Estudo revela que nenhum lugar da Terra está protegido da poluição luminosa dos satélites

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A luz dispersa de detritos orbitais (impressão artística) pode adicionar 10% mais brilho a luz celeste que interfere na astronomia. (Créditos: ESA)

Traduzido por Julio Batista
Original de Joshua Sokol para a Science

Parece não haver mais nenhum lugar na Terra onde os astrônomos possam ver as estrelas sem a poluição luminosa de lixo espacial e dos satélites, de acordo com uma nova análise. O estudo considerou as dezenas de milhares de objetos em órbita em 2020 – antes do lançamento de milhares de outros satélites que empresas planejam para os próximos anos.

“É bastante revelador”, disse John Barentine, diretor de políticas públicas da International Dark-Sky Association, que ajudou a elaborar o estudo, aceito no Monthly Notices of the Royal Astronomical Society e publicado online. “À medida que o espaço fica mais lotado, a magnitude desse efeito aumentará ainda mais, não menos.”

Os astrônomos já estão preocupados com as megaconstelações de satélites. Desde 2019, a SpaceX lançou mais de 1000 satélites de comunicações Starlink para um serviço global de Internet. Mais dezenas de milhares estão licenciados para serem lançados pela SpaceX e outras empresas como a Amazon nos próximos anos.

Até agora, astrônomos e grupos de defesa da ciência como o de Barentine concentraram suas preocupações em como as trilhas brilhantes de satélites individuais nas alturas atrapalham as observações a olho nu e estragam observações astronômicas mais sensíveis. Em resposta, os engenheiros da SpaceX conseguiram diminuir seus satélites subsequentes para cerca de um quarto do brilho dos primeiros protótipos.

Mas Miroslav Kocifaj, astrônomo da Academia Eslovaca de Ciências, tinha uma preocupação diferente. Ele se perguntou se a nuvem coletiva de satélites e detritos acima da Terra poderia espalhar a luz de volta para a atmosfera de forma mais geral. Mesmo que os objetos individuais não sejam visíveis, sua presença poderia adicionar um brilho de fundo adicional ao céu noturno de uma forma que apagaria as partes mais obscuras do cosmos?

Kocifaj, Barentine e seus colegas descobriram que sim. Mesmo nos locais mais escuros possíveis na Terra, o próprio céu tem um brilho natural na atmosfera superior de fontes como partículas ionizadas. Mas, além desse brilho de fundo, objetos já em órbita podem adicionar cerca de 10% a mais de luz difusa, eles estimam.

Esse cálculo se baseia em várias suposições, começando com estimativas do número e distribuição de tamanho dos objetos espaciais em meados da década de 1990, extrapolando a crescente aglomeração do espaço desde então e hipotetizaram o quão refletivos esses objetos seriam em média.

“Espero uma confirmação independente do resultado”, disse Pat Seitzer, astrônomo emérito da Universidade de Michigan, Ann Arbor (EUA), que modelou o brilho de satélites individuais e está colaborando com a SpaceX para diminuir o brilho das versões futuras. Ele disse que o cálculo da equipe parece razoável, mas ficou surpreso com o tamanho do efeito.

Em 1979, a União Astronômica Internacional sugeriu que os observatórios astronômicos deveriam ser construídos apenas onde a poluição luminosa adiciona menos de 10% mais luz do que o brilho do céu natural; o novo estudo sugere que nenhum lugar do planeta atende mais a esses padrões.

O olho humano pode detectar diferenças de contraste muito pequenas, mas Barentine diz que a maioria dos astrônomos não notará. Mas pode ser importante para os astrônomos que procuram objetos difusos e espalhados no céu, como galáxias difusas, que os astrônomos estão estudando em busca de pistas sobre a física da formação de galáxias e a natureza da matéria escura. Para que essas galáxias difusas se destacassem do brilho do céu, os astrônomos já precisavam de longas exposições nos maiores telescópios nos locais mais escuros disponíveis.

O que mais importa para esse tipo de pesquisa não é apenas a quantidade de brilho de fundo adicionado, mas como ele varia ao redor do globo – nenhum dos quais ainda foi realmente medido, disse Mireia Montes, astrônoma do Space Telescope Science Institute. Uma luminescência atmosférica variável seria difícil de subtrair. Mas “se for uniforme, estaria tudo bem”, disse ela. “Você apenas dedicaria mais tempo e suas imagens acabariam ficando mais caras.”