Como combater fake news com (alguma) eficácia, com base na psicologia social

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Crédito: Getty Images.

Publicado na Política na Cabeça

Jamais ofenda a inteligência de quem compartilha uma fake news. Faça isso e seu canal de comunicação com a pessoa estará fechado, além de gerar a antipatia de terceiros que possam estar acompanhando o diálogo. Eis o primeiro (e importantíssimo) ponto.

A leitora provavelmente já desconfiou da capacidade cognitiva de quem acredita nas fake news mais absurdas – quem não se lembra da bizarra mamadeira erótica [1]? No entanto, quem acredita nelas e nas teorias conspiratórias o faz movido por impulsos psicológicos – a ciência os chama de vieses cognitivos – e não simplesmente por ignorância ou estupidez. Compreender essa diferença, assim como entender o funcionamento desses mecanismos psicológicos, é fundamental se você quer se somar ao esforço de combater a proliferação de informações falsas.

Fake news e o trio traiçoeiro da psicologia

“Um homem com uma convicção é um homem difícil de mudar. Diga-lhe que você discorda e ele vira as costas. Mostre-lhe fatos ou estatísticas e ele questiona suas fontes. Apele à lógica e ele não enxerga seu ponto”. (Leon Festinger)

As pessoas tendem a acreditar em fake news que tenham alguma relação com suas crenças preexistentes. É o chamado viés de confirmação, como vimos na primeira publicação da série (leia aqui). Quando demonstramos à pessoa que se trata de uma notícia falsa, disparamos nela uma espécie de mal-estar psicológico, a chamada dissonância cognitiva (ver a segunda publicação), daí sua resistência em admitir a falsidade da informação na qual crê. Para aliviar essa tensão psicológica, em vez de admitir que compartilhou algo falso, uma estratégia mental comum que o indivíduo pode se valer é a ativação do raciocínio motivado, fenômeno que completa o trio traiçoeiro da psicologia.

Conhecendo o conceito científico

Basicamente, o raciocínio motivado é o viés de confirmação com anabolizantes. Processamos informações que estejam de acordo com nossas crenças de forma muito distinta da maneira que processamos as que contradizem nossas convicções. Assim, se nos deparamos com uma informação que “bate” com o que já acreditamos ou queremos que seja verdade, rapidamente a aceitamos como verdadeira, factual, e vida que segue. Por outro lado, quando somos expostos a dados que entram em contradição com uma crença consolidada, tendemos a examiná-los muito mais profundamente. Imediatamente, buscamos encontrar falhas (ainda que inexistentes) nessa nova informação para podermos descartá-la e, consequentemente, mantermos nossas crenças, potencialmente equivocadas. Eis o raciocínio motivado, fenômeno há décadas conhecido pela psicologia social e, mais recentemente, confirmado pela neurociência.

Regiões do cérebro mais significativamente acionadas durante o raciocínio motivado. Fonte: Neural Bases of Motivated Reasoning: An fMRI Study of Emotional Constraints on Partisan Political Judgment in the 2004 U.S. Presidential Election, Journal of Cognitive Neuroscience, MIT, 2006.

Em um estudo de ressonância magnética funcional (fMRI), pesquisadores da Emory University, em Atlanta, EUA, revelaram algumas das regiões neurais relacionadas a esse fenômeno do comportamento humano [2]. Voluntários tiveram seus cérebros escaneados enquanto eram induzidos ao raciocínio motivado, por exemplo, por meio da exposição a informações hostis sobre seu candidato nas eleições presidenciais de 2004. Como já era esperado pelos pesquisadores, o estudo revelou que nenhuma das áreas acionadas durante o raciocínio motivado estava relacionada às que são comumente ativadas em tarefas que exigem a forma de pensar do raciocínio frio, não emocional.

A esta altura, a leitora pode estar se perguntando: na prática, como esse fenômeno ajuda a entender o comportamento de quem crê em fake news e em teorias conspiratórias e as compartilha?

Raciocínio motivado, fake news e política

Suponhamos, por um instante, que um deputado federal bastante conhecido compartilhe uma montagem pejorativa sobre Greta Thunberg, ativista do clima [3]. Sendo um político com mihões de seguidores, várias pessoas automaticamente compartilham a montagem. Digamos que você se depara com um desses compartilhamentos nas redes sociais. Quase que como um dever cívico, você decide postar um link, que por acaso é do G1 (Grupo Globo), alertando a pessoa de que se trata de uma fake news [4].  Seu interlocutor tende a entrar em dissonância cognitiva e, para diminuir o mal-estar psicológico gerado, em vez de simplesmente admitir e apagar o post, imediatamente questiona sua fonte e afirma algo como: “G1? Não vou ler! A Globo é comunista!” Eis um exemplo de raciocínio motivado.

A história lhe soa familiar? Evidentemente, ela é hipotética, de caráter ilustrativo – é o que chamamos, em ciência, de evidência anedótica. No entanto, se do período eleitoral até hoje, a leitora não viu nada parecido com isso na internet, está de parabéns: não tem passado muito tempo nas redes sociais.

