Classificação Zoológica e Taxonômica – Parte II

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Ernst Heinrich Philipp August Haeckel (1834-1919). Zoólogo, médico, filósofo, naturalista e artista científico alemão.

Reproduzido e adaptado de Revista Educação Pública

A nomenclatura se tornou fundamental para a classificação da diversidade biológica, que é uma das principais atividades da sistemática. Nesta segunda parte (primeira parte aqui), veremos alguns critérios de classificação, os quais permitem agrupar objetos (animados ou inanimados — indivíduos, espécies ou grupos de espécies) em classes ou categorias, com base em propriedades que lhes são características. Também lidaremos com os princípios da Classificação Zoológica.

A história da sistemática ou taxonomia perde-se na Antiguidade. Sua origem se confunde com a da linguagem, do conhecimento e do pensamento, isto é, com o início da humanidade. Para a comunicação, é essencial a existência de nomes e de conhecimento acerca dos objetos (entidade individual) a serem nomeados. Os substantivos correspondem às classes de objetos aos quais se aplica o mesmo nome. Por exemplo, você viu um beija-flor mês passado, outro ontem e outro hoje. Os beija-flores não eram exatamente iguais, mas existe algo em comum entre eles. Esse algo é que define a classe “beija-flor”. Estas classes podem ser agrupadas, também, em classes. Dessa forma, seus elementos podem, igualmente, formar classes.

Distinção entre objeto e classe
Tomaremos como um exemplo fictício a casa da família Folclore-Brasileiro, onde moram Curupira, o patriarca, Dona Beija, a matriarca, e seus filhos Mapinguari e Iara. A família Folclore-Brasileiro possui um casal de cachorros, Saci-pererê e Mula-sem-cabeça, e uma galinha chamada Jabiraca.

Família Folclore-Brasileiro. Curupira (pai), Dona Beija (mãe), Mapinguari (filho), Iara (filha), Saci-pererê (cachorro), Mula-sem-cabeça (cadela) e Jabiraca (galinha)A casa dos Folclore-Brasileiro é dividida em cômodos e nela encontramos vários objetos, tais como móveis, aparelhos elétrico-eletrônicos, talheres etc.
11_05_bVejamos agora, com base no exemplo acima, a distinção entre objeto e classe.

Objetos
Um objeto pode ser definido como cada uma das entidades identificáveis num dado domínio de aplicação. Considere, neste momento, como nosso domínio de aplicação específico, a casa da família Folclore-Brasileiro. Essa casa pode ser uma composição de entidades (objetos) específicas, como:
1111Nessa casa, você pode encontrar, também, objetos que, geralmente, não têm designação específica que os identifique individualmente, tais como:
222Observe que um objeto (por exemplo: cômodos) pode representar um agregado de outros objetos (suas partes constituintes). No exemplo da casa dos Folclore-Brasileiro, pode-se visualizar vários objetos que a compõem. A figura a seguir mostra que o objeto casa é composto por vários outros objetos.
11_06Em uma visão diferente, porém equivalente, podemos representar a casa e seus objetos constituintes da seguinte forma:
11_07Quando examinamos a frase “Mapinguari e Iara estão brincando na chuva com Saci-pererê e Mula-sem-cabeça”, percebemos que foram feitas referências a objetos específicos. Nesse caso, podemos identificar precisamente os objetos que foram referenciados — as crianças chamadas Mapinguari e Iara e os cachorros Saci-pererê e Mula-sem-cabeça. Agora, se examinarmos as frases “O cão é o melhor amigo do homem” ou “No campo, as pessoas deitam-se com as galinhas”, perceberemos que as palavras cão, homem, pessoas e galinhas não fazem referência a nenhum objeto específico. Essas palavras foram utilizadas para fazer referência àqueles objetos que de alguma forma podem ser identificados como sendo um cão, um homem, uma pessoa ou uma galinha.

