Conectando o cérebro e a consciência

Publicando na Medical Xpress

O que é a consciência? O que significa estar “consciente” e como nossa consciência está conectada ao cérebro físico? Uma tese recente da Universidade de Uppsala explora os aspectos filosóficos da questão e propõe uma solução: a teoria da consciência intrínseca.

“Precisamos combinar trabalho empírico e conceitual para avaliar as questões significativas levantadas por esses desenvolvimentos na pesquisa do cérebro. Como filósofa, não afirmo ser cientista. Contudo, para preencher as lacunas do conhecimento entre os resultados da pesquisa do cérebro e a nossa compreensão da consciência como um conceito, precisamos de uma estrutura que os conecte”, diz Michele Farisco, pesquisadora do Centro de Pesquisa em Ética e Bioética (CRB) da Universidade de Uppsala e também professora associada de Filosofia Moral.

No passado, neurocientistas e filósofos pensavam no cérebro e na consciência como duas entidades separadas ou tratavam a consciência como algo que emerge do cérebro. No entanto, de acordo com Michele Farisco, esse pode não ser o caso. Nos últimos anos, neurocientistas descreveram o cérebro como um órgão ativo que avalia espontaneamente as características do mundo que o rodeia, independentemente das informações externas. Esse tipo de atividade de modelagem é consciente ou inconsciente e não há distinção nítida entre os dois. É à luz desses desenvolvimentos na neurociência que Michele Farisco sugere um novo modelo filosófico para explicar a consciência: a teoria da consciência intrínseca.

De acordo com seu modelo, a consciência não é algo que emerge do cérebro. Em vez disso, ela cria ligações dentro do cérebro. Em outras palavras, nossa consciência é, em essência, a capacidade do cérebro de modelar o mundo circundante e de utilizar as informações disponíveis e relevantes para garantir a sobrevivência. A tese de Michele Farisco se concentra em distúrbios que afetam nossa consciência e ela vê implicações clínicas claras para pessoas com lesões cerebrais. Nesse modelo, um cérebro danificado, que ainda possui atividades intrínsecas e estado de repouso independentes de estímulos externos, ainda está consciente, embora em um nível mais básico.

O que isso significa para os pacientes que estão em coma ou estado vegetativo? Na opinião de Michele Farisco, precisamos reconsiderar se eles estão, de fato, “inconscientes”. O cérebro opera em um nível consciente e inconsciente. Esses pacientes ainda podem experimentar emoções positivas ou negativas em um nível inconsciente e alguns deles também podem perceber o que está acontecendo ao seu redor. Utilizando simulações computacionais e outras ferramentas, alguns desses pacientes podem recuperar parte de sua consciência residual e, até mesmo, se comunicar em um nível mais básico, mas também podemos querer reconhecer e cuidar de sua desconsciência residual, que é eticamente relevante também.

De acordo com Michele Farisco, esse modelo também pode nos ajudar a pensar sobre as causas da dependência de drogas, reconhecendo a interação entre processos cerebrais conscientes e inconscientes. Se a dependência também se origina do impacto inconsciente do ambiente externo, surge uma forma de responsabilidade social pela dependência, se não em termos éticos, pelo menos, em termos de políticas públicas.

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