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Filosofias e fobosofias: tradução integral de Mario Bunge

Universum, vol. 28, nº 2, Talca, 2013.

DOI: 10.4067/S0718-23762013000200002

Colaboração especial

Filosofias e fobosofias

Mario Bunge

Resumo: Neste ensaio, Mario Bunge examina diferentes correntes filosóficas segundo um critério pragmático, seus efeitos concretos sobre o avanço do conhecimento. O autor argumenta que filosofias alinhadas ao realismo científico e ao racioempirismo favorecem a investigação, enquanto doutrinas obscurantistas, relativistas ou dogmáticas tendem a bloquear o progresso intelectual e social.

A. Protesto

Uma doutrina filosófica pode facilitar a busca da verdade ou obstruí-la. Por exemplo, o realismo é propício à exploração da realidade, enquanto o construtivismo-relativismo é hostil a ela. Uma filosofia também pode ser ambivalente, iluminista em alguns aspectos e obscurantista em outros.

Por exemplo, Leibniz foi avançado em lógica e gnosiologia, mas seu panpsiquismo e sua monadologia foram retrógrados. Rousseau foi progressista em filosofia política, mas reacionário no que diz respeito à ciência. O romantismo foi revolucionário na arte, mas retrógrado na filosofia. O positivismo exaltou a investigação científica, mas de fato a obstaculizou ao pretender limitá-la ao estudo das aparências. E o marxismo beneficiou as ciências sociais ao sublinhar a importância dos chamados fatores materiais, mas as prejudicou ao subestimar outros fatores e ao adotar os disparates da dialética hegeliana.

Adicionalmente, uma filosofia que começa sendo progressista pode tornar-se conservadora ao oficializar-se, como ocorreu com o aristotelismo, o cartesianismo, o leibnizianismo e o marxismo. Para ajudar o avanço das ciências e técnicas, uma filosofia deve renovar-se junto com elas em vez de ossificar-se.

O exposto sugere que os filósofos deveriam prestar mais atenção à ciência e à técnica, e os cientistas e técnicos deveriam avaliar as filosofias por seus frutos. Por exemplo, em vez de tratar a fenomenologia e a filosofia linguística conforme o chamado princípio da caridade, deveriam averiguar se elas ajudaram a compreender algo ou se, ao contrário, obstaculizaram o avanço do conhecimento.

No que segue, daremos uma olhada em algumas das principais filosofias em sua relação com a busca da verdade, com o objetivo de aquilatar a proposta de julgá-las segundo o critério pragmático “Pelos seus frutos as conhecereis”.

1. Parteiras

Todo pesquisador sério, em qualquer terreno, procura raciocinar e escrever corretamente, isto é, com clareza e coerência. Portanto, as filosofias racionalistas favorecem a investigação. Em contraste, as piruetas verbais de Husserl, Heidegger, Sartre, Derrida, Deleuze, Vattimo, Kristeva e Irigaray são ora absurdas, ora triviais. Por exemplo, em sua celebrada Crise das ciências europeias (Parte III A, §54b), Edmund Husserl escreveu: “Como ego primigênio, eu constituo meu horizonte de outros transcendentais como co-sujeitos dentro da intersubjetividade transcendental que constitui o mundo”. E, para dissipar dúvidas, Husserl esclarece na página seguinte que “o ‘eu’ imediato, que já perdura na esfera primordial perdurável, constitui em si mesmo um outro como outro. A auto-temporalização mediante a de-presentificação, por assim dizer (através da recordação), tem seu análogo em minha autoalienação (a empatia como uma de-presentificação em um nível superior), de-presentificação de minha presença primigênia meramente presentificada”. Como advertiu Goya, “o sono da razão produz monstros”.

Em todo caso, o pós-modernismo, em particular a fenomenologia, o existencialismo e o “pensamento fraco”, é contrário ao progresso das ciências porque simula pensar e faz com que os estudantes se limitem a memorizar fórmulas que tomam por profundas porque não as entendem. Seus professores não se atrevem a dizer-lhes que o rei está nu.

