Esqueleto de 9.900 anos é encontrado em caverna mexicana

O crânio da mulher teve três lesões, provavelmente de um objeto duro, e uma deformação, possivelmente de uma doença semelhante à sífilis.

Crédito: Eugenio Acevez.

Por Laura Geggel
Publicado na Live Science

Mergulhadores de cavernas descobriram o misterioso túmulo subaquático de uma mulher antiga com um crânio deformado que vivia na Península de Yucatán há, pelo menos, 9.900 anos, fazendo dela uma das primeiras habitantes conhecidas do que é hoje o México.

O crânio da mulher teve três lesões distintas, indicando que algo a atingiu com força, quebrando os ossos do crânio. Seu crânio também estava cheio de deformações semelhantes a crateras, lesões que se parecem com aquelas causadas por um parente bacteriano da sífilis, de acordo com um novo estudo.

“Parece realmente que essa mulher teve um momento bastante difícil e um final extremamente infeliz em sua vida”, disse o pesquisador Wolfgang Stinnesbeck, professor de bioestratigrafia e paleoecologia do Instituto de Ciências da Terra da Universidade de Heidelberg, na Alemanha, em e-mail. “Obviamente, essa afirmação é especulativa, mas dados os traumas e as deformações patológicas em seu crânio, parece provável que ela tenha sido expulsa de seu grupo e morta na caverna ou deixada no local para morrer”.

Os exploradores de cavernas Vicente Fito e Ivan Hernández encontraram os restos mortais da mulher em setembro de 2016 enquanto mergulhavam na caverna Chan Hol, perto de Tulum. Na época, eles estavam procurando por outro esqueleto antigo conhecido como Chan Hol 2, cujos restos, exceto alguns ossos, haviam sido roubados por ladrões.

Os novos ossos foram localizados a apenas 140 metros do local de Chan Hol 2, levando os arqueólogos a hipotetizarem que os mergulhadores haviam encontrado os restos ausentes de Chan Hol 2. Mas uma análise logo provou que eles estavam errados. Uma comparação dos novos ossos com fotos antigas de Chan Hol 2 mostrou “que os dois devem representar indivíduos diferentes”, disse Stinnesbeck.

Assim, uma equipe internacional começou a trabalhar na análise do esqueleto misterioso, apelidado de Chan Hol 3. Embora o esqueleto esteja apenas 30% completo, os pesquisadores conseguiram identificar que pertencia a uma mulher que tinha cerca de 1,65 m de altura e aproximadamente 30 anos quando morreu.

O que aconteceu com o crânio dela?

Crédito: Jerónimo Avilés Olguín.

Os três ferimentos no crânio da mulher sugerem que ela teve um fim violento, disse Stinnesbeck. “Não há sinais de cicatrização dessas feridas, mas ainda é difícil dizer se ela morreu ou se sobreviveu aos golpes [por] algum tempo”, disse ele.

É ainda mais difícil de saber como o crânio dela desenvolveu certas deformidades semelhantes a crateras, disseram os pesquisadores. Talvez ela tenha Treponema peritonite, uma doença bacteriana relacionada à sífilis, o que tornaria o caso mais antigo conhecido dessa doença nas Américas, disseram os pesquisadores. Se fosse esse o caso, “ela teria uma área inflamada onde a infecção seria muito dolorosa ao toque, com possíveis rupturas na pele”, disse o coautor do estudo Samuel Rennie, antropólogo biológico e forense do estudo, em e-mail.

A mulher pode ter tido uma grave inflamação ou periostite óssea, um periósteo inflamado, o tecido conjuntivo que circunda o osso, disse Stinnesbeck.

É até possível que “essas deformações do crânio tenham sido causadas pela erosão do crânio na caverna”, observou Stinnesbeck. No futuro, os pesquisadores planejam colocar o crânio da mulher em um scanner de tomografia computadorizada (TC) para ajudar a diagnosticar essas lesões e traumas estranhos, disse Rennie.

Problemas dentários

Crédito: Jerónimo Avilés Olguín.

Como outros esqueletos de cavernas de Tulum, Chan Hol 3 tem um crânio distinto.

Uma análise craniana profunda de 452 crânios, tirada de 10 populações americanas diferentes, mostrou que “os esqueletos antigos de Yucatán (incluindo o recém descoberto Chan Hol 3) tinham crânios diferentes dos outros encontrados em distintos lugares quando comparamos”, disse Rennie.

De fato, isso sugere que havia, pelo menos, dois grupos diferentes de humanos vivendo no que é hoje o México no final da última era glacial, disse Rennie. Essa descoberta reforça as conclusões de outro estudo recente na revista PLOS One, que também analisou os restos de pessoas antigas (embora não Chan Hol 3) que viviam na península de Yucatán.

Além disso, todos os crânios da caverna de Tulum, incluindo o crânio da mulher recém-descoberta, tinham cáries nos dentes. Isso sugere que essa população tinha uma dieta rica em açúcar, provavelmente de tubérculos e frutas, cactos doces ou mel das abelhas nativas, disse Stinnesbeck. Em contraste, outras populações dos primeiros americanos tendem a ter dentes sem cáries, indicando que essas pessoas provavelmente ingeriram alimentos duros com pouco açúcar, disseram os pesquisadores.

Essas diferenças dentárias e cranianas sugerem que “os colonos de Yucatán formaram um grupo isolado dos caçadores e coletores que povoavam o centro do México no final do Pleistoceno”, uma época que terminou cerca de 11.700 anos atrás, disse Stinnesbeck. “Os dois grupos devem ter sido bastante diferentes em aspectos físicos e culturais. Enquanto os grupos do centro do México eram altos, bons caçadores, com elaboradas ferramentas de pedra, o povo de Yucatán era pequeno e delicado, e até hoje nenhuma ferramenta de pedra foi encontrada”.

Data controversa

Crédito: Eugenio Acevez.

Datar os restos da mulher provou ser um desafio, já que o colágeno havia decaído há muito tempo na caverna subaquática. (É importante notar que a caverna provavelmente estava acima da água quando a mulher morreu, disseram os pesquisadores.) Portanto, os pesquisadores analisaram isótopos de urânio-tório em uma estalagmite que estava incrustada nos ossos dos dedos da mulher. (Os isótopos são variações de um elemento que diferem no número de nêutrons em seus núcleos.) O mesmo método urânio-tório foi utilizado para datar os restos mortais do esqueleto de Chan Hol 2, estimado em até 13.000 anos.

Embora esse método não seja o padrão-ouro para datar restos humanos, ele ajuda os pesquisadores a se aproximarem da data real.

“Infelizmente, muitos desses esqueletos, incluindo o descrito aqui, carecem de colágeno suficiente para a análise convencional de radiocarbono“, disse Justin Tackney, pesquisador associado de antropologia da Universidade do Kansas, que não estava envolvido no estudo, em e-mail. “A datação de alguns desses indivíduos, mas não todos, é questionável, mas isso é compensado pelas publicações lentamente acumuladas de cada novo indivíduo descrito”.

É verdade que parece que os pesquisadores fizeram o possível para datar o espécime, dadas as restrições, disse Gary Feinman, curador da MacArthur de antropologia mesoamericana da América Central e do Leste Asiático no Museu de História Natural de Chicago, que não estava envolvido no estudo.

Dito isso, “deve haver, pelo menos, um pequeno ponto de interrogação sobre exatamente quantos anos esses esqueletos têm”, disse Feinman.

O estudo foi publicado na revista PLOS One.