Extinção dos neandertais pode ter sido causada pelo sexo, não por conflitos

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Neandertais (esquerda) e Homo sapiens (direita) são os parentes mais próximos um do outro e podiam cruzar. (Créditos: Curadores do Museu de História Natural, Londres)

Traduzido por Julio Batista
Original de James Ashworth para o Museu de História Natural de Londres

Um novo paper propõe que o Homo sapiens pode ter sido responsável pela extinção dos neandertais não pela violência, mas pelo sexo.

Fazer amor, não guerra, pode ter sido responsável por colocar os neandertais no caminho da extinção.

Embora cerca de 2% do genoma de todas as pessoas vivas de fora da África seja derivado dos neandertais, há muito pouca evidência de que esse processo tenha ocorrido ao contrário.

Um novo paper, publicado na revista PalaeoAnthropology, levanta a perspectiva de que o cruzamento com nossos ancestrais teria reduzido o número de neandertais se reproduzindo entre si, levando à sua eventual extinção.

Embora apenas 32 genomas neandertais tenham sido sequenciados até o momento, havendo a possibilidade que a falta de DNA do Homo sapiens em seu genoma seja na verdade uma peculiaridade da amostragem, os autores esperam que os avanços na tecnologia de sequenciamento de DNA sejam capazes de resolver essa hipótese deixando mais genomas acessíveis.

O professor Chris Stringer, líder de pesquisa do Museu em Evolução Humana, é o autor do novo paper ao lado da colega Dra. Lucile Crété.

Chris disse:

“Nosso conhecimento da interação entre Homo sapiens e neandertais ficou mais complexo nos últimos anos, mas ainda é raro ver discussões científicas sobre como o cruzamento entre os grupos realmente aconteceu”.

“Nós propomos que esse comportamento poderia ter levado à extinção dos neandertais se eles estivessem se reproduzindo regularmente com o Homo sapiens, o que poderia ter erodido sua população até que eles desaparecessem”.

Os primeiros encontros de neandertais e Homo sapiens

Neandertais e Homo sapiens divergiram uns dos outros cerca de 600.000 anos atrás e evoluíram em áreas muito diferentes do mundo.

Fósseis de neandertais foram encontrados em toda a Europa e Ásia, chegando até o sul da Sibéria. Acredita-se que tenham passado pelo menos 400.000 anos evoluindo nesse ambiente, adaptando-se a um clima predominantemente mais frio do que o encontrado hoje.

Enquanto isso, os ancestrais de nossa própria espécie evoluíram na África. Atualmente, é incerto se o Homo sapiens é descendente direto de um grupo de antigos hominídeos africanos ou é o resultado da mistura entre diferentes grupos espalhados pelo continente.

A partir de dados genéticos, parece que as duas espécies se encontraram pela primeira vez quando o Homo sapiens começou a fazer incursões ocasionais fora da África, cerca de 250.000 anos atrás.

“Sem saber exatamente como os neandertais se pareciam ou se comportavam, só podemos especular o que o Homo sapiens teria pensado de seus parentes”, disse Chris.

“As diferenças linguísticas provavelmente teriam sido maiores do que poderíamos imaginar, dada a profundidade do tempo da separação, e teriam sido muito maiores do que aquelas entre quaisquer línguas modernas.”

O cruzamento entre nossos ancestrais Homo sapiens e seus parentes levou a presença do DNA neandertal nos genomas de muitos humanos vivos hoje. (Créditos: Gorodenkoff/Shutterstock)

A barreira da linguagem pode ter sido reforçada pelos atributos individuais de ambas as espécies, com comparações de Neandertais e Homo sapiens sugerindo que os cérebros e o aparelho vocal das espécies eram diferentes.

Os genomas dos neandertais também mostram que quase 600 genes foram expressos de forma diferente entre nossa espécie e a deles, particularmente aqueles associados ao rosto e à voz.

Outra diferença proeminente teria sido a testa, com os neandertais possuindo uma sobrancelha proeminente que poderia ter sido usada para comunicação social.

No entanto, os sinais que essas testas protuberantes estavam tentando transmitir podem muito bem ter sido perdidos em nossos ancestrais. Alguns estudos sugerem que as protuberâncias das sobrancelhas reduzidas permitiram que o Homo sapiens se voltasse para as sobrancelhas para transmitir uma série de sinais temporários mais sutis.

De qualquer forma, esses encontros acabaram levando à reprodução entre as duas espécies, mas exatamente como isso ocorreu também está envolto em mistério.

Cruzamento entre Neandertais e Homo sapiens

Sabemos que nossa espécie cruzou com os neandertais desde que os primeiros genomas de nossos parentes foram sequenciados.

No entanto, os genes neandertais que temos em nós hoje não são o resultado dessas primeiras interações esporádicas que o Homo sapiens teve quando deixou a África. Em vez disso, eles vêm das migrações muito maiores que os humanos modernos realizaram cerca de 60.000 anos atrás.

O cruzamento neste momento pode ter sido o resultado de uma aproximação mútua ou poderia ter sido menos amigável. Encontros entre grupos separados de nossos parentes vivos mais próximos, os chimpanzés, mostram evidências de ambos os comportamentos.

Se o cruzamento foi ou não bem sucedido parece depender do par exato que estava se reproduzindo. Até agora, não há evidências da genética do Homo sapiens em genomas tardios de neandertais datados entre 40 e 60.000 anos atrás.

É possível que isso se deva ao próprio processo de hibridização, pois algumas espécies só são capazes de produzir descendentes em determinadas direções. Por exemplo, o pólen da planta Capsella rubella pode fertilizar com sucesso sementes de Capsella grandiflora, mas não o contrário.

A falta de DNA mitocondrial, que é herdado através das fêmeas, de neandertais em humanos vivos tem sido sugerida como evidência de que apenas neandertais masculinos e Homo sapiens femininos poderiam gerar descendentes com sucesso, mas também há algumas evidências de que os híbridos masculinos podem ter sido menos férteis do que as fêmeas.

Com menos neandertais se reproduzindo entre si e os tamanhos dos grupos já pequenos e dispersos devido ao ambiente, a hibridização fora dos grupos familiares neandertais poderia ter ajudado a levar as espécies ao declínio. No momento, no entanto, não há evidências suficientes para decidir de qualquer maneira.

“Não sabemos se o aparente fluxo gênico unidirecional é porque simplesmente não estava acontecendo, que a reprodução estava ocorrendo, mas não teve sucesso, ou se os genomas neandertais que temos não são representativos”, disse Chris.

“À medida que mais genomas neandertais são sequenciados, devemos ser capazes de ver se algum DNA nuclear do Homo sapiens foi passado para os neandertais e demonstrar se essa ideia é precisa ou não”.

Pesquisas futuras também podem investigar questões semelhantes relacionadas a outras espécies de hominídeos conhecidas como Denisovanos, dando-nos uma ideia maior de como nossa espécie interagiu com seus parentes mais próximos.