História da Filosofia no Brasil – Parte 01

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A Filosofia no Brasil não é um assunto muito falado fora dos círculos acadêmicos (e muitas vezes nem dentro). Quando se fala em Filosofia se lembra de Sócrates, Kant, Nietzsche e Sartre, mas nunca de nenhum filósofo brasileiro. Não creio que isso se dê por conta de algum preconceito ou por que filósofos Brasileiros não possuem trabalhos relevantes. Acho, sim, que o que acontece é que a Filosofia sempre foi predominantemente europeia e, salvo exemplo dos EUA, raros foram os países do Ocidente que tiveram Filósofos que ficaram para a posteridade. Isso não significa que os filósofos brasileiros ou a história da Filosofia no Brasil seja desprezada; o que acontece é que, quando se fala de Filosofia, existem inúmeros Filósofos, e é preciso estabelecer prioridades, ou seria impossível ensinar e aprender Filosofia.

Eu não posso me considerar um nacionalista; acho que reconhecimento deve ser dado a quem merece, sem distinção geográfica. Não fico perdendo tempo para analisar se um pensador é francês, alemão, americano, português ou brasileiro, se não para efeitos didáticos. Mas acredito que escrever, ainda que um pouco, sobre a trajetória da Filosofia no país é um bom serviço para aqueles que se interessam por Filosofia, por História ou simplesmente são curiosos a respeito do Brasil. Então achei que seria uma boa ideia discorrer um pouco sobre isso, até por que estudar Filosofia é sempre, de certa forma estudar história: E estudar a história da Filosofia no Brasil abre caminho para muitas percepções que nos permitem entender os rumos que país tomou, da época do descobrimento até os dias de hoje (e até por que não se fala tanto em Filosofia no Brasil).

Antes de mais nada, eu preciso deixar bem claro que não sou profundo conhecedor da história da Filosofia no Brasil e de seus pensadores, e minha pesquisa sobre o assunto foi relativamente superficial. No entanto, creio que para efeitos de conhecimento geral, o que estará nesta matéria poderá servir pelo menos para despertar o interesse ou saciar a curiosidade. Ao fim desta série de matérias vocês encontrarão as referências e sugestões de leitura se quiserem se aprofundar no assunto.

Origens Jesuíticas 

AnchietaeNóbrega

Como eu digo constantemente, a Filosofia está intimamente ligada à história. No Brasil, para entendermos as origens da Filosofia no país precisamos, antes de mais nada, viajar até a Europa para conhecer o contexto da época.

No final do século XV, a Europa estava passando por grandes mudanças, que incluíam principalmente o movimento renascentista, a Reforma Protestante e a Contrarreforma. A Reforma Protestante foi um movimento liderado por Martinho Lutero, que ia contra o domínio da Catolicismo ao criticar a hipocrisia dos líderes da Igreja na época (e que culminou com o surgimento do protestantismo); já a Contrarreforma foi uma espécie de resposta à Reforma, onde a Igreja tentou retomar o controle das coisas. A Contrarreforma, no entanto, acabou não sendo muito bem sucedida, uma vez que outros fatores históricos contribuíam para uma noção de sociedade desvinculada do Catolicismo.

Mas acontece que, enquanto o Renascimento ia deixando para trás a visão medieval, Portugal era um país que resistia à mudança, e a Igreja Católica encontrou no país um forte aliado da Contrarreforma. O monopólio do pensamento pela Igreja foi tamanho que, a partir de 1564, os professores de Filosofia foram obrigados a jurar obediência à fé católica. A ação fiscalizadora do Santo Ofício, a catequese da Companhia de Jesus e a vigilância do Paço fixaram balizas ao ambiente do pensamento, reduzindo a liberdade, instituindo a censura, aumentando a intolerância, controlando e mutilando o conteúdo dos livros, limitando o desenvolvimento filosófico e científico e impondo o obscurantismo. Em outras palavras, Portugal nadava contra a corrente das mudanças, tentando manter o status quo.

É neste ponto que o Brasil entra em cena. Nesse quadro econômico, político, religioso e cultural que ocorreram a “descoberta”, a colonização e a chegada dos primeiros jesuítas no Brasil. Com isto, além dos aventureiros que vieram para cá a partir de 1500, chegaram também, em 1549, com o governador Tomé de Souza, os primeiros religiosos da Companhia de Jesus comandados por Manuel da Nóbrega. A ideia da Igreja era não só combater a Reforma Protestante, mas conseguir converter outras nações ao redor do mundo ao Catolicismo para ajudar na retomada do poder. Através da educação, os inacianos buscavam a conversão dos indígenas à fé católica e fundavam colégios que tiveram papéis relevantes e fundamentais na formação sacerdotal, na criação e na estruturação da educação formal e pública brasileira, no ensino das artes, da literatura, da ciência, da religião, na difusão da ideologia dominante e nos rumos da filosofia no Brasil.

Note então que, aqui, a Filosofia não começou como uma forma de livre pensamento, pelo contrário; atrelada à fé católica, o ensino jesuíta era feito aos moldes da escolástica tomista*, com o objetivo fundamental de converter os nativos que aqui estavam ao catolicismo.

padre-manuel-da-nobregaPadre Manoel da Nóbrega foi o fundador do primeiro colégio da Companhia de Jesus. No começo, ensinava apenas a ler e a escrever, mas poucos anos depois já ensinava as chamadas “humanidades” e logo passou a ensinar também Filosofia, ao passo que ela pode ser considerada a primeira “Faculdade de Filosofia” do país. A partir daí, surgiram outros colégios, destinados a formar a elite no período colonial.

Os colégios e escolas da Companhia eram gratuitos, tanto em Portugal quanto no Brasil, pois eram subsidiadas pelo governo Português com o objetivo de ajudar na expansão da fé católica. Apesar de os cursos de Filosofia (artes) desenvolvidos nos colégios localizados na colônia seguirem o mesmo plano pedagógico dos colégios jesuítas e universidades européias.

Os estudos de Filosofia do período ficavam dentro de um aristotelismo tomista, ou seja, o ensino escolástico foi a base da elite intelectual brasileira colonial e também da cultura filosófica brasileira, desde o seu surgimento no país, e enraizou-se marcando profundamente os rumos da filosofia e de seu ensino nesta terra para além do período colonial, tornando-se uma de suas características mais marcantes. No Brasil colônia, os cursos de Filosofia também seguiam a diretriz humanista clássica basicamente latina, literária, erudita, que era desinteressada e não tinha preocupação com o uso prático.

A organização e o plano de estudos dos jesuítas eram direcionados pelo Ratio Studiorum, que, enquanto código e método pedagógico, passou a direcionar a organização e o plano de estudos dos jesuítas, que tomaram como finalidade básica a conquista de almas para o catolicismo, vinculados filosoficamente às concepções aristotélico-tomistas, recrutando os seus professores em diferentes nações e com um plano de estudos sistemático, uniforme e imperativo (e também bastante eficiente, é preciso admitir).

Os jesuítas organizaram os seus colégios na Europa e no Brasil, procurando resgatar a decadente escolástica desta época, num movimento de restauração do tomismo. E assim o ensino da Filosofia seguiu, até que os Jesuítas foram “convidados a se retirar”.

Fontes:
Mazai, Norberto e Ribas, Maria Alice Coelho.Trajetória Do Ensino De Filosofia No Brasil.
Da Silva, José Carlos. Os Jesuítas E O Ensino De Filosofia No Brasil.

*O pensamento de São Tomás de Aquino, que foi a principal via de pensamento nas universidades Medievais até a derrocada do domínio da Igreja.

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