Classes
Observe que os objetos citados anteriormente podem ser agrupados em categorias ou classes. Existem objetos que são animais, outros que são pessoas, outros cães, outros talheres, outros garfos, outros joias, outros ferramentas etc. As definições dessas classes baseiam-se em semelhanças compartilhadas, ou seja, essas classes reúnem objetos com base em algum conjunto de propriedades — características — comum a todos esses objetos. Por exemplo, podemos definir o objeto homem como mamífero com poucos pelos, sem cauda, bípede, que fala e raciocina. Apenas com essa definição simplificada, já podemos diferenciar o homem de uma porta, já que é sabido que nas portas não nascem pelos e que elas tampouco mamam, falam ou raciocinam.

Note que existe uma categorização — classificação — dos objetos. Vários desses objetos e suas categorias podem ser reunidos em categorias mais abrangentes, formando um sistema hierárquico contínuo, como você pode ver a seguir:
11_08Na figura podemos perceber que, quando hierarquizadas, as classes tornam-se mais específicas à medida que se posicionam em níveis mais baixos. Por exemplo, a classe das Mobílias denota um grande número de objetos, incluindo os objetos das classes: Camas, Guarda-roupas e Mesas. Dessa forma, Cama é uma especialização — subclasse — de Mobília, pois ela denota objetos que possuem características mais particulares. Em uma perspectiva inversa, as classes tornam-se mais genéricas quanto mais próximas do topo da hierarquia. Nesse caso, a classe Mobília é uma generalização — superclasse — das classes Camas, Guarda-roupas e Mesas.

Dependendo do contexto, diferentes classificações podem ser produzidas para uma mesma classe de objetos. Considere a seguinte imagem:
11_09aUma determinada pessoa pode separar a classe Moedas, considerando sua coloração como forma de especialização, nas classes Moedas Prateadas e Moedas Não Prateadas. Dessa forma, obtém-se, então:
11_09bObserve que a moeda de R$ 1,00 não se encaixa perfeitamente em nenhum dos grupos. Nesse caso, ela pode ser incluída em qualquer dos dois grupos ou, ainda, formar um novo grupo.

Outra pessoa pode subdividir esta mesma classe, segundo seus numerais, em: Moedas com o número 1 e Moedas com o número 5. Dessa forma, obtém-se, então:
11_09cE outra pessoa pode, ainda, subdividi-la em moedas fabricadas com apenas um tipo de liga metálica e moedas com dois tipos de ligas:11_09dAgora, você pode perceber que o nível de detalhamento também varia. Por exemplo, se considerarmos a classe Animal, em um determinado contexto, é possível subdividi-la em: Cachorro, Galinha e Homem.
11_10aEntretanto, para certas aplicações faz-se necessário um nível maior de detalhamento. Dessa forma, a classe Animal pode ser subdividida, seguindo a própria taxonomia animal, em:11_10bÉ possível descrever as estruturas de cada uma destas classes da seguinte forma:
11_10cComo você pode perceber, os conceitos de objetos e de classe são relativos, isto é, o que é um objeto em um determinado nível de generalidades pode ser uma classe em um nível mais amplo, e vice-versa. Por exemplo, se você tomar como referência as pessoas que formam a população de uma determinada região, nesse nível de generalidades cada pessoa representa um objeto. Contudo, se tomarmos, agora, as células que constituem o corpo de cada pessoa, as células representam objetos e cada pessoa passa a representar uma classe.

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Herança de propriedades
Analisando o exemplo da classe Animal, podemos perceber que as três primeiras propriedades ou características (Amniota, Tetrápode, Vertebrado) são comuns às duas classes. Como ambas são subclasses da classe Animal, as características comuns a elas podem ser descritas diretamente na classe Animal. Desse modo, não há repetição dessas características, como observado nas figuras anteriores.
11_11Essas duas formas de representar a classe Animal apresentam o mesmo efeito final, ou seja, tanto os objetos pertencentes à classe Aves quanto os pertencentes à classe Mamíferos terão as cinco características (as três comuns e as duas particulares). Quando uma classe é constituída por outras classes, estas herdam algumas das características da classe mais elevada. No caso das Aves e Mamíferos, as três características que lhes são comuns representam uma herança da classe Animal. A presença de glândulas mamárias é comum a todos os mamíferos e deve ser descrita diretamente nesta classe.

