Maior estudo do tipo encontrou 41 variações genéticas associadas a ser canhoto

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Créditos: Yellow Dog Productions / Getty Images.

Por Jacinta Bowler
Publicado na ScienceAlert

É uma pergunta que é surpreendentemente difícil de responder: por que a maioria de nós é destra, alguns de nós somos canhotos e um número ainda menor, ambidestros? Podemos apontar quais genes são responsáveis por isso ou é um fenômeno ambiental?

Um novo estudo de associação de genomas com mais de 1,7 milhão de pessoas não pode nos dar todas as respostas, mas está nos aproximando do entendimento de que uma combinação de fatores ajuda a produzir nossa inclinação para uma mão dominante.

“Embora haja um fascínio antigo sobre a gente se perguntar o motivo pelo qual algumas pessoas são canhotas, destras ou ambidestras, entender porquê algumas pessoas são canhotas e outras destras também é uma questão importante de ser pesquisada, porque a destreza pode influenciar a estrutura do cérebro e a maneira que funções diferentes estão localizadas dentro do cérebro”, disse a geneticista Sarah Medlan, do Instituto Médico de Pesquisa QIMR Berghofer, na Austrália.

No que os pesquisadores afirmam ser o maior estudo desse gênero até o momento sobre a destreza, a equipe encontrou 41 alterações de pares de bases de DNA que estão vinculadas à chance de uma pessoa ser canhota, enquanto sete outras foram vinculadas a ser ambidestro.

Infelizmente, porém, essa não é definitivamente a resposta para todas as questões. A equipe descobriu que essas mudanças de par de base conferiam apenas cerca de 12% da variação no ‘domínio das mãos’, o que significa que há algo mais (ou várias coisas) que estão compondo a maior parte de nossas orientações para a mão esquerda ou direita.

“Os resultados de nossas análises sugeriram que os fatores genéticos só poderiam ser responsáveis ​​por uma pequena parte da variação na destreza, enquanto os fatores ambientais provavelmente desempenham um papel muito mais importante”, explica um dos pesquisadores, o geneticista David Evans da Universidade de Queensland.

“Essa porcentagem foi semelhante para a ambidestria, o que significa que fatores como machucar uma mão ou treinar para praticar esportes ou instrumentos musicais têm um papel importante na capacidade de uma pessoa de usar as duas mãos igualmente bem”.

Em um estudo de associação genomas, os pesquisadores investigaram um grande número de genomas, analisando quais pequenas alterações no DNA estão ligadas a uma característica específica – como doenças cardíacas ou, neste caso, a de ser canhoto.

Neste estudo, os pesquisadores pegaram dados do Biobanco do Reino Unido, 23andMe, e do International Handedness Consortium (em português: Consórcio Internacional sobre Mãos Dominantes) para criar um mega banco de dados de variantes de genomas – dados de 1.766.671 indivíduos para ser exato.

“Esse grande número de participantes fornece o poder estatístico para detectar o efeito dos genes que, mesmo assim, têm efeitos ainda muito pequenos sobre a destreza”, diz o geneticista estatístico da 23andMe Gabriel Cuellar-Partida.

“Isso também destaca que grandes estudos são necessários para entender os fatores genéticos e as condições neurológicas que influenciam outras características e o porquê que a participação em pesquisas é tão importante”.

Pessoas canhotas nem sempre têm uma vida fácil. Até há relativamente pouco tempo, muitos canhotos eram punidos por dominar a mão esquerda e, ainda hoje, os canhotos vivem em um mundo em grande parte projetado para os destros. O porquê temos domínios preferenciais para as mãos é uma questão que intriga os biólogos há décadas.

Cerca de 10% da população dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália é canhota, mas o número exato difere em cada país. Sabemos que essa orientação começa a aparecer antes mesmo de nascermos, com mais pequenos movimentos de um braço do que do outro.

Outras teorias sugeriram diferenças nos hemisférios de nosso cérebro, fatores epigenéticos e exposição a hormônios pré-natais que podem contribuir para o domínio das mãos.

Este novo estudo descobriu que algumas das diferenças genéticas estavam nos genes dos microtúbulos e na morfologia do cérebro – o que significa que a pesquisa de desenvolvimento inicial pode estar em alguma coisa.

“Com respeito ao domínio das mãos, as proteínas dos microtúbulos desempenham papéis importantes durante o desenvolvimento e migração de neurônios, plasticidade e processos neurodegenerativos”, escrevem os pesquisadores em seu artigo.

“A associação entre o domínio das mãos e a variação nos genes dos microtúbulos também fornece informações sobre as diferenças na prevalência de vários distúrbios neuropsiquiátricos e o fato de