Sem um mínimo de racionalidade não vamos a lugar algum. Agora, quando o que se investiga é um objeto ideal, como um sistema de números ou uma teoria matemática, a razão é necessária e suficiente. Contudo, quando o objeto a investigar é concreto (material), o racionalismo radical, como o de Leibniz, é inadequado, já que equivale ao apriorismo, que é tão arbitrário quanto o irracionalismo.

Nas ciências e técnicas fáticas, também não serve o empirismo radical porque subestima a teorização acerca de coisas, propriedades e processos que, embora reais, são imperceptíveis, como elétrons e relações sociais. Quando se tenta estudar ou controlar algo real, a estratégia indicada é o racioempirismo, isto é, uma síntese de racionalismo e empirismo, que favoreça a combinação de imaginação com observação, de cálculo com experimento.

Mas nem toda síntese de racionalismo com empirismo é válida. Por exemplo, Kant combinou o que há de ruim no racionalismo, a saber, o apriorismo, com o que há de ruim no empirismo, isto é, o fenomenismo (ater-se às aparências). Em contraste, o realismo científico combina a exigência empirista de contraste empírico com o impulso racionalista de construir hipóteses e teorias para explicar as aparências em vez de limitar-se a elas.

Em resumo, a síntese racioempirista mais favorável à exploração da realidade é o realismo que adota o enfoque científico. Parafraseando o que Engels disse sobre Hegel, pode-se afirmar que o que as ciências e técnicas devem aproveitar do racionalismo e do empirismo são seus métodos (o raciocínio hipotético-dedutivo e o contraste empírico, respectivamente), não seus sistemas (a ontologia idealista e o fenomenismo, respectivamente).

Obviamente, quem procura explorar a realidade não pode limitar-se a rejeitar doutrinas, como as versões radicais do racionalismo e do empirismo. Também precisa fazer suposições sobre o que deseja e pode chegar a conhecer. Essas suposições são de dois tipos, ontológicas e gnosiológicas. Por exemplo, o pesquisador suporá que o universo é um contínuo ou que está composto por corpúsculos. Também poderá supor que ele é totalmente cognoscível ou basicamente misterioso.

Desde os começos da modernidade, tem-se tendido a conceber as coisas como sistemas ou componentes de sistemas, e também a supor que podem ser conhecidas pouco a pouco. Em outras palavras, as ciências e técnicas modernas adotaram, de modo crescente, a hipótese sistêmica. Ela afirma que todos os objetos são sistemas ou constituintes de sistemas. Basta recordar as descobertas dos sistemas planetários e estelares, cardiovascular e nervoso, o supersistema neuro-endócrino-imune, assim como os ecossistemas e os sistemas sociais, da família ao sistema internacional.

A hipótese sistêmica convida tanto a analisar totalidades quanto a buscar ou neutralizar os entes que podem interagir com elas. Ora, há sistemas de diferentes tipos, conceituais, como teorias e classificações, materiais, como moléculas e organismos, e semióticos, como textos e diagramas.

Há um acordo tácito de que os sistemas naturais são materiais e, portanto, não podem ser influenciados por ideias puras. Por exemplo, confia-se que os instrumentos de medição não obedecem aos desejos de quem os usa. Não é que os naturalistas neguem o mental. Apenas negam que ele possa existir fora do cérebro.

É verdade que, nos estudos sociais, continua forte a ideia de que tudo o social é espiritual, de onde o nome Geisteswissenschaften, ou ciências do espírito. Essa hipótese convida a centrar a atenção nos aspectos simbólicos da sociedade, língua, mitos, normas, ritos etc. Também é verdade que a primeira coisa que um bom antropólogo contemporâneo averigua é como sobrevivem os membros de sua tribo favorita, primum vivere. As pinturas rupestres podem ou não ter tido finalidade prática, mas não há dúvida de que seus autores foram humanos de carne e osso que fizeram trabalho manual para obter sustento, abrigo, companhia e segurança.

Não há dúvida de que os pré-socráticos prepararam o terreno para o nascimento da ciência antiga ao esboçar uma cosmovisão naturalista e, em particular, uma teoria atômica. Também é verdade que, ao mesmo tempo, a Índia produziu uma concepção semelhante e, ainda assim, não engendrou a ciência. Isso sugere que o naturalismo (ou materialismo), embora necessário para inspirar ciência, é insuficiente. Também são necessárias a curiosidade e a coragem intelectual que caracterizaram os pensadores e comerciantes da Grécia antiga.