Por herança, todas as subclasses de mamíferos e as subclasses destas subclasses passam a apresentar tal característica. Dessa forma, evita-se a necessidade de descrevê-la em cada uma das subclasses de Mamífero. Segundo este mecanismo de herança, um objeto da classe Aves, por exemplo, apresenta quatro membros (apêndices), além de outras características que serão descritas diretamente na classe Aves.

Classificar para quê?
Quando uma criança de dois anos, ao ouvir um disco com cantos de pássaros, se refere aos sons que está ouvindo como sendo de uma cocó (galinha), ela está, por associação, reconhecendo os animais da classe Aves.

Para Aristóteles, quando as coisas são reconhecidas, elas são ordenadas em diferentes grupos ou categorias. No exemplo dos beija-flores, você viu um beija-flor mês passado, outro ontem e outro hoje. Os beija-flores não eram exatamente iguais, mas existe algo em comum entre eles. Esse algo é que define a classe “beija-flor” — a coisa comum a todos os beija-flores é a forma. Tudo o que é distinto ou individual pertence à substância do beija-flor. Segundo Aristóteles, todas as coisas, na natureza, fazem parte de diferentes grupos e subgrupos.

No exemplo da família Folclore-Brasileiro, Saci-pererê é um ser vivo. Ou melhor, um animal. Ou melhor, um animal doméstico. Ou melhor, um cachorro. Ou melhor, um vira-lata. Ou melhor, um vira-lata macho.

Como você pode perceber, o ser humano está sempre agrupando objetos em classes ou classificando-os. Esta atividade é inata e essencial à comunicação. O processo classificatório pode gerar dois tipos de classificações:

Classificações artificiais ou arbitrárias: nas quais os objetos são agrupados por semelhanças, com um objetivo prático (por exemplo: animais domésticos/animais selvagens; animais venenosos/animais não venenosos; animais comestíveis/animais não comestíveis). Classificar carros, livros, parafusos, selos (etc.) é outro exemplo de classificação por conveniência. Tais classificações podem apresentar um conteúdo de informação reduzido ou grande.

Classificações naturais: nas quais a origem e o comportamento dos objetos são governados por processos naturais. As classificações naturais podem ou não se apresentar hierarquizadas. A tabela periódica é um exemplo de classificação de classes naturais não hierárquica. A classificação de indivíduos e grupos históricos é exemplo de classificação hierárquica.

Classificações biológicas
Nas classificações biológicas, os objetos correspondem aos seres vivos individualmente, às categorias, aos táxons; suas definições, aos caracteres compartilhados.

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A árvore de Porfírio

Uma das primeiras tentativas de classificar o reino animal foi realizada por Aristóteles. Ele estava interessado no problema da definição de grupos naturais e enfatizou a importância da morfologia na classificação animal. Para ele, os animais caracterizavam-se de acordo com o seu modo de vida, suas ações, seus habitats e o seu aspecto físico. Por exemplo: animais — com sangue e sem sangue; animais com sangue — ovíparos, ovovivíparos e vivíparos…

Por um longo período conheceu-se apenas os animais ocorrentes no Velho Mundo. Dessa forma, a noção de espécie era restrita e pontual e cada espécie era definida por exemplares locais (sem dimensão horizontal/geográfica). Nesse período, acreditava-se, também, que Deus era o criador de todas as espécies animais (sem dimensão vertical/temporal).

Na Europa, durante a Idade Média, um dos diagramas favoritos era a Árvore de Porfírio. Este tipo de diagrama é baseado na presença ou na ausência de simples caracteres.

