História – O primeiro artigo da revista Nature

Tomas Huxley foi um dos cientistas a fomentar a criação da revista Nature

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O primeiro número da revista Nature foi publicado em 4 de junho de 1869.

O fundador da revista, Alexander Macmillan, convencido por um astrofísico (Norman Lockyer) e por um naturalista (Thomas Henry Huxley) lançou um jornal de Ciências em geral (interdisciplinar), o Nature Journal, uma revista ilustrada semanal.

Norman Lockyer se torna então o primeiro editor de Nature, e sustenta essa posição por 50 anos, sendo que a declaração original de missão da revista permanece inalterada até até o ano 2000.

Quanto a Huxley, desde a publicação de “A Origem das Espécies” em 1859, ele fazia mais do que ninguém para promover as teorias de Darwin. E além de ter sido fundamental para a concepção da revista Nature, Huxley é também o autor do primeiro artigo da revista.

Huxley escreveu a primeira página da revista número 1 em 1869 na forma de um prefácio, a convite do próprio editor.

Ele abre o artigo traduzindo um poema panteísta do grande escritor Alemão Wolgang von Goethe chamado “Aforismos sobre a Natureza”: uma série de 30 aforismos onde cada um é uma sucinta definição poética da natureza e de seu papel no desenvolvimento dos seres humanos.

Huxley explica sua opção pela linguagem poética de Goethe de maneira profética. Ele supõe que meio século mais tarde, leitores curiosos encontrariam nos primeiros números da Nature, talvez realizações ultrapassadas e talvez teorias superadas, mas nos versos do poeta ainda estaria a mesma natureza que para sempre será.

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GOETHE: APHORISMS ON NATURE     •     BY PROF. HUXLEY, F.R.S
Quando meu amigo, o editor de Nature me pediu pra escrever um artigo de abertura do primeiro número, me veio à mente essa maravilhosa rapsódia sobre a natureza, que é um deleite para mim desde a minha juventude. Nenhum prefácio seria mais adequado para inaugurar um Jornal que pretende espelhar a moldagem que a Natureza faz, e espelhar uma foto de si mesma na mente do homem, a qual nós chamamos de progresso da ciência.

Para que uma tradução valha a pena de ser feita, ela deve reproduzir as palavras, o sentido e a forma do original. Mas quando esse original é um Goethe, fica realmente difícil obter este resultado; Mais difícil ainda, saber se ela atingiu o objetivo, ou se é só mais uma da longa lista dos que tentaram trazer o grande poeta alemão para o Inglês, e que falharam.

Mas mesmo supondo que os críticos estejam satisfeitos com a tradução, ela também é a chance de outro acerto de contas com o público britânico, que não gosta daquilo que eles chamam de “Panteísmo” quase tanto quanto eu faço, e que certamente vai se deparar com este ensaio do poeta que é terrivelmente panteísta.
Na verdade, o próprio Goethe quase admite que é assim. Em uma curiosa carta explicativa dirigida ao chanceler von Muller, sob a data de 26 de maio de 1828, ele escreve:

“Este ensaio me foi enviado há pouco tempo, entre os papéis da cada vez mias homenageada Duquesa Anna Amelia, que é escrito por uma mão bem conhecida, da qual eu estava acostumado e a aproveito em meus assuntos, no ano de 1780.” N.T. Na época em que escreveu a referida carta, Goethe se ocupava do estudo do osso maxilar humano e tinha dificuldade para encontrar interessados no assunto.

“Eu não me lembro exatamente de ter escrito essas reflexões, mas elas concordam muito bem com as ideias que eu tinha naquela época de tornar desenvolvido o tema em minha mente. Eu poderia designar o grau de percepção que eu tinha atingido: Uma declaração comparativa, que estava tentando expressar e que ainda não havia atingido o superlativo.”

“Há uma tendência evidente para uma espécie de Panteísmo, para a concepção de um incondicional Ser auto-contraditório, insondável, subjacente aos fenômenos da Natureza, e que pode passar como uma brincadeira, de uma amarga verdade.”

Goethe diz que na data desta composição, ele estava ocupado principalmente com a anatomia comparativa, e em 1786, teve problemas despertar o interesse na sua descoberta, que o homem tem um osso intermaxilar. Depois disso, ele passou a metamorfose das plantas, e com a teoria do crânio; e por fim, teve o prazer de ver o seu trabalho ocupado por naturalistas alemães. A carta termina, assim:

“Se considerarmos as grandes realizações pelo qual todos os fenômenos da natureza têm sido gradualmente ligados entre si na mente humana, e em seguida, cuidadosamente ler o ensaio acima a partir do qual iniciamos, iremos, não sem um sorriso, pesar o comparativo, como eu o chamava, contra o superlativo que temos agora alcançado, e regozijar-nos no progresso de cinquenta anos.”
Quase meio século se passou desde que estas palavras foram escritas, e nós continuamos a visitá-las “não sem um sorriso no rosto”. Mas o caminho que o levou do comparativo ao superlativo, foi seguido diligentemente, até termos a noção que o superlativo de Goethe são os lugares comuns da ciência hoje – e nós temos o super-superlativo de nossa própria geração.
Quando outro meio século tiver passado, leitores curiosos irão visitar o nosso melhor nos primeiros números de Nature “não sem um sorriso no rosto”. E pode ser mesmo que as realizações registradas nessas páginas estejam ultrapassadas mas a visão do poeta permanecerá como um símbolo verdadeiro e eficiente da maravilha e do mistério da Natureza.

De Johann Wolfgang von Goethe : Aforismos sobre a Natureza
1. Natureza! Estamos cercados e abraçados por ela. Somos impotentes para nos separar ou para ir além dela.
2. Sem perguntar ou avisar, ela nos gira em sua dança frenética até que caiamos exaustos em seus braços.
3. Ela está sempre moldando novas formas; O que é nunca foi antes; O que foi jamais será de novo, e ainda nada é velho.
4. Vivemos em suas entranhas, mas sem nada saber a respeito. Ela fala incessantemente conosco sem no entanto revelar seus segredos. Nós agimos o tempo todo voltados a ela e ainda assim não temos poder algum sobre ela.
5. A única coisa que ela parece mirar é a individualidade, mas ela não se importa com os indivíduos. Ela está sempre construindo e destruindo; mas sua oficina é inacessível.
6. Sua vida está em seus filhos; mas onde está a mãe? Ela é a única artista e transforma o material mais uniforme em coisas totalmente opostas, chegando sem um traço de esforço, à perfeição, com a mais exata precisão, embora sempre velado sob sua suavidade.
7. Cada obra, uma essência própria e cada fenômeno, uma característica especial; Mas ainda assim sua diversidade está em sua unidade.
8. Ela toca uma música e nem sabemos se ela enxerga a si mesma, mas ainda assim ela toca pra nós, seus espectadores.
9. Vida incessante, desenvolvimento e movimento estão nela, mas ela não avança.
10. Ela sempre muda pra sempre sem descansar um só momento. A quietude lhe é inconcebível, e uma maldição ela colocou sobre o descanso. Ela é firme. Seus passos são medidos, suas leis imutáveis.
11. Ela sempre pensa e sempre pensou, embora não como Homem, mas como Natureza. Ela paira sobre uma idéia mal compreendida, que nenhuma busca poderia descobrir.
12. Com todos os Homens ela joga um jogo de amor e se alegra quanto mais eles ganham. Com muitos outros seus movimentos são tão sutis que o jogo termina antes mesmo que saibam que é um jogo.
13. Mesmo o mais estranho nela ainda é natureza; O filisteísmo estúpido tem um toque de seu gênio. Quem não pode vê-la em todos os lugares, não a vê em lugar nenhum.
14. Ela ama a ela mesma. Sua afeição e seus inúmeros olhos estão voltados a si própria. Ela se dividiu para seu próprio deleite. Ela provoca uma sucessão interminável de novidades para apreciar o surgimento, e sua simpatia insaciável ameniza.
15. Ela se alegra em ilusão. Quem destrói a si mesmo e aos outros, ela pune com tirania severa. Quem a segue na fé, ela toma como uma criança no peito.
16. Seus filhos são incontáveis e com nenhum deles ela é completamente miserável. Quanto aos seus favoritos, de quem se exige muito, ela faz grandes sacrifícios. Sobre a grandeza é que ela empunha seu escudo.
17. Ela joga suas criaturas no nada e não as diz de onde vieram e nem tão pouco para onde vão. É o seu negócio a funcionar, ela conhece a estrada.
18. Seu mecanismo tem poucas fontes, mas que nunca se desgastam, é dinâmico e tem várias saídas.
19. O espetáculo da natureza é sempre novo. Para ela os espectadores são sempre novos. A vida é sua invenção mais requintada e a morte o seu artifício especial de prover vida abundante.
20. Ela cria necessidades porque ela ama ação. Maravilhoso! Que ela produza toda esta ação tão facilmente. Cada necessidade é um benefício, rapidamente satisfeito, rapidamente renegado; Cada falta nova uma nova fonte de prazer, mas então logo ela atinge o equilíbrio novamente.
21. A cada instante em que ela começa uma imensa viagem, é o mesmo instante em que ela atingiu sua meta.
22. Ela é a vaidade das vaidades; mas não a nós, a quem ela fez-se da maior importância. Ela permite a cada criança aprontar truques com ela; a cada tolo julgá-la; milhares a andar estupidamente sobre ela e não ver nada; e toma o prazer dela, e descobre sua conta.
23. Nós obedecemos a suas leis, mesmo quando nos rebelamos contra elas; trabalhamos com elas, mesmo quando desejamos trabalhar contra elas.
24. Ela faz de cada presente uma benesse nos induzindo a desejar. E ainda retarda, para que possamos desejá-la; Ela se apressa, de modo que não fiquemos cansados dela.
25. Ela não tem idioma ou discurso, mas ela cria línguas e corações, pelos quais ela se sente e fala.
26. Sua coroa é o amor. Através do amor, por si só ousamos chegar perto dela. Ela separa todas as existências, enquanto todos tendem a se misturar. Ela isola todas as coisas, a fim de que todos possam se aproximar um do outro. Ela segura um par de correntes da taça do amor como um pagamento justo às dores de toda a vida
27. Ela é todas as coisas. Premia a si mesma e pune a si mesma; Em sua própria alegria e sua própria miséria. Ela é áspera e macia, amor e ódio, impotente e onipotente. Ela é um eterno presente. Passado e futuro são desconhecidos para ela. O presente é a sua eternidade. Ela é benevolente. Consagro-a em todas as suas obras. Ela é silenciosa e sábia.
28. Nenhuma explicação se arrancou dela; nenhum presente se ganhou dela, porque ela não dá livremente. Ela é astuta, mas com bons fins; e é melhor não notar seus truques.
29. Ela é completa, mas nunca terminada. Como ela trabalha agora, é para que possa funcionar sempre. Todo mundo a enxerga à sua própria maneira. Ela se esconde sob mil nomes e frases, e é sempre a mesma. Ela me trouxe aqui e também me levará embora. Eu confio nela. Ela pode me zombar, mas jamais odiar seu próprio trabalho. Não fui eu quem falou dela. Não! O que é falso e o que é verdadeiro, ela falou tudo. A culpa, o mérito, é todo dela.
Por enquanto, Goethe.

Declaração original de missão da revista Nature 1869 – 2000

O objeto que se propõe a atingir por este periódico pode ser amplamente demonstrados a seguir. Pretende-se
Primeiro, para colocar diante do público em geral os grandes resultados do trabalho científico e descoberta científicas; e instar as reivindicações da ciência para um reconhecimento mais geral na Educação e na vida diária;
Segundo, para ajudar os homens de ciência a si mesmos, dando informações no início de todos os avanços feitos em qualquer ramo do conhecimento natural em todo o mundo e, dando-lhes uma oportunidade de discutir as várias questões científicas que surgem de tempos em tempos.

Para realizar este duplo objectivo , o seguinte plano será seguido , tanto quanto possível:

Aquelas porções do paper dedicado mais especialmente para a discussão de assuntos interessantes para o público em geral deverá conter

I. Os artigos serão escritos por homens eminentes da Ciência sobre assuntos relacionados com os vários pontos de contato do conhecimento natural com assuntos práticos, a saúde pública e o progresso material; e sobre o avanço da ciência, e as suas funções de ensino e civilizatórios.

II. Relatos completos e ilustrados, quando necessário, das descobertas científicas de interesse geral.

III . Registros de todos os esforços feitos para o fomento do conhecimento natural em nossa faculdades e das escolas e das observações de ajudas à ciência -aprendizagem.

V . Comentários completo de trabalhos científicos , especialmente dirigidos para a base científica passada, e sobre as contribuições para o conhecimento , seja na forma de novos fatos , mapas, ilustrações, tabelas, e semelhantes, que podem conter.

E nas seguintes sessões de Nature , mais especialmente interessantes para os homens científicos serão dadas:

V. resumos de trabalhos importantes comunicados para os britânicos , americanos e Continental científicos sociedades e periódicos

VI.Relatórios das Reuniões de organismos científicos nacionais e estrangeiros . Deverão haver ainda colunas dedicadas à correspondência.

Declaração atual de missão da Nature 2000 – até hoje

Em primeiro lugar, para servir os cientistas através da publicação imediata de avanços significativos em qualquer ramo da ciência, e para fornecer um fórum para a comunicação e discussão de notícias e questões relacionadas com a ciência . Em segundo lugar, para garantir que os resultados da ciência sejam rapidamente divulgadas ao público em todo o mundo, de uma maneira que transmita a sua importância para o conhecimento, a cultura e a vida diária

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