Fósseis revelam que os cefalópodes podem ser 30 milhões de anos mais velhos do que pensávamos

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(Créditos: Tammy616/Getty Images)

Traduzido por Julio Batista
Original de David Nield para o ScienceAlert

A classe de animais marinhos conhecida como cefalópode – que hoje inclui lulas, polvos e chocos – poderia ter existido na Terra 30 milhões de anos antes do que se pensava, de acordo com novas pesquisas.

Além do mais, se tivermos de redefinir o tempo do surgimento dos cefalópodes, toda a história evolutiva dos organismos invertebrados pode precisar ser reexaminada, dada a importância dessas criaturas no quadro geral da vida no planeta.

A chave para a nova pesquisa é a descoberta de vários fósseis em forma de cone com 522 milhões de anos na Península de Avalon em Newfoundland, Canadá, apresentando certas características reveladoras que significam que eles podem ser classificados como cefalópodes.

Seções longitudinais e transversais dos fósseis recém-encontrados. (Créditos: Gregor Austermann/Communications Biology)

“Se eles realmente fossem cefalópodes, teríamos que retroceder a origem dos cefalópodes para o início do período cambriano”, disse a geocientista Anne Hildenbrand da Universidade de Heidelberg, na Alemanha.

“Isso significaria que os cefalópodes surgiram bem no início da evolução dos organismos multicelulares durante a explosão cambriana.”

Até agora, pensava-se que os primeiros cefalópodes eram Plectronoceras cambria – minúsculos moluscos com conchas em forma de cone que viveram no final do período Cambriano, cerca de 490 milhões de anos atrás.

Embora nosso conhecimento da anatomia de P. cambria seja baseado em fósseis incompletos, essas novas descobertas são semelhantes o suficiente para sugerir uma conexão entre as espécies. Eles também são diferentes o suficiente para apoiar a hipótese de que milhões de anos de evolução poderiam separá-los.

Por exemplo, uma das características que os cientistas identificaram em várias conchas calcárias da Península de Avalon é a evidência de um sifúnculo: um tubo de tecido que ajuda a esvaziar a água da concha, controlar os níveis de nitrogênio, oxigênio e dióxido de carbono e controlar a flutuabilidade.

No entanto, os sinais de um sifúnculo não estão presentes em todos os fósseis recém-encontrados e sua posição é ligeiramente diferente de onde seria esperado. Após uma análise minuciosa dessas semelhanças e diferenças, os pesquisadores acreditam que encontraram fósseis que são de fato uma forma mais antiga de cefalópodes.

“A presença de um sifúnculo, colos septais e um anel de conexão são comumente considerados como características-chave para a distinção dos primeiros fósseis de cefalópodes de outros organismos septados ou compartimentados”, escrevem os pesquisadores em seu paper.

“No entanto, alguns autores também sugeriram que nos materiais da concha fóssil há a ausência de algumas características de cefalópodes.”

Ajustar a linha do tempo significaria que os cefalópodes surgiram antes de certos euartrópodes (incluindo insetos e crustáceos), datando da época terreneuviana do registro geológico.

Sendo os primeiros organismos capazes de se impulsionar para cima e para baixo na água – graças novamente a esse sifúnculo – e se estabelecer no oceano aberto, os cefalópodes desempenharam um papel importante no início da história evolutiva e, por isso, os especialistas querem descobrir o momento de seu surgimento.

Classificar criaturas muitas vezes pode ser uma tarefa complicada, mesmo quando não estamos falando de restos fossilizados com mais de meio bilhão de anos, mas os pesquisadores esperam que mais estudos e novas descobertas ajudem a verificar suas afirmações. Agora, a busca é para encontrar exemplares mais bem preservados na mesma área.

“Esta descoberta é extraordinária”, disse o geocientista Gregor Austermann, da Universidade de Heidelberg. “Nos círculos científicos, suspeitou-se por muito tempo que a evolução desses organismos altamente desenvolvidos havia começado muito antes do que se supunha. Mas havia uma falta de evidências fósseis para apoiar essa teoria.”

A pesquisa foi publicada na Communications Biology.