Somente durante o período renascentista houve a renovação das ciências naturais, despertada pelo interesse na observação e interpretação da natureza. A partir do século XVI, o estudo dos animais sofreu um novo incremento com os trabalhos de naturalistas exploradores.

A história natural do século XVIII foi dominada por Buffon (1707-1778) e por Linnaeus (1707-1788). Linnaeus desempenhou um papel fundamental na racionalização da classificação e da nomenclatura. O sistema linneano de classificação é um sistema hierárquico de classes ou categorias. Cada categoria corresponde a um nível onde categorias mais abrangentes podem incluir categorias menores. Ele acreditava que cada espécie fora criada separadamente e, em seu sistema, reconhecia apenas as categorias Reino (Regnum), Classe (Classis), Ordem (Ordo), Gênero (Genus), e Espécie (Species).

Com o aumento do conhecimento acerca da diversidade de organismos, fez-se necessária a criação de categorias intermediárias, tais como superclasse, subclasse, superfamília, subfamília, tribo, divisão etc. Com essas inovações, criou-se um sistema mais complexo, com maior número de níveis de inclusões.

A grande maioria dos taxonomistas do século XIX, embora criacionistas, procurava por um sistema natural de classificação. Para eles, existia uma relação real na natureza, como resultado da criação, que não pode ser diretamente observada. Contudo, através de estudos das semelhanças e diferenças entre os organismos, as relações naturais podem ser descobertas. As verdadeiras semelhanças ou afinidades naturais foram designadas como homologias, e as falsas semelhanças ou afinidades foram designadas como analogias. A partir da distinção entre homologias e analogias era possível descobrir estas relações e gerar a base do sistema natural de classificação, harmonizando com o plano da criação.

Depois que os cientistas aceitaram o princípio da evolução biológica, a afinidade natural foi vista como um resultado da mutabilidade e ancestralidade comum das espécies. A proximidade entre organismos passou a ser representada graficamente por “árvores genealógicas” ou “árvores filogenéticas”. Em 1866, Ernst Haeckel construiu a primeira árvore filogenética, refletindo a correspondência entre os organismos e os ramos da árvore. A partir desse momento, a filogenia passou a ocupar-se do estudo da origem e evolução dos táxons.

Com a Teoria da Evolução de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace, o princípio de proximidade entre descendentes (relacionamento filogenético) passou a dar subsídios para as classificações biológicas. Embora tenhamos uma metodologia consistente para gerar hipóteses de relacionamento filogenético (filogenias), as classificações baseadas nessas hipóteses ainda hoje adotam o sistema linneano. Em outras palavras, a diversidade biológica é dinâmica, encontrando-se em um constante estado de mudança (evoluindo), e a estrutura das classificações é estática, desenvolvida para um sistema fixo de categorias taxonômicas. Para tentar resolver esse problema, novas propostas de classificações estão surgindo.

Observe que as classificações são um sistema geral de referência acerca da diversidade biológica e devem ser um reflexo inequívoco do conhecimento atual sobre as relações de parentesco entre os táxons (filogenia). “Ler” uma classificação é recapitular a história evolutiva do grupo.

Resumo e conclusão
A Classificação tem por objetivo principal organizar o conhecimento e facilitar a comunicação acerca dos objetos de estudo. Os objetos, por sua vez, podem ser agrupados em categorias ou classes. As classes são definidas por semelhanças compartilhadas, ou seja, suas características. Em uma classificação, os objetos e suas categorias podem ser reunidos em categorias mais abrangentes, originando uma classificação hierárquica. Nesta hierarquia, os objetos ou classes apresentam características comuns, pelas quais são agrupados; e particulares, pelas quais se diferenciam. Na classificação biológica, os objetos são os seres vivos e as categorias são os diferentes táxons, os quais são definidos pelos caracteres compartilhados. Como a classificação biológica é um sistema de referência da diversidade biológica, ela deve ser um reflexo do conhecimento sobre as relações de parentesco entre os táxons, recapitulando a história evolutiva do grupo.

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