Existe um comportamento sexual natural?

31
3144

“Isso não é natural!”, exclamam setores sociais, ligados geralmente a grupos religiosos (conservadores), quando opinam sobre relações homossexuais. Esse argumento da naturalidade vem combinado com uma serie de outras afirmações como: “o sexo é para procriar”, “Deus fez o macho para fêmea”, “é uma aberração”, etc. Essa serie de afirmações dão sustentações a toda forma de preconceito contra a comunidade LGBT´s potencializando agressões psicológicas, verbais e físicas. Frente a essas afirmações é preciso responder a seguinte pergunta: “De fato existe um comportamento natural?”.

Ao nos defrontarmos com o comportamento geral dos animais podemos observar que o conceito de “normalidade” não se encaixa frente a diversidade comportamental dos seres vivos. O comportamento que as criaturas na natureza adotam são extremamente variados e fascinantes. Uma pesquisa de 1999, feita pelo pesquisador Bruce Bagemihl, mostra que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 300 espécies animais.

Podemos citar algumas espécies que tem relações homossexuais, por exemplo, carneiros, girafas, libélulas, pinguins, gaivotas ocidentais, golfinhos nariz-de-garrafa, dentre outras. Alguns animais realmente formam casais homossexuais que passam juntos a vida toda, chegando a criar filhotes às vezes doados por casais heterossexuais e outras vezes, resultado de uma “escapada” de uma das fêmeas, ou seja, o comportamento homossexual entre animais é comum.  Em outras palavras, natural.

Os bonobos (Pan paniscus), parentes próximos dos chimpanzés, que vivem ao sul do Rio Congo utilizam o sexo como um mecanismo de resolução de conflitos no grupo, extrapolando a concepção de sexo apenas para procriação. Nos bandos de bonobos o sexo entre fêmeas ou entre machos são extremamente comuns de serem observados. O sexo como uma função social possibilitou que a luta física como mecanismo de resolução tipicamente utilizado entre chimpanzés fosse substituída.

Casal fêmea de Bonobos
Casal fêmea de Bonobos

A bióloga Lindsay C. Young  estudou uma colônia de  Albatrozes de Laysan (Phoebastria immutabilis) em Kaena Point, no Havaí. O seu estudo possibilitou observar que 1/3 dos casais era composto por duas fêmeas e que seu relacionamento podia durar tanto quanto os pares “tradicionais” . Em um caso observado,  o relacionamento durou 19 anos.   Na Nova Zelândia, um par do mesmo sexo de albatrozes reais (Diomedea sanfordi), foi visto cuidando de um ninho, o que sugere que este comportamento é comum também nessa espécie.

Fêmeas de Albatroz de Laysan
Fêmeas de Albatroz de Laysan

Já entre os leões, que são vistos como símbolo de “liderança, força e virilidade” por nossa sociedade, o comportamento homossexual também ocorre. Uma parcela de leões africanos machos abandonam as fêmeas disponíveis para formar seus próprios grupos homossexuais.

Inúmeros exemplos na natureza demonstram que o comportamento homossexual entre animais é bastante convencional, ou seja, o discurso de que “relações entre pessoas do mesmo sexo não é natural” é desprovido de sentido, já que hoje existem hoje mais de 450 espécies catalogadas que apresentam comportamento homossexual e/ou bissexual.

Além disso, reduzir o comportamento humano entre natural e não natural é um completo delírio, já que essencialmente a atividade humana é uma tentativa permanente de dominar nossos próprios instintos biológicos.  Buscamos permanentemente dominar técnicas que favoreçam nossa espécie justamente com práticas não naturais: “ir ao cinema, viajar de avião, escovar os dentes, tomar remédios, explorar o cosmos, fazer manipulação genética”.

Por fim, mesmo que na natureza não se encontrasse nenhuma espécie com práticas homossexuais, não teríamos nenhum direito de “dar pitaco” que tipo de relacionamento alguém deve ter, já que a vida é da pessoa. Porém a natureza demonstra que relações homossexuais são comuns na natureza e que a homofobia é exclusiva de nossa espécie.

Para saber mais leia:

Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Homossexualidade animal and Natural Diversity (New York: St. Martin’s Press, 1999).

CONTINUAR LENDO