“As pessoas frequentemente ignoram informações novas que as contradigam, argumentam contra ou descartam suas fontes para manter crenças já existentes”. (David Redlawsk – cientista político)

A reação de descartar a fonte, na verdade, é um exemplo de raciocínio motivado bastante primário.  Seria de se esperar algo mais elaborado do interlocutor, como alguma argumentação contrária em relação às evidências apresentadas.  Espera-se que ao menos se apontem falhas na mensagem, sem atirar no mensageiro. Porém, como já dizia a psicológa social e autora do artigo científico mais citado sobre raciocínio motivado, Ziva Kunda, a possibilidade de argumentação é limitada pela habilidade do indivíduo em criar justificativas que soem razoáveis para as conclusões que ele já queria chegar de antemão [5]. Em outras palavras, argumenta contra a informação que abala sua crença quem tem capacidade para isso; quem não dá conta, vai logo descartando a fonte ou dando uma resposta sem nexo algum. Assim, é possível que a leitora já tenha tentado alertar algum apoiador do governo atual sobre uma fake news qualquer e tenha recebido, como resposta, alguma versão do já clássico (e nada sofisticado) raciocínio motivado de nosso tempo: “e o Lula? E o PT?”.

No gelatinoso campo das teorias conspiratórias e similares, da afirmação que o aquecimento global é uma “trama marxista” – como faz o chanceler brasileiro [6] – à defesa da tese que o nazismo era de esquerda – como faz o mesmo chanceler e também o próprio presidente da República [7] -, são muitos os exemplos de raciocínio motivado. Sobre esse último, como os horrores do nazismo são inegáveis, visto que fartamente documentados, parte da extrema-direita atual resolveu afirmar que o fenômeno histórico nazifascista era, veja bem, de esquerda. Diante de toneladas de evidências que atestam o contrário, em vez de aceitá-las e mudarem sua convicção, defensores motivados dessa tese costumam argumentar que o partido nazista alemão era denominado “nacional-socialista”. Aí estaria uma prova de que, sim, Hitler e os nazistas eram de esquerda. Repare que isso equivale a dizer que o mico-leão-dourado é um felino cujo rugido é temido nas florestas…

Em suma, em várias áreas da vida, mas principalmente em política, reino das ideologias e  paixões humanas, em vez de usarmos o intelecto para buscar a verdade, preferimos defender uma tese que nos agrade. Em vez de agirmos feito cientistas, atuamos feito advogados. E essa é, na verdade, a forma padrão de funcionamento do cérebro humano.

Humanos, demasiado humanos

Diversos estudos da psicologia e da neurociência têm demonstrado que nossa forma de pensar, de raciocinar, é altamente permeada por nossas emoções, como aponta o consagrado neurocientista Antonio Damásio há mais de duas décadas [8].  Em debates de temas políticos, que envolvem ideologias e crenças, talvez isso seja ainda mais verdadeiro.

Tudo isso soa um tanto “irracional”, não? Ocorre que aplicamos às informações que ameaçam nossa identidade os mesmos reflexos que nossos ancestrais aplicavam a potenciais predadores nas savanas africanas: fight or flight. Lute ou fuja. E nosso cérebro, após milhares de anos, é basicamente o mesmo. Simplesmente não fomos aparelhados, ao longo do processo evolutivo, para lidar de forma estritamente “racional” com as toneladas de informações que atualmente nos cercam, principalmente com as que ameaçam nossas convicções. Somos seres que preferem se sentir confortáveis (em nossas bolhas) a estarmos realmente certos. A nossa verdade é sempre mais quentinha que a dura e fria verdade objetiva.

É possível contornar os vieses psicológicos no combate às fake news?

Quando se deparar com o compartilhamento de uma fake news, o primeiro passo sugerido é postar um link – preferivelmente de agências de verificação – para alertar a pessoa e principalmente terceiros que possam estar vendo a notícia falsa. Para isso, há vários bons serviços de verificação, tais como a Agência Lupa e o Aos Fatos. É bem possível, porém, que quem compartilhou entre em dissonância, parta para o raciocínio motivado e te dê uma resposta esquisita qualquer ou questione sua fonte. Nesse caso, uma opção é ofertar outras fontes que provem a falsidade da notícia. Há evidências científicas de que existe um “tipping point” (ponto de inflexão) do raciocínio motivado, isto é, ele não segue ocorrendo para sempre. Essa inflexão acontece, segundo pesquisadores, após o acúmulo de evidências contrárias à crença inicial [9].

No entanto, que fique aqui entre nós: se o indivíduo que compartilhou a notícia que você provou ser fake tiver feito isso por motivação ideológica, ainda que o convença sobre a falsidade de alguma específica, provavelmente continuará postando outras que “batam” com as convicções dele. É a ideologia, e não a ignorância, o verdadeiro motor do compartilhamento das fake news.

