História da Filosofia no Brasil – Parte 03

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Nesta terceira parte da história da Filosofia no Brasil, veremos a influência do positivismo no Brasil e a estruturação da primeira corrente filosófica brasileira, numa época em que o país lutava para se alinhar ao espírito da época, ao mesmo tempo em que lutava para manter suas bases espirituais. Mas cujo pensamento, pela primeira vez desde a chegada dos Jesuítas e as reformas pombalinas, tinha a possibilidade de ser realmente livre.

 

O Positivismo chega ao Brasil

O século XIX trouxe para o Brasil o Positivismo, visão elaborada por Augusto Comte, e que influenciaria também o movimento do romantismo. A visão positivista de Comte era interessante por que colocava as ciências naturais e a razão, não como uma força que leva a sociedade adiante, e sim como um instrumento para a mudança social. Comte acreditava que a ciência só valia se fosse vista de forma “holística”, ou seja, se suas possibilidades fossem estendidas para a construção de uma sociedade melhor, não só de uma sociedade economicamente mais avançada.

As consequências disso para o pensamento brasileiro era que, pela primeira vez, podíamos enxergar uma filosofia que não fosse fundamentado num conhecimento “acabado” e entregue em “pacotes” para ser repetido para as próximas gerações. Nem a Filosofia Jesuíta (metafísica e abstrata) nem a Filosofia da Reforma Pombalina (basicamente tecnicista) proporcionavam um pensamento independente ou uma visão de mudança social. Com o positivismo, pela primeira vez, os pensadores brasileiros viram a oportunidade de se livrar do ensino eclesiástico e de serem donos do seu próprio pensamento.

filo3bO professor de matemática Benjamin Constant foi um dos que abraçou o positivismo, e achava que o ensino primário deveria ser mais do que um formador para as escolas superiores, mas também um preparador; com isso, decretou uma reforma que consistia na gratuidade, liberdade, e laicidade do ensino. Mas, no fim das contas, a reforma não foi exatamente uma reforma e só se adicionou o ensino científico ás disciplinas tradicionais, mais uma vez mantendo a bipolaridade brasileira já citada.

filo3cOutros positivistas brasileiros que merecem destaque foram Nísia Floresta Augusta (considerada a primeira feminista brasileira e discípula direta de Auguste Comte), Miguel Lemos, Euclides da Cunha, Luís Pereira Barreto, o marechal Cândido Rondon, Júlio de Castilhos, Demétrio Ribeiro, Roquette-Pinto, Barbosa Lima, Lindolfo Collor, David Carneiro, Luís Hildebrando Horta Barbosa, Alfredo de Morais Filho, Henrique Batista da Silva Oliveira e Eduardo de Sá.

O Positivismo brasileiro ainda era dividido em duas correntes: o ortodoxo, mais conhecido, ligado à Religião da Humanidade* e apoiado pelo discípulo de Comte, Pierre Laffitte, e o heterodoxo, que se aproximava mais dos estudos primeiros de Augusto Comte que criaram a disciplina da Sociologia e era apoiado pelo discípulo de Comte, Émile Littré.

 

O Ecletismo Espiritualista

Mas não era só de Positivismo que vivia a Filosofia na época. A mescla que já ocorria entre uma filosofia metafísica e a filosofia com viés iluminista acabou dividindo a Filosofia Brasileira em duas correntes principais: uma delas era o Positivismo, e a outra era o Ecletismo Espiritualista.

O ecletismo espiritualista foi a primeira corrente filosófica rigorosamente estruturada do país. O processo de formação da corrente eclética abrange aproximadamente o período entre 1833 a 1848. Esta corrente foi fundada por Salustiano Pedrosa e Gonçalves de Magalhães – este último considerado o primeiro Filósofo genuinamente brasileiro – a partir do ecletismo francês de Maine de Biran, divulgado por Victor Cousin, e visava superar a dicotomia religião/ciência da época, tentando encontrar pontos em comum entre o naturalismo o espiritualismo. Nesse ciclo ocorre debates filosóficos entre naturalistas e espiritualistas.

filo3dO objetivo básico dos pensadores era, a partir da filosofia eclética, conciliar o que consideravam verdadeiro em todos os sistemas, considerados como manifestações parciais de uma verdade única e ampla. Em síntese, o Ecletismo é uma reunião de teses conciliáveis tomadas de diferentes sistemas de filosofia, deixando de lado, pura e simplesmente, as partes não conciliáveis destes sistemas, ou seja; recolher todas as grandes idéias suscitadas através das eras, e mesclá-las na criação de uma idéias nova. Para o Ecletismo Espiritualista, tudo que não era contraditório entre si era válido. Algo, de fato, bem brasileiro.

A filosofia que se ensinava através desta corrente era constituída por filósofos poucos conhecidos em outros países como Storkenau e Genuiense, mas também contava com algo de Locke e Condillac, além de Maine de Biran e Victor Cousin já citados. Os principais temas desta corrente eram a consciência e a liberdade, assuntos que foram deixados de lado aqui pelos empiristas.

Os ecléticos podiam ser divididos em dois grupos: os que reuniam teorias, sem métodos e sem crítica, sendo mais um sincretismo do que propriamente uma conciliação forçada de doutrinas totalmente diferentes; e o grupo que parte do princípio de que o pensamento filosófico em geral engloba sempre elementos muitas vezes incompatíveis entre si.

A filosofia de Victor Cousin, que inspirou a fundação do Ecletismo Espiritualista foi quase sempre combatida como sendo superficial em outros lugares, mas no Brasil e em Cuba foi recebida com grande entusiasmo.

Dentre os pensadores ecléticos o que mais se destacou, foi o pernambucano Antônio Pedro de Figueiredo, que teve a preocupação em estudar os problemas brasileiros. Outros representantes do ecletismo brasileiro, foram Mont’Alverne (na imagem anterior), Gonçalves Magalhães e Ferreira França Morais e Vale. A obra “A Alma e o Cérebro”, de Gonçalves Magalhães pode ser considerada a principal referência desta corrente Filosófica.

E foi assim que a Filosofia se desenrolou no século XIX no Brasil. A partir do século XX, transformações profundas como o advento da República e o desequilíbrio entre campo e cidade (apenas para citar alguns exemplo) criam um novo país que leva, mais uma vez, a Filosofia brasileira a se transformar. E isso será apenas o começo de um século bastante turbulento.

 

Fontes:
Barroso, Marco A. A Influência do Espiriritualismo Eclético para a Filosofia do Brasil.
____, Vergílio. Ecletismo Espiritualista.
Mazai, Norberto e Ribas, Maria Alice Coelho. Trajetória Do Ensino De Filosofia No Brasil.

 

*A Religião da Humanidade foi um sistema religioso criado por Comte em 1854 como coroamento da carreira filosófica, em que procurou estabelecer as bases de uma completa espiritualidade humana, sem elementos metafísicos ou sobrenaturais. A Religião da Humanidade também é conhecida como “Positivismo religioso”.

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