Adicionalmente, como sublinha Carmen Dragonetti, os helenos não tinham escrituras presumidamente sagradas que, como o Veda, pretendiam explicar tudo. Tampouco tinham uma casta sacerdotal, a dos brâmanes, encarregada de difundir esse texto e de vigiar o cumprimento de suas prescrições. Enquanto os intelectuais indianos estavam submetidos a essa casta e permaneceram majoritariamente atados ao pensamento mágico-religioso, os pensadores gregos originais tomaram a liberdade de questionar dogmas e exigir provas. Foram filósofos no sentido originário dessa palavra.

2. Mestras

Os filósofos podem ajudar os cientistas a analisar e refinar seus conceitos, e também a pôr a descoberto suas pressuposições. Também podem ajudar a raciocinar melhor e a questionar hipóteses, métodos e resultados que parecem óbvios por serem antigos ou por terem sido propostos por grandes sábios. A crítica filosófica pode contribuir para o progresso ao identificar obstáculos a ele. Recordemos alguns exemplos recentes de desbaste.

Na física, a teoria das cordas segue na moda, apesar de não ter produzido nada plausível no transcurso de quatro décadas. O epistemólogo tem o direito de suspeitar que essa teoria é pseudocientífica, já que viola um princípio metodológico básico. Novas teorias não deveriam abandonar as aquisições firmes das anteriores. O fato de os entusiastas das revoluções científicas, como Bachelard, Kuhn e Feyerabend, terem ignorado esse princípio faz suspeitar de suas especulações. Contudo, a teoria das cordas, ao postular que o espaço-tempo tem 11 dimensões e não 4, entra em choque com toda a física, o que a torna implausível.

De modo análogo, a física digital, ao postular que os constituintes básicos do universo são bits e, portanto, símbolos em lugar de coisas físicas, viola a definição de que tudo o que é físico possui propriedades exclusivamente físicas, como energia.

A interpretação de Copenhague das teorias quânticas sustenta que todas as suas fórmulas se referem a situações experimentais. Contudo, um exame das fórmulas básicas dessas teorias não revela tal referência ao experimento nem, menos ainda, ao observador. Adicionalmente, a astrofísica dá por sentado que essas teorias valem em regiões do universo, como o interior das estrelas, nas quais não é possível fazer experimentos. Ao identificar e desqualificar os ingredientes subjetivistas da física quântica, o epistemólogo prepara o terreno para reformulações objetivistas (realistas) da mesma.

Nos três casos mencionados, o epistemólogo pode corrigir o cientista e inclusive pode informá-lo de que, sem saber, ele adotou elementos de filosofias extravagantes, como o idealismo subjetivo de Berkeley e Kant.

Houve, pois, institutrizes filosóficas competentes e úteis. No entanto, abundaram mais as mestras ignorantes, as que não sabem ler e abrem escola. Recordemos um punhado de filósofos que tentaram corrigir os cientistas. Exemplo 1. Kant pretendeu corrigir a mecânica celeste newtoniana ao inventar uma força repulsiva que equilibraria a atração gravitacional, explicando assim intuitivamente as órbitas planetárias. Exemplo 2. Hegel investiu contra toda a ciência posterior a Kepler, incluindo as mecânicas de Newton e Euler e a química atômica de Dalton e Berzelius. Exemplo 3. O intuicionista Henri Bergson escreveu um livro contra a teoria especial da relatividade, ainda que tenha tido a decência e a prudência de retirá-lo de circulação. Exemplo 4. Wittgenstein descartou a nascente psicologia biológica, afirmando que é perigoso pensar que a mente tenha algo a ver com o cérebro. Exemplo 5. Popper sustentou durante várias décadas que a teoria da evolução não é científica, e sim metafísica. Que mente e cérebro interagem entre si. E que a microeconomia neoclássica é verdadeira. Exemplo 6. Jerry Fodor acabou de anunciar que Darwin não entendeu o conceito de seleção natural.