Um estudo feito por pesquisadores da UFMG e da Emory University, EUA, demonstrou que, principalmente durante o período eleitoral – quando quem tem ideologia política definida está ainda mais motivado – a correção não abala a crença das pessoas em notícias falsas [10]. E a coisa pode ser ainda pior: a depender do nível de comprometimento de um indivíduo com sua ideologia política, pode ocorrer até o chamado backfire effect. Esse efeito é exatamente o que parece ser: o tiro sai pela culatra e a pessoa pode ficar ainda mais convicta após a correção da informação falsa [11]. Isso tudo levanta a questão: o que fazer, então, diante de tanta “irracionalidade” possível?

Uma estratégia viável

No combate a notícias falsas e teorias conspiratórias, se os fatos estiverem do seu lado, eis o pulo do gato: lembre-se dos terceiros. Isso mesmo: menos foco no seu interlocutor direto e mais em terceiros. Em tempos de redes sociais, quase sempre várias outras pessoas estão acompanhando o debate entre apenas duas ou algumas. Se seu interlocutor for ideologicamente motivado, é possível que nada o demova da defesa de alguma bobagem não factual. Porém, várias outras pessoas (não motivadas) podem se beneficiar da exposição da verdade.

O alcance do seu ato de correção de uma notícia falsa pode ser maior do que imagina. Dado o enorme impacto das mentiras relativas à política na vida democrática, é importante que todos possam identificar quem são seus ávidos compartilhadores. Se esses permanecerão aferrados a uma realidade paralela, paciência.  Há, por outro lado, um enorme contingente cujas mentes podem se livrar do obscurantismo com um empurrãozinho. Por isso, quando for tentar corrigir alguém que compartilhou uma fake news, jamais insulte a inteligência da pessoa. Via de regra, terceiros estarão observando e bom-senso e ponderação são sempre apreciados. Além disso, lembre-se: hoje, é o cérebro de alguém influenciado pelo trio traiçoeiro da psicologia; amanhã, pode ser o seu.

Referências

  1. ESTADÃO VERIFICA. ‘Mamadeiras eróticas’ não foram distribuídas em creches pelo PT. Estadão, 28 de set. de 2018. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/mamadeiras-eroticas-nao-foram-distribuidas-em-creches-pelo-pt/>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  2. WESTEN, Drew; BLAGOV, Pavel S.; HARENSKI, Keith; KILTS, Clint; HAMANN, Stephan. Neural Bases of Motivated Reasoning: An fMRI Study of Emotional Constraints on Partisan Political Judgment in the 2004 U.S. Presidential Election, Journal of Cognitive Neuroscience, MIT, 27 de out. de 2006. Disponível em: <https://doi.org/10.1162/jocn.2006.18.11.1947>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  3. VIEIRA, André G. Eduardo Bolsonaro compartilha fake news para atacar ativista Greta Thunberg. Valor, 29 de set. de 2019. Disponível em: <https://valor.globo.com/politica/noticia/2019/09/26/eduardo-bolsonaro-compartilha-fake-news-para-atacar-ativista-greta-thunberg.ghtml>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  4. JORNAL NACIONAL. Eduardo Bolsonaro publica foto falsa de ativista Greta Thunberg. G1, 26 de set. de 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/09/26/eduardo-bolsonaro-publica-foto-falsa-da-ativista-greta-thunberg.ghtml>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  5. ZIVA, Kunda. The Case for Motivated Reasoning. Princeton University, 1990.
  6. WATTS, Jonathan. Brazil’s new foreign minister believes climate change is a Marxist plot. The Guardian, 15 de nov. de 2018. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2018/nov/15/brazil-foreign-minister-ernesto-araujo-climate-change-marxist-plot>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  7. JORNAL NACIONAL. No Memorial do Holocausto, Bolsonaro diz que nazismo era de esquerda. G1, 02 de abr. de 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/04/02/no-memorial-do-holocausto-bolsonaro-diz-que-nazismo-era-de-esquerda.ghtml>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  8. DAMASIO, Antonio R. Descartes’ Error and the Future of Human Life. Scientific American, out. de 1994. Disponível em: <https://www.scientificamerican.com/article/descartes-error-and-the-future-of-h/>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  9. REDLAWSK, David P.; CIVETTINI, Andrew J. W.; EMMERSON, Karen M. The Affective Tipping Point: Do Motivated Reasoners Ever “Get It”? Political Psychology, 12 de jul. de 2010. Disponível em: <https://doi.org/10.1111/j.1467-9221.2010.00772.x>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  10. LINHARES, Carolina. Desmentir não abala crença em fake news, aponta estudo. Folha de São Paulo, 22 de out. de 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/correcao-nao-abala-crenca-em-fake-news-aponta-estudo.shtml>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
  11. MCRANEY, David. The Backfire Effect. You Are Not So Smart: A Celebration of Self Delusion, 10 de jun. de 2011. Disponível em: <https://youarenotsosmart.com/2011/06/10/the-backfire-effect/>. Acesso em: 4 de jan. de 2020.
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