Classificação Zoológica e Taxonômica – Parte I

0
2674
Carl Nilsson Linnæus, Carolus Linnaeus, ou mesmo Carl von Linné, grande expoente da classificação dos seres vivos, considerado o pai da taxonomia moderna.

Reproduzido e adaptado de Revista Educação Pública

A sistemática é a ciência da biodiversidade, isto é, a área da Biologia que agrupa todo o conhecimento sobre os organismos vivos (sua diversidade e todas as suas relações). Uma das atividades da sistemática é classificar a diversidade biológica. Nesta primeira parte de uma série de matérias sobre o assunto, veremos as primeiras noções sobre sistemática ou taxonomia animal e noções básicas acerca de nomenclatura zoológica.

Taxonomia ou sistemática?
TAXO 1-2
Para alguns autores, existem certas diferenças entre taxonomia e sistemática. Segundo eles, a taxonomia é empírica e descritiva, acumulando informação e gerando as primeiras hipóteses explicativas acerca da classificação dos organismos, enquanto a sistemática é uma ciência de síntese, de abstração de conceitos e de teorias explicativas dos fenômenos observados.

Taxonomia
Criado por Alphonse de Candolle (1806-1893), o termo taxonomia já recebeu, dentre outras, as definições de i) estudo teórico da classificação, incluindo as suas bases, princípios, procedimentos e regras; ii) teoria e prática da classificação; iii) ciência da classificação, envolvendo a teoria e a prática da classificação.

Mas quase todas essas definições tinham como objetivos classificar (ordenação) e nomear (nomenclatura — de acordo com o Código Internacional da Nomenclatura Zoológica e Comissão Internacional)

Os primeiros naturalistas empregavam o termo sistemática ao se referirem aos sistemas de classificação dos organismos. Por exemplo, já em 1735, o naturalista Carolus Linnaeus o aplicou à sua obra Systema naturae.

Desde então, a sistemática tem sido definida como:
TAXO 3
O estudo da diversidade dos organismos e das relações (no sentido de interações biológicas e não filogenéticas) entre eles; a ciência da diversidade dos organismos; a taxonomia que inclui as interações biológicas — sistemas reprodutivos e genéticos, processos filogenéticos e evolutivos, biogeografia e sinecologia.

Sistemática como sinônimo de taxonomia
Alguns autores consideram a taxonomia e a sistemática áreas idênticas. Para Stephen J. Gould, a taxonomia é menosprezada com frequência como se fora uma forma “glorificada” de arquivar. Porém, em realidade, trata-se de uma ciência fundamental e dinâmica, dedicada a explorar as causas das relações e similaridades entre organismos. As classificações são teorias acerca da base da ordem natural e não tediosos catálogos compilados com o único fim de evitar o caos.

Nesse sentido, a sistemática é a área da Biologia que estuda a diversidade dos organismos, descrevendo-os, definindo suas áreas de distribuição geográfica, estabelecendo suas relações biológicas e filogenéticas e propondo classificações.

Com o atual empobrecimento da biodiversidade, em grande parte resultado de atividades antrópicas, tem aumentado progressivamente o interesse por essa área nos últimos anos. Recentemente, a comunidade científica propôs um programa global para o conhecimento e a conservação da biodiversidade, denominado “Sistematics – Agenda 2000” (Figura 1). Este programa pretende i) descobrir, descrever e inventariar a diversidade biológica (Quais as espécies existentes? Quais suas características? Onde ocorrem?); ii) analisar as informações propondo uma classificação que reflita a história evolutiva da vida (Como as espécies se relacionam?) e iii) organizar essas informações, visando a servir melhor à ciência e à sociedade.

Nomenclatura
Como visto anteriormente, a nomeação da biodiversidade é, também, um dos objetivos da sistemática. Diversos organismos são batizados pela população com nomes que são denominados populares ou vulgares pela comunidade científica.

Esses nomes podem designar um conjunto muito amplo de organismos, incluindo, algumas vezes, até grupos não aparentados (não relacionados filogeneticamente). Vejamos alguns exemplos a seguir.

Muitas pessoas chamam de insetos os próprios insetos (Insecta), muitas aranhas e ácaros (Arachnida) e até ratos (Mammalia). Muitas vezes, são chamados de vermes os animais de aspecto repugnante, como minhocas, insetos, aranhas, animais parasitas etc. O nome barata aplica-se a todas as baratas, mas, em um sentido mais amplo, aplica-se também a alguns besouros ou mesmo crustáceos. Por outro lado, um nome popular pode ser restrito a uma única espécie, por exemplo:

07a
1. Lobo-guará é um dos nomes populares que designa apenas o nosso lobo Chrysocyon brachyurus.
2. Acará-bandeira é o nome popular dado somente ao peixe amazônico Pterophyllum scalare, um dos mais populares entre os aquariofilistas.
3. Arlequim da mata é o nome dado apenas aos besouros serra-paus da espécie Acrocinus longimanus.
4. Mosca doméstica designa apenas as moscas da espécie Musca domestica.

Os nomes podem ser regionais, ou seja, o mesmo animal pode apresentar nomes diferentes para cada região — por exemplo, a onça pintada, Panthera onca, pode ser chamada popularmente de vários nomes, tais como acanguçu, canguçu, jaguar, jaguarapinima, jaguaretê etc., e é para dar fim a essas subjetividades e relatividades regionais que a comunidade científica achou mais razoável usar um sistema de nomenclatura oficialmente universal.

Para a ciência, os organismos são batizados com nomes próprios, denominados nomes científicos. Os Códigos Internacionais de Nomenclatura foram elaborados com a finalidade de permitir a comunicação entre a comunidade científica. Os seguintes códigos regulamentam a nomenclatura científica biológica:

Código Internacional de Nomenclatura Zoológica (International Code of Zoological Nomenclature).
Código Internacional de Nomenclatura Botânica (International Code of Botanical Nomenclature).
Código Internacional de Nomenclatura para Plantas Cultivadas (International Code of Nomenclature for Cultivated Plants).
Código Internacional de Nomenclatura Bacteriana (International Code of Nomenclature of Bacteria).
Código Internacional de Classificação e Nomenclatura de Vírus (International Code of Virus Classification and Nomenclature).

O sistema pelo qual os nomes científicos são compostos e aplicados a cada unidade taxonômica animal, existentes na natureza ou extintos, é denominado nomenclatura zoológica. Para reger esse sistema foi elaborado, em 1961, o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, que, atualmente, encontra-se em sua quarta edição, publicada em 2000. Ele é um documento adotado pela comunidade zoológica internacional. Por uma questão histórica, ainda hoje ele também é utilizado para os protozoários (reino Protista). O objetivo do código é promover a estabilidade e a máxima universalidade dos nomes científicos dos animais e assegurar que o nome de cada táxon seja único e distinto. Dessa forma, o nome correto de um táxon i) não deve ser modificado injustificadamente;
ii) é válido em qualquer parte do mundo; iii) deve ser um único nome válido; iv)
deve corresponder a um único táxon (existem exceções em categorias superiores: domínio, reino, classe, ordem etc.).

O que é uma espécie?
Responder a esta questão, aparentemente, é bastante simples para as pessoas comuns, mas a Biologia ainda não conseguiu encontrar uma resposta satisfatória para ela.

A criação do código não cerceou a liberdade de pensamento do zoólogo, uma vez que não importa qual o conceito de espécie ou subespécie adotado por ele. O zoólogo deve observar, estudar, fazer experiências e tirar suas conclusões. Qualquer que seja o conceito adotado, se ele disser que um determinado táxon é uma espécie, o código regulamenta apenas a forma de nomeá-la.

Em termos nomenclatórios, espécie é, geralmente, o táxon (ou grupo taxonômico) de nível mais baixo utilizado nas classificações. De acordo com Mayr, “a espécie-táxon é um objeto natural reconhecido e definido pelos taxonomistas e a espécie-categoria é o lugar, em uma classificação, dado à espécie-táxon”.

Táxon
É um determinado grupo de organismos, baseado em uma definição. Cada um dos nomes citados a seguir são nomes dados aos taxons:

Animalia, Chordata, Mammalia, Carnivora, Felidae, Panthera, Panthera onca (Onça pintada);
Animalia, Chordata, Mammalia, Perissodactyla, Tapiridae, Tapirus, Tapirus terrestris (Anta);
Animalia, Arthropoda, Insecta, Hymenoptera, Apidae, Apis, Apis mellifera (Abelha produtora de mel);
Animalia, Platyhelminthes, Trematoda, Strigeatida, Schistosomatidae, Schistosoma, Schistosoma mansoni (Esquistossoma ou xistossomo, causador da esquistossomose).

Categoria
Categoria taxonômica é um determinado nível hierárquico no qual certos táxons são classificados. São categorias taxonômicas: domínio, reino, filo, classe, ordem, família, tribo, gênero, espécie, bem como outras categorias suplementares necessárias. A cada uma das categorias, pode-se, ainda, acrescentar os prefixos super/sub e/ou infra, criando novas subdivisões, como por exemplo: superfilo, subfilo, superclasse, subclasse, infraclasse, superordem, subordem, infraordem. Às categorias família, tribo gênero e espécies, pode-se acrescentar os prefixos super e/ou sub, gerando novas subdivisões, como por exemplo, superfamília, subgênero, subespécie etc. Vários táxons que você provavelmente conhece representam estas categorias taxonômicas. Por exemplo:

Arthropoda (artrópodes), Chordata (cordados), Mollusca (moluscos), Porifera (esponjas do mar) representam a categoria filo e Vertebrata (vertebrados), a categoria subfilo.
Mammalia (mamíferos), Aves (aves e pássaros), Amphibia (pererecas, rãs, salamandras e sapos), Insecta (insetos), Arachnida (aranhas, ácaros, escorpiões etc.), Gastropoda (caracóis, caramujos e lesmas) são taxons tradicionalmente incluídos na categoria classe.
Homo sapiens (homem), Panthera onca (onça pintada), Tapirus terrestris (anta), Harpia hapyja (hárpia ou gavião-real), Anodorhynchus hyacinthinus (arara-azul), Boa constrictor (jiboia), Apis mellifera (abelha), Taenia solium (solitária do porco) são táxons incluídos na categoria espécie.

Resumo e conclusão
Os termos taxonomia e sistemática têm sido usados de forma distinta por alguns pesquisadores; entretanto, atualmente podem ser utilizados como sinônimos, correspondendo ao ramo da Biologia que estuda a diversidade orgânica, estabelecendo suas relações biológicas e filogenéticas e propondo classificações. A nomeação desta biodiversidade é também objetivo da sistemática ou taxonomia e tem por objetivo uniformizar a nomenclatura para a comunicação entre os cientistas. A nomenclatura científica se faz necessária, pois a nomenclatura popular utiliza-se muitas vezes de um mesmo nome para várias espécies ou de nomes diferentes para uma única espécie devido a diferenças regionais. A nomenclatura científica é regida por diversos códigos, como, por exemplo, o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica, que tem por objetivo promover a estabilidade e universalidade dos nomes científicos dos animais e assegurar que o nome de cada táxon seja único e distinto.

O conceito de táxon é aplicado a um grupo de organismos baseados em uma definição, como Animalia, Insecta etc. Categoria é o nível hierárquico no qual os táxons são classificados, o táxon Animalia é da categoria de Reino; Insecta é da categoria de Classe. Cada uma das categorias pode ser subdividida com o acréscimo dos prefixos super, sub e/ou infra. Dessa forma, as categorias taxonômicas, se completas em ordem de hierarquia, ficam, aproximadamente, como: domínio, reino, subreino, infrarreino, filo, subfilo, infrafilo, superclasse, classe, subclasse, infraclasse, superordem, ordem, subordem, infaordem, parvordem, superfamília, família, subfamília, tribo, subtribo, gênero, subgênero, espécie, subespécie e infraespécie. 

CONTINUAR LENDO