3. Porteiras

Uma das tarefas tradicionais da filosofia foi proteger suas próprias fronteiras, em particular das incursões de teólogos e esoteristas. Também houve filósofos que procuraram manter a independência da filosofia em relação à ciência. Finalmente, há quem tenha alertado contra as pseudofilosofias e pseudociências. As duas primeiras tarefas, de patrulhamento de fronteiras, foram cumpridas com êxito. As filosofias religiosas foram marginalizadas desde o fim do Renascimento e as filosofias científicas mal existem como aspiração. Embora o neopositivismo tenha sido apresentado como filosofia científica, não foi tal, como se verá na seção 7.

A terceira tarefa, a de advertir contra as confusões entre jogo de palavras e filosofia, e entre pseudociência e ciência, seguirá sempre vigente, porque enfileirar palavras é mais fácil do que inventar cosmovisões. Também porque todo avanço científico importante parece provocar uma reação obscurantista. Com efeito, recordemos que a pior caça às bruxas começou ao culminar a Revolução Científica. Que a Contra-Ilustração, em particular o componente filosófico do romantismo alemão, foi uma reação contra o cientificismo triunfante na França revolucionária. E que o existencialismo nasceu ao mesmo tempo que a mecânica quântica e a teoria sintética da evolução.

Creio que o filósofo tem o dever de denunciar o palavrório pós-moderno que pretende passar por filosofia profunda. Também creio que o epistemólogo tem o dever de denunciar as pseudociências e explicar por que são fraudes intelectuais e, muitas vezes, também fraudes comerciais. Na seção 2 citamos dois longos parágrafos esotéricos de Husserl, o avô do pós-modernismo. Os masoquistas desfrutarão lendo seus netos Derrida e Deleuze, que conseguiram superar as acrobacias verbais de Hegel, Fichte e Schelling. Recordemos rapidamente alguns poucos exemplos.

4. Carcereiras e prisioneiras

Toda escola filosófica que rejeite novidades que ponham em dúvida seus princípios é retrógrada, ainda que em seus começos tenha sido progressista. Recordemos alguns casos exemplares de doutrinas carcereiras.

Os aristotélicos tardios rejeitaram as descobertas de Galileu porque elas refutavam certas afirmações do Estagirita. Berkeley zombou do cálculo infinitesimal porque era imperfeito, como todo infante. Hume criticou a mecânica de Newton por ir além das aparências. Kant reforçou o fenomenismo de Hume e proclamou a impossibilidade da psicologia e dos estudos sociais como ciências, por crer que não eram matematizáveis nem submetíveis ao experimento. Hegel opôs-se a todas as novidades científicas de seu tempo por violarem sua “lógica objetiva”. E Nietzsche negou toda a modernidade, em particular a ciência e a democracia.

Comte, Mach, Duhem, Ostwald e outros positivistas condenaram a atomística por postular a existência de entes imperceptíveis. Bergson afirmou que a matemática e o método científico não são aplicáveis fora da física. O neo-hegeliano Giovanni Gentile, quando foi ministro de Mussolini, liquidou a escola italiana de lógica matemática. Edmund Husserl opôs sua fenomenologia (ou egologia) a todas as ciências por serem realistas. Martin Heidegger, seu principal discípulo, rejeitou toda a ciência pela mesma razão e porque, segundo ele, ela não pensa. Os filósofos soviéticos da década de 1930 rejeitaram a lógica matemática por estática e condenaram as teorias relativistas e quânticas por acreditarem na versão subjetivista delas, exposta pelos empiristas lógicos e por alguns divulgadores. E os nazistas combateram a física moderna por não ser intuitiva, como seria o espírito ariano.

Nenhum desses ataques filosóficos ou pseudofilosóficos às novas ciências impediu seu desenvolvimento, mas todos o obstaculizaram. Em particular, o neokantismo retardou consideravelmente o desenvolvimento das ciências sociais ao inventar uma muralha entre ciências sociais e naturais, como se não existissem ciências biossociais, como demografia e epidemiologia, ao proclamar a superioridade da Verstehen (“compreensão” ou “interpretação”) sobre a explicação, e ao adotar o individualismo metodológico, que ignora as propriedades globais ou emergentes dos sistemas sociais, como família, empresas e Estado. Seus rivais, os marxistas, mantiveram-se durante um século à margem das ciências sociais “burguesas”. Ocuparam-se apenas de ler e comentar os clássicos do marxismo, e de criticar seus rivais, em vez de estudar as sociedades posteriores a Marx e Engels.

