Fósseis do ‘berço da humanidade’ podem ser um milhão de anos mais velhos do que se pensava

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Crânios de Australopithecus recuperados das cavernas de Sterkfontein. (Créditos: Jason Heaton/Ronald Clarke/Museu Nacional de História Natural de Ditsong)

Traduzido por Julio Batista
Original de Michelle Starr para o ScienceAlert

Vários restos de hominídeos antigos de cavernas na África do Sul podem ser muito, muito mais antigos do que as estimativas anteriores sugeriam.

O sistema de cavernas de calcário de Sterkfontein, não muito longe de Joanesburgo, rendeu tantos ossos antigos do gênero de hominídeos Australopithecus ao longo do século passado que sua localização foi apelidada de Berço da Humanidade – profundamente importante para o estudo da evolução humana.

Agora, novas técnicas de datação sugerem que os restos datam de quase 4 milhões de anos – tornando-os ainda mais antigos do que o famoso Australopithecus afarensis Dinkinesh, apelidado de Lucy.

“Sterkfontein tem mais fósseis de Australopithecus do que em qualquer outro lugar do mundo”, disse o geólogo e geofísico Darryl Granger, da Universidade de Purdue (EUA).

“Mas é difícil conseguir uma boa datação deles. As pessoas olharam para os fósseis de animais encontrados perto deles e compararam as idades de elementos das cavernas, como fluxo de rochas, e obtiveram uma série de datações diferentes. O que nossos dados fazem é resolver essas controvérsias. Ele mostra que esses fósseis são antigos – muito mais antigos do que pensávamos originalmente.”

Datar vestígios antigos não é exatamente fácil, especialmente em cavernas. Dinkinesh foi datada de 3,2 milhões de anos atrás, com base na datação radiométrica das cinzas vulcânicas no sedimento onde ela foi encontrada, mas as cavernas são um ambiente mais puro, onde as cinzas vulcânicas não caem.

As estimativas anteriores para o complexo sistema de Sterkfontein foram baseadas na idade do fluxo de calcita encontrado dentro do preenchimento da caverna. Formou-se cerca de 2 a 2,5 milhões de anos atrás.

No entanto, o fluxo de calcita pode se formar sobre sedimentos mais antigos, e esse parece ter sido o caso em Sterkfontein.

A maioria dos restos de Australopithecus de Sterkfontein foram recuperados de uma caverna chamada Membro 4. É exatamente o que parece: material que preencheu o que antes era uma cavidade, resultando em um depósito sedimentar; neste caso, ocultando, mas preservando antigos restos de hominídeos. O Membro 4 rendeu anteriormente a descoberta do famoso crânio da Sra. Ples, o exemplo mais completo de seu gênero já descoberto.

Trabalhos anteriores em outro famoso esqueleto de Australopithecus de Sterkfontein, o do indivíduo chamado Little Foot, escavado do Membro 2, retornaram uma idade de 3,67 milhões de anos. Os métodos de Granger foram fundamentais nessa datação. Como as idades de outros depósitos ainda são o tema de um debate acalorado, ele e seus colegas voltaram seus métodos para o Membro 4.

Em vez de examinar o fluxo de rochas, ou outros ossos encontrados nas proximidades (que podem não ser contemporâneos aos restos em questão), a equipe examinou a rocha na qual os restos do Australopithecus estavam embutidos. Especificamente, eles investigaram o decaimento radioativo de dois isótopos raros no quartzo: alumínio-26 e berílio-10.

“Esses isótopos radioativos, conhecidos como nuclídeos cosmogênicos, são produzidos por reações de raios cósmicos de alta energia perto da superfície do solo, e seu decaimento radioativo data de quando as rochas foram enterradas na caverna quando caíram na entrada junto com os fósseis”, Granger explicou.

A partir desses isótopos, a equipe discerniu que os sedimentos contendo Australopithecus datam de 3,4 a 3,7 milhões de anos atrás. Isso significa que os restos recuperados do depósito são todos do início da era do Australopithecus, e não do seu fim, como se pensava anteriormente.

Isso tem implicações importantes para nossa compreensão da evolução humana e o lugar de Sterkfontein nela, disseram os pesquisadores.

“Hominídeos mais jovens, incluindo Paranthropus e nosso gênero Homo, aparecem entre cerca de 2,8 e 2 milhões de anos atrás”, disse o arqueólogo Dominic Stratford, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, coordenador de pesquisa de Sterkfontein.

“Com base em datas sugeridas anteriormente, as espécies de Australopithecus da África do Sul eram muito jovens para serem seus ancestrais, por isso foi considerado mais provável que o Homo e o Paranthropus tenham evoluído na África Oriental”.

O novo resultado, consistente com a datação de Little Foot, sugere que o Homo e o Paranthropus – também encontrados no Berço da Humanidade – surgiram quase um milhão de anos depois que os indivíduos do Membro 4 viveram, o que significa que a ordem dos eventos, e onde eles ocorreram, pode ser revista.

“A datação dos preenchimentos de Australopithecus nas cavernas de Sterkfontein, sem dúvida, reacenderá o debate sobre as diversas características do Australopithecus em Sterkfontein, e se poderia ter havido ancestrais sul-africanos para hominídeos posteriores”, disse Granger.

A pesquisa da equipe foi publicada na PNAS.