Em Santa Catarina, uma coisa incrível acontece quando botos e humanos se unem

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(Créditos: vdorse/Getty Images)

Traduzido por Julio Batista
Original de Carly Cassella para o ScienceAlert

Humanos e botos na costa sul do Brasil criaram uma ‘dança’ cuidadosamente sincronizada para pastorear o máximo possível de tainhas migratórias em suas redes e bocas.

Pescadores tradicionais da cidade de Laguna em Santa Catarina trabalham em equipe há mais de 140 anos com o botos-de-Lahille (Tursiops truncatus gephyreus) para a captura de peixes.

Mais longe da costa, os botos parecem conduzir cardumes de tainhas para a praia, bem perto dos pescadores que estão na parte rasa. Somente após receberem uma ajuda dos botos é que os pescadores lançam suas redes.

Pescador tradicional e botos na caça à tainhas. (Créditos: Mauricio Cantor/Universidade Estadual de Oregon)

Os pesquisadores passaram mais de uma década estudando esse relacionamento próximo e dizem que é um exemplo raro de mutualismo, no qual duas espécies se ajudam para melhorar suas chances de sobrevivência.

“Sabíamos que os pescadores estavam observando o comportamento dos botos para determinar quando lançar suas redes, mas não sabíamos se os botos estavam coordenando ativamente seu comportamento com os pescadores”, disse o biólogo marinho Mauricio Cantor, da Universidade Estadual de Oregon, EUA.

“Usando drones e imagens subaquáticas, pudemos observar os comportamentos de pescadores e botos com detalhes sem precedentes e descobrimos que eles capturam mais peixes trabalhando em sincronia”.

A luta para sobreviver na natureza costuma ser retratada desse jeito: uma batalha por recursos, parceiros ou territórios limitados. Mas a cooperação também é uma parte importante da equação que tende a ser negligenciada.

O trabalho em equipe e a atividade sincronizada dentro de uma espécie são comuns – pense em peixes nadando em um cardume ou leões caçando em bandos – mas duas espécies animais diferentes trabalhando juntas é muito mais raro.

Os seres humanos sempre interagiram com a vida selvagem para nosso próprio ganho. Nossos ancestrais pegaram lobos selvagens e os transformaram em cães domesticados para caça e proteção. E depois fizeram o mesmo com os gatos. Mas, na maioria das vezes, em casos de interações interespecíficas, apenas um animal está se beneficiando, como tubarões que se alimentam dos restos deixados pelos pescadores.

É mais incomum encontrar uma relação mutuamente benéfica, mas mesmo quando duas espécies estão atrás da mesma presa, o almoço não precisa ser um jogo de soma zero.

A pesca cooperativa entre humanos e cetáceos – mamíferos aquáticos como botos e baleias – é um ótimo exemplo disso.

No passado, baleeiros humanos se uniram a orcas para caçar baleias no sudeste da Austrália. Enquanto isso, no leste da Austrália, relatos de testemunhas oculares e histórias de aborígines australianos sugerem que golfinhos e humanos pescavam lado a lado com mais frequência do que hoje.

Os pescadores tradicionais de Laguna no Brasil são alguns dos únicos exemplos que restam de um vínculo tão próximo e cooperativo.

Tanto os botos quanto os pescadores locais aprenderam a ler a linguagem corporal uns dos outros e responder de acordo.

Os pescadores, usando pulseiras de GPS enquanto caminhavam em águas rasas para que seus movimentos pudessem ser rastreados, moveram-se em direção aos botos no momento em que os mamíferos marinhos chegaram ao local. Eles também lançavam suas redes em taxas mais altas quando os botos estavam por perto.

Claramente, os mamíferos davam uma pista de que a tainha estava por perto. Pescadores que seguiram suas nadadeiras tiveram 17 vezes mais chances de capturar peixes em águas rasas. Eles também pescaram 4 vezes mais, mesmo que gastassem a mesma quantidade de tempo lançando suas redes.

“Os botos claramente geram benefícios de forrageamento para os pescadores e estimulam ações benéficas em resposta ao aumento da disponibilidade de tainhas que não estão presentes quando os botos estão ausentes”, escreveram os autores.

Um pescador tradicional do sul do Brasil e um boto. (Créditos: Bianca Romeu)

Mas o que os botos ganham com isso? É muito mais difícil contar a quantidade de peixe que um mamífero engole em comparação com a quantidade que um pescador pesca. E como a captura de tainhas pelo boto na presença de humanos difere de sua captura sem humanos?

Os pesquisadores usaram algumas pistas para descobrir. Lá de cima com os drones, os autores notaram botos se aproximando bastante dos pescadores e dando-lhes uma dica para lançar suas redes – um mergulho profundo.

Enquanto isso, sob a água, os botos aumentam seus cliques de ecolocalização quando os pescadores lançam suas redes. Quando as redes estão abaixadas, os botos também mergulham por mais tempo.

Os pesquisadores suspeitam que os botos estão se beneficiando da maneira como as redes interrompem o cardume de tainhas e deixam os indivíduos por conta própria, tornando-os mais fáceis de capturar. Imagens subaquáticas também mostram botos individuais pegando peixes diretamente das redes, e os pescadores locais relatam que isso acontece com frequência.

Quase todos os pescadores locais entrevistados pelos pesquisadores disseram acreditar que os mamíferos marinhos estavam ganhando peixes extras na situação.

No final, os autores calculam que os botos que praticam pesca cooperativa têm 13% mais chances de sobreviver.

Mas se alguma coisa acontecesse com os botos, tainhas ou humanos dessa área, esses benefícios poderiam desaparecer. Não há nada geneticamente diferente nesses mamíferos. Esse comportamento tem tudo a ver com o contexto, e não há como dizer quanto tempo esse contexto vai durar.

“Proteger os comportamentos culturais que beneficiam os humanos e a vida selvagem não apenas encoraja sua coexistência, mas também é emblemático de como a conservação de ‘unidades culturalmente significativas’ promove a conservação da biodiversidade”, escreveram os autores.

O mutualismo entre humanos e animais selvagens está ficando cada vez mais raro, disse Cantor. É importante preservá-lo onde pudermos.

O estudo foi publicado na PNAS.