Bertrand Russell escreveu uma história crítica da filosofia ocidental, que circulou em círculos científicos, mas foi mal recebida pelos filósofos porque seu autor julgou severamente os obscurantistas. Aqui nos limitaremos a exibir uma amostra das filosofias (e pseudofilosofias) que merecem chamar-se misosofias, porque desprezam, temem ou odeiam o saber.

Dir-se-á talvez que o neokantismo, a fenomenologia e o existencialismo foram fecundos, já que inspiraram Max Weber (sociologia compreensiva), Alfred Schutz (sociologia fenomenológica) e Viktor Frankl (psiquiatria existencialista), respectivamente. Todavia, a adesão de Weber a Dilthey via Rickert foi puramente verbal, posto que de fato foi objetivista. E, embora tenha exagerado a importância do simbólico, Weber não ignorou o material. Quanto à sociologia fenomenológica, foi mais psicologia social caseira do que sociologia, pois se limitou à vida diária (Lebenswelt), em particular à conversação. Desvinculou-se explicitamente de processos macrossociais, como conflitos de classe, ciclos econômicos e guerras. E a psiquiatria existencialista é ineficiente no melhor dos casos, porque ignora os avanços da psiquiatria biológica, que usa resultados da pesquisa psico-neuro-endócrino-imuno-farmacológica. Também não foi construtiva a influência de Wittgenstein, já que ela se reduziu a rejeitar o enfoque científico do social e a reduzir as relações sociais a conversas.

Em suma, nenhuma das escolas filosóficas mencionadas contribuiu para o avanço do conhecimento. Todas foram carcereiras ou ainda piores, como no caso do ceticismo radical, comportaram-se como dissuasoras da exploração científica do mundo. Isso vale em particular para a versão contemporânea do ceticismo radical, a saber, o construtivismo-relativismo popularizado pelos sociólogos da ciência opostos à escola científica de Robert Merton. O construtivismo-relativismo obstaculiza a busca de verdades objetivas porque nega que elas possam existir. Segundo essa doutrina, tudo o que existe é invenção arbitrária ou construção social.

Finalmente, uma doutrina merece ser chamada prisioneira quando serve aos interesses de uma religião, de um partido político ou de um grupo econômico. Seus partidários não buscam a verdade, porque creem já possuí-la. Só lhes interessa propagar a fé, defendê-la das críticas e criticar os infiéis. Desconfiam de todas as ideias que circulam fora de seu grupo. Comportam-se assim como membros de uma tribo primitiva, apegam-se à tradição e castigam quem adota costumes estrangeiros.

Os casos mais conhecidos de filosofias prisioneiras de organizações religiosas, políticas ou econômicas são o tomismo, o marxismo e a filosofia política conservadora. Todas assumiram o papel de guardiãs da chama e denunciaram, excomungaram ou perseguiram os “desviacionistas”. Privaram-se assim do prazer de descobrir, inventar e educar para a inovação. Em suma, esforçaram-se para frear o progresso, motivo pelo qual ficaram atrasadas.

5. Enganadas

Entendo por “enganada” (ou “cornuda”) uma doutrina que ama uma disciplina que lhe é infiel. Dois casos óbvios, aos quais aludimos antes, são o positivismo e o materialismo dialético. Com efeito, ainda que ambos se proclamem cientificistas, as ciências não se ajustam ao fenomenismo inerente ao positivismo nem à dialética marxista. Elas vão além das aparências e admitem tanto a cooperação, sem a qual não pode haver sistemas, quanto o conflito gerado pela escassez de recursos, seja de um reagente em uma reação química, seja de um lote de terra em um grupo humano.

Também o pragmatismo pode ser considerado uma filosofia enganada, desta vez pela técnica moderna. Com efeito, esta, ao contrário do artesanato tradicional, funda-se na ciência, de modo que não dá prioridade à práxis, salvo como prova suprema de eficácia. Por esse motivo, o pragmatismo não serve como filosofia da técnica moderna.

Um quarto exemplo de infidelidade é o que pode ser chamado panlogismo ou imperialismo lógico. Trata-se da crença de que a lógica é necessária e suficiente para abordar qualquer problema. Quem adota esse ponto de vista crê poder abordar todos os problemas filosóficos sem outra ferramenta que a lógica, embora ela seja neutra em relação aos conteúdos. Assim, viu-se lógicos pontificarem sobre problemas que exigem conhecimentos de que carecem, da mecânica quântica à história. Contudo, quem quer que adote o ponto de vista lógico verá apenas esqueletos, porque isso é o que fornece a análise lógica, forma. Por exemplo, verá “a > b” tanto em “a é preferível a b” quanto em “a é mais tarde que b”. No capítulo 19 examinaremos um exemplo de panlogismo, a confusão entre existência real e existência conceitual.

6. Mercenárias

A investigação filosófica autêntica é tão desinteressada quanto a matemática. Não é autocentrada nem se faz primariamente para ganhar dinheiro ou poder, nem mesmo em homenagem a uma causa que não seja a de encontrar a verdade. Filosofar é uma atividade tão espiritual quanto demonstrar teoremas ou fazer música.

No entanto, a escolástica e a militância filosóficas, que procuram defender ou propagar uma doutrina antes de analisar ideias e buscar novas verdades, seguem prosperando em nosso tempo tanto quanto durante a Idade Média cristã, quando a filosofia era considerada explicitamente serva da religião dominante.

Por exemplo, durante a Guerra Fria houve duas Hegel-Gesellschaften, cada qual com seu anuário, uma na República Federal Alemã e outra na República Democrática Alemã. Cada uma se dedicava a ordenhar Hegel para sua própria causa política. Isso se explica, pois em sua Filosofia do Direito, Hegel havia exaltado o Estado ao declarar que ele era nada menos que “a marcha de Deus no mundo”. O mesmo filósofo também havia adotado o positivismo jurídico de Hobbes e Bentham ao sustentar que “a história mundial é o tribunal universal”, isto é, a força faz o Direito. Sem dúvida, esta é uma tese histórica defensável. Contudo, não serve como fundamentação filosófica do Direito. Para piorar, é uma filosofia cortesã. E filósofos cortesãos merecem ainda menos respeito que os bobos da corte, pois estes, ao contrário daqueles, atreviam-se a dizer a verdade.

Que doutrina poderia ser mais mercenária do que aquelas de Friedrich Nietzsche, Hans Kelsen, Carl Schmitt e H. A. L. Hart, que não distinguem o mal do bem e negam que possa haver justiça fora dos códigos legais. Só se comparam em maldade e servilismo ao “egoísmo racional” que pregava a filósofa pop Ayn Rand, e que praticam os economistas do status quo.

Finalmente, não esqueçamos que, além de intelectuais mercenários, houve filósofos obedientes. Entre eles destacam-se os que combateram na Guerra Fria, marchando ao passo ditado pela CIA ou pela KGB. O filósofo fiel à sua vocação rompe fileiras, foge, muda de ofício ou bebe a cicuta.

Em suma, as doutrinas mercenárias trocam a verdade pela servidão, de modo que não merecem ser chamadas filosóficas, do mesmo modo que cortesãos não merecem chamar-se estadistas.

7. Escapistas

Entendo por “filosofia escapista” aquela que evita os problemas mais importantes e interessantes. Os casos modernos mais óbvios de escapismo filosófico são a fenomenologia, a filosofia linguística e a metafísica modal. A primeira é escapista por centrar-se no eu. A segunda, por negar que haja problemas filosóficos. E a terceira, por fabricar pseudoproblemas, como o que ocorre com os nomes próprios quando se salta de um mundo a outro. Nenhuma delas enfrenta de maneira realista os problemas ontológicos, gnosiológicos e éticos colocados pelas ciências, pelas técnicas ou pela ação social. Portanto, não favorecem o avanço do conhecimento nem da sociedade.

Minha rejeição da filosofia linguística não implica rejeição da análise filosófica. Muito ao contrário, afirma que as análises dessa escola são superficiais porque não usam nenhuma ferramenta analítica potente, como o cálculo de predicados ou a álgebra abstrata. Por exemplo, o conceito de parte não se analisa averiguando o uso da palavra “parte” em diferentes grupos humanos. O uso não faz o significado. Ocorre o inverso.

A teoria de semigrupos permite construir a seguinte definição rigorosa do conceito de parte. Seja Å uma operação binária em um conjunto S de objetos de uma classe qualquer, como corpos ou palavras. A concatenação x Å y dos elementos x e y de S costuma chamar-se sua “soma mereológica”. Estipulamos que, se x e y pertencem a S, então x é parte de y, ou x < y, se e somente se x nada acrescenta a y, isto é, se a concatenação de x com y é igual a y.

Posto em símbolos: x < y = (x Å y = y).

Adicionalmente, sustento que a análise não passa de um meio. Que a meta suprema do filosofar é a síntese, isto é, a construção de teorias filosóficas. Também creio que, como o significado de uma ideia só pode ser encontrado descobrindo o que ela implica e o que a implica, a melhor análise é a síntese, em particular a localização da ideia a analisar em um sistema hipotético-dedutivo. Por exemplo, o conceito de tempo não se elucida averiguando como se usa a palavra “tempo” em uma tribo dada, nem mesmo na dos físicos, e sim construindo uma teoria do tempo ou, melhor ainda, do espaço-tempo.

Quanto à terceira das filosofias escapistas mencionadas, a dos mundos possíveis, nada ensina sobre a realidade, pois não se ocupa dela. Sua motivação inicial não foi compreender a realidade. Foi encontrar aplicações para as lógicas modais, ou lógicas da possibilidade. O lógico Saul Kripke propôs a seguinte interpretação da expressão “p é possível”, existe algum mundo no qual p é verdadeira. Nada se diz sobre como verificar em mundos distintos do nosso.

Essa interpretação tem a vantagem de abrir as portas à imaginação descontrolada. Por exemplo, se alguém sustenta que porcos podem voar, em vez de tirá-lo do erro diz-se. O senhor tem razão, há um mundo, chamado Porcália, no qual os porcos voam. E se alguém objetasse que porcos não podem voar porque não têm asas, responder-se-ia que isso não importa, já que a teoria em questão não impõe restrições de nenhum tipo. Nem sequer define o conceito-chave de mundo possível. Nessa teoria, tudo é possível e, portanto, tudo vale, exceto a contradição. O mundo vira um fumódromo de ópio (ou de maconha).

Um exemplo ainda mais famoso é o dos zumbis, ou seres humanos carentes de vida mental. Argumenta-se que pode haver zumbis porque não é logicamente necessário que a ideação seja um processo cerebral. Do mesmo modo, poderia afirmar-se que há mesas sem pés, máquinas de movimento perpétuo, fantasmas etc. Como a teoria não distingue possibilidade física de possibilidade conceitual, qualquer coisa é possível.

Em suma, à parte o suicídio, há pelo menos três maneiras pelas quais o filósofo pode esquecer a realidade. Colocando-a entre parênteses (fenomenologia). Concentrando-se em palavras (filosofia linguística). E fantasiando impossíveis (mundos possíveis). Abades e psiquiatras sempre souberam da existência de pessoas que fogem do mundo, mas nunca em tal quantidade nem em nome da filosofia.

Talvez se diga que as doutrinas escapistas são inofensivas. Isso não é verdade. Se praticadas na solidão, as doutrinas escapistas são tão autodestrutivas quanto outras táticas escapistas, como o abuso de álcool, televisão, Internet ou devaneio diurno em substituição ao trabalho. E, se praticadas a partir da cátedra, desviam a atenção dos estudantes dos problemas interessantes, todos os quais exigem mais e entregam mais. É próprio de parasitas passar a vida sonhando.

8. Ambivalentes

Há filosofias ambivalentes, progressistas em alguns aspectos e retrógradas em outros. Recordemos brevemente três delas, platonismo, aristotelismo e marxismo. O grande Platão desestimou o estudo da natureza por crer que o “mundo sublunar” (terrestre), sendo “corruptível” (mutável), não está sujeito a leis. Em contraste, exaltou a matemática, o reino da ordem, e também proclamou sua independência em relação ao mundo. Assim, o idealismo objetivo e racionalista, de Platão a Leibniz, e de Bolzano a Frege e Russell, contribuiu poderosamente para o desenvolvimento e o prestígio da matemática, ao mesmo tempo que obstaculizou o avanço das ciências da realidade.

Aristóteles, em contraste, estimulou todas as ciências e cultivou ele próprio a biologia e a politologia. Mais ainda, combinou o racionalismo de seu mestre com uma versão tímida do materialismo pré-socrático. Seus discípulos Teofrasto e Alexandre de Afrodísia reforçaram o naturalismo do mestre. Pouco depois deles, contudo, o aristotelismo, embora sempre tenha servido para combater o obscurantismo e o subjetivismo de Agostinho e dos neoplatônicos, ossificou-se. Converteu-se em escolástica estéril. Apenas a nova ciência de Galileu, Harvey, Vesálio, Kepler, Boyle, Huygens e os membros da Accademia del Cimento, todos racionalistas, naturalistas, realistas e cientificistas, conseguiu superar o aristotelismo ossificado.

Outro exemplo. Marx e Engels renovaram os estudos sociais e a filosofia política ao estudar o capitalismo industrial nascido apenas meio século antes, ao elogiar seus avanços e ao denunciar seus desequilíbrios e iniquidades. Infelizmente, contaminaram seu trabalho científico com o globalismo (ou “historicismo”), a dialética, a mania profética, que haviam contraído de Hegel, e a ideologia sinistra da “ditadura do proletariado”.

Aos filósofos marxistas foi ainda pior. Ossificaram o que havia sido uma filosofia tosca, mas fresca e rebelde, e se opuseram inicialmente às grandes novidades científicas do século passado, das relatividades e da quântica à genética e à sociologia. Felizmente houve algumas exceções importantes, os arqueólogos, antropólogos e historiadores que se inspiraram no materialismo histórico (não no dialético) para fazer contribuições relevantes. Fizeram-nas porque começaram perguntando como os povos estudados ganhavam a vida.

Outros casos importantes de ambivalência foram Rousseau, Hume e os positivistas. Os dois primeiros atacaram as ciências naturais, mas adotaram posições progressistas em política e religião, respectivamente. O positivismo pretendeu cortar as asas da física, mas nos estudos sociais serviu de filtro para separar ciência de palavrório e especulação infundada. O intuicionista Henri Bergson escreveu páginas razoáveis sobre as raízes da moral e da religião. E, ao abandonar a fenomenologia, Nicolai Hartmann disse coisas interessantes sobre as categorias e os níveis de organização da realidade.

Em resumo, antes de elogiar ou condenar em bloco uma escola filosófica, vejamos se deixou algo positivo. Afinal, pode ser que na filosofia não haja filões, apenas pepitas de ouro. Os bons ourives tentarão criar com elas diademas dignas de coroar a cultura intelectual de seu tempo.

Conclusão

É sabido que as ciências, embora difiram em seus referentes, são metodologicamente una. Todas buscam a verdade e a generalidade mediante clareza, rigor e provas. Que contraste entre a unidade e a harmonia das ciências e a cacofonia das filosofias. Cada filósofo define nossa disciplina à sua maneira, de modo que pode desqualificar as doutrinas de que não gosta. Mas é raro o filósofo que use um critério objetivo para avaliar filosofias. Neste livro sugerimos um. Pelos seus frutos as conhecereis.

Notas

1. Nota do Diretor de Universum. Este trabalho pode ser considerado uma primícia, já que corresponde ao que será o primeiro capítulo do próximo livro de Mario Bunge, Evaluando filosofías. É também o texto de uma das conferências pronunciadas por ele na Universidade de Pequim em outubro de 2011. A versão inglesa do livro, Evaluating Philosophies, foi publicada como o volume 295 de Boston Studies in the Philosophy of Science. Dordrecht, Springer, 2012. Desde aqui, agradecemos ao professor Bunge por enviar contribuição tão relevante.

Texto original: Mario Bunge, “Filosofías y fobosofias”, Universum.

O artigo foi publicado originalmente por Mario Bunge no Universum.

Universo Racionalista

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Fundada em 30 de março de 2012, Universo Racionalista é uma organização em língua portuguesa especializada em divulgação científica e filosófica.