formas reconhecidas de movimento de cobra, e foi uma descoberta casual feita durante um projeto de conservação em Guam, onde a cobra-arbórea-marrom – uma espécie invasora acidentalmente introduzida no território insular dos EUA em meados do século 20 – devastou as populações de pássaros locais (e muito mais).

Ao revisar as filmagens de vídeo de estruturas defletoras de metal experimentais – projetadas para proteger os pássaros evitando que as cobras alcancem as caixas protegidas onde eles estavam – a equipe percebeu algo único.

“Tínhamos assistido cerca de quatro horas de vídeo e, de repente, vimos essa cobra formar o que parecia um laço em volta do cilindro e balançar seu corpo para cima”, explica o pesquisador de medicina selvagem Thomas Seibert .

“Assistimos a essa parte do vídeo cerca de 15 vezes. Foi um choque. Nada que eu já tenha visto se compara a isso.”

 

No movimento observado, as cobras escalaram cilindros lisos e verticais usando a postura corporal distinta em forma de laço, com a cabeça e o pescoço orientados acima da alça corporal posterior que circunda e agarra o cilindro.

Embora a técnica permita que a cobra-arbórea-marrom suba em cilindros com o dobro do diâmetro daqueles onde foram estudados os outros métodos, como o movimento da sanfona – que também envolve agarramento por fricção e é usada para subir árvores e estruturas – não é fácil fazer esse movimento.

“Velocidades lentas, escorregões, pausas frequentes e respiração pesada durante essas pausas sugerem que a locomoção do laço é algo que exige muito esforço”, escreveram os pesquisadores.

“Mesmo que elas possam escalar usando esse modo, elas estão se esforçando bastante”, disse o biólogo Bruce Jayne, da Universidade de Cincinnati (EUA). “As cobras param por longos períodos para descansar.”

(Créditos: Thomas Seibert)

Agora que sabemos sobre a locomoção por laço, os pesquisadores esperam tornar o esforço ainda mais desafiador para as cobras, com novos tipos de barreiras e obstruções projetadas especificamente para conter essa forma inesperada de movimento vertical.

Isso pode soar cruel, mas tudo isso é para dar às populações de pássaros em declínio de Guam – junto com outros membros do ecossistema que dependem deles – uma esperança de sobrevivência em face de uma ameaça mortal que pode rastejar de maneiras que a gente não conhece.

“A maioria das aves nativas da floresta sumiram em Guam”, disse Savidge.

“Esperamos que o que descobrimos ajude a restaurar os estorninhos e outras aves ameaçadas de extinção, já que agora podemos projetar defletores que as cobras não podem enfrentar. Ainda é um problema bastante complexo.”

Os resultados são relatados na Current Biology.