Importante descoberta: cientistas mostram que os neandertais podiam produzir uma fala humana

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La Chapelle-aux-Saints 1, um dos crânios de Neandertal examinados para o estudo. Créditos: Eunostos / Wikimedia Commons.

Por Michelle Starr
Publicado na ScienceAlert

Nossos primos Neandertais tinham a capacidade de ouvir e produzir os sons da fala dos humanos modernos, descobriu um novo estudo.

Com base em uma análise detalhada e reconstrução digital da estrutura dos ossos em seus crânios, o estudo estabelece um aspecto de um debate de décadas sobre as capacidades linguísticas dos Neandertais.

“Este é um dos estudos mais importantes em que estive envolvido durante minha carreira”, disse o paleoantropologista Rolf Quam, da Universidade de Binghamton (EUA).

“Os resultados são sólidos e mostram claramente que os neandertais tinham a capacidade de perceber e produzir a fala humana. Esta é uma das poucas linhas de pesquisa atuais que dependem de evidências fósseis para estudar a evolução da linguagem, um assunto notoriamente complicado na antropologia”.

A noção de que os Neandertais (Homo neanderthalis) eram muito mais primitivos do que os humanos modernos (Homo sapiens) está desatualizada e, nos últimos anos, um crescente corpo de evidências demonstra que eles eram muito mais inteligentes do que pensávamos. Eles desenvolveram tecnologiacriaram ferramentascriaram arte e fizeram funerais para seus mortos.

Se eles realmente falavam um com o outro, no entanto, permanece um mistério. Seus comportamentos complexos parecem sugerir que eles deveriam ser capazes de se comunicar, mas alguns cientistas afirmam que apenas os humanos modernos tinham capacidade mental para processos linguísticos complexos.

Se esse for o caso, será muito difícil provar de uma forma ou de outra, mas o primeiro passo seria determinar se os neandertais poderiam produzir e perceber sons na faixa ideal para a comunicação baseada na fala.

Modelo 3D da anatomia da orelha humana moderna (esquerda) e Neandertal (direita). Crédito: Mercedes Conde-Valverde.

Então, usando um monte de ossos bastante antigos, foi o que uma equipe liderada pela paleoantropóloga Mercedes Conde-Valverde, da Universidade de Alcalá, na Espanha, se propôs a fazer.

Eles fizeram tomografias de alta resolução dos crânios de cinco neandertais para criar modelos virtuais 3D das estruturas da orelha. Eles também modelaram as estruturas das orelhas do Homo sapiens e de um fóssil muito mais antigo – o crânio de um hominídeo de Sima de los Huesos, o ancestral dos neandertais, datado de cerca de 430.000 anos atrás.

Um modelo da capacidade auditiva dessas estruturas do campo da bioengenharia auditiva foi então empregado para entender a faixa de frequência a que as orelhas eram mais sensíveis, também conhecida como largura de banda ocupada. Para humanos modernos, a largura de banda ocupada é o alcance vocal humano.

A equipe descobriu que os neandertais tinham uma audição melhor na faixa de 4 a 5 quilohertz do que o ancestral de Sima de los Huesos, e que a largura de banda ocupada pelos neandertais era mais próxima da dos humanos modernos do que do hominídeo de Sima de los Huesos. Essa otimização sugere fortemente que os neandertais precisavam ouvir a voz uns dos outros.

A largura de banda ocupada pelos humanos modernos (azul), Neandertais (cinza) e o hominídeo de Sima de los Huesos (vermelho). Créditos: Conde-Valverde et al., Nat. Ecol. Evol., 2021.

“Esta é realmente a chave [pra compreender isso]”, disse Conde-Valverde. “A presença de habilidades auditivas semelhantes, particularmente a largura de banda, demonstra que os neandertais possuíam um sistema de comunicação tão complexo e eficiente quanto a fala humana moderna”.

Curiosamente, a largura de banda ocupada dos neandertais se estendia para frequências acima de 3 kilohertz, que estão principalmente envolvidas na produção de consoantes. Isso, observou a equipe, distinguiria as vocalizações de Neandertal das vocalizações baseadas em vogais de primatas não humanos e outros mamíferos.

“A maioria dos estudos anteriores sobre as capacidades de fala dos Neandertais se concentraram em sua capacidade de produzir as vogais principais na língua inglesa”, disse Quam.

“No entanto, sentimos que essa ênfase não se aplica, já que o uso de consoantes é uma forma de incluir mais informações no sinal vocal e também separa a fala e a linguagem humanas dos padrões de comunicação em quase todos os outros primatas. O fato de que nosso estudo escolheu outro caminho é um aspecto realmente interessante da pesquisa e é uma nova sugestão sobre as capacidades linguísticas em nossos ancestrais fósseis”.

Ter a anatomia capaz de produzir e ouvir a fala não significa necessariamente que os neandertais tenham a capacidade cognitiva de fazer isso, acrescentaram os pesquisadores. Mas, eles apontam, não temos evidências de que os hominíneos de Sima de los Huesos exibiram o comportamento simbólico complexo, como funerais e arte, que encontramos associados aos Neandertais.

Essa diferença de comportamento é paralela à diferença na capacidade de audição entre os neandertais e os hominíneos de Sima de los Huesos, que sugere, segundo os pesquisadores, uma coevolução de comportamentos complexos e a capacidade de se comunicar verbalmente.

“Nossos resultados”, escreveram eles em seu estudo, “junto com as recentes descobertas indicando comportamentos simbólicos em neandertais, reforçam a ideia de que eles possuíam um tipo de linguagem humana, muito diferente em sua complexidade e eficiência de qualquer outro sistema de comunicação oral usado por organismos não humanos no planeta”.

A pesquisa foi publicada na Nature Ecology & Evolution.