Cientistas se apressam para desenterrar um barco funerário viking raro antes que ele se desintegre

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Créditos: Agence France-Presse / Museu de História Cultural / Margrethe KH Havgar.

Por Pierre-Henry Deshayes
Publicado na ScienceAlert

Centímetro por centímetro, os cientistas vasculham cuidadosamente o solo em busca de relíquias milenares. Correndo contra o tempo, mas extremamente meticulosos, os arqueólogos da Noruega estão exumando um raro túmulo de barco viking na esperança de descobrir seus segredos.

Quem está enterrado nele? Sob qual ritual? O que resta das ofertas funerárias? E o que ele podem nos dizer sobre a sociedade que viveu aqui?

Agora reduzido a pequenos fragmentos quase indistinguíveis na grama que o cobre, o barco de madeira de 20 metros levanta uma série de questões.

A equipe de arqueólogos está correndo para resolver pelo menos parte do mistério antes que a estrutura seja totalmente destruída por fungos microscópicos.

É uma tarefa com uma grande motivação: não foi escavado nenhum barco viking em mais de um século.

A última foi em 1904, quando o Barco de Oseberga foi escavado, não muito longe dali, do outro lado do Fiorde de Oslo, no qual os restos mortais de duas mulheres foram descobertos entre os achados.

“Temos muito poucos barcos funerários”, disse a chefe da escavação, Camilla Cecilie Wenn, do Museu de História Cultural da Universidade de Oslo.

“Tenho muita sorte, poucos arqueólogos têm essa oportunidade em sua carreira”.

Sob uma tenda gigante cinza e branca colocada no meio de cemitérios antigos perto da cidade de Halden, no sudeste, uma dúzia de trabalhadores em coletes de alta visibilidade se ajoelha ou deita no chão, examinando a terra.

Enterrado no subsolo, os contornos do navio foram detectados em 2018 por equipamentos de radar geológico, enquanto especialistas faziam buscas no conhecido local Viking.

Quando as primeiras escavações experimentais revelaram o avançado estado de decomposição do navio, foi tomada a decisão de escavá-lo rapidamente.

Viking VIP

Até agora, apenas partes da quilha foram escavadas em condições razoáveis.

As análises das peças determinaram que o navio foi provavelmente erguido no solo por volta do século IX, colocado em uma cova e enterrado sob um monte de terra como local do descanso final.

Mas para quem? “Se você for enterrado com um navio, fica claro que foi um VIP (da expressão inglesa Very Important Person, com tradução literal para ‘pessoa muito importante’) por toda a sua vida”, disse Wenn.

Um rei? Rainha? Um nobre viking, conhecido como jarl? A resposta pode estar nos ossos ou objetos ainda não encontrados – armas, joias, vasos, ferramentas, etc. – que são típicos nos túmulos da Era Viking, de meados do século VIII a meados do século XI.

No entanto, o local foi violado várias vezes, acelerando a desintegração do barco e reduzindo a chance de encontrar relíquias.

No final do século 19, o túmulo foi demolido para dar lugar a terras agrícolas, destruindo totalmente a parte superior do casco e danificando o que se acredita ter sido a câmara funerária.

Também é possível que o túmulo tenha sido saqueado muito antes disso, por outros vikings ansiosos por colocar as mãos em algumas das preciosas ofertas funerárias e para afirmar simbolicamente seu poder e legitimidade.

Ossos de animais

Até agora, a recompensa dos arqueólogos é bastante escassa: muitos rebites de ferro usados ​​para a montagem do barco, a maioria fortemente corroída com o tempo, bem como alguns ossos.

“Esses ossos são grandes demais para serem humanos”, disse a assistente de campo Karine Fure Andreassen, enquanto se inclinava sobre um grande osso tingido de laranja.

“Não é para um rei Viking que estamos olhando, infelizmente, é provavelmente um cavalo ou gado”.

“É um sinal de poder. Você era tão rico que um animal podia ser sacrificado para ser enterrado”, explica ela.

Ao lado da tenda, Jan Berge parecia estar garimpando ouro. Ele estava peneirando o solo e borrifando água na esperança de encontrar uma pequena relíquia do passado.

“Fazendo um achado excepcional agora? Duvido”, admite o arqueólogo. “Os itens mais preciosos provavelmente já foram levados. E qualquer coisa feita de ferro ou material orgânico se desgastou com o tempo ou desapareceu completamente”.

Mas Berge, cuja grande barba espessa lhe dá o ar de um viking, não desanima facilmente.

“Não estou aqui para uma caça ao tesouro”, disse ele. “O que me interessa é saber o que aconteceu aqui, como foi realizado o funeral, como interpretar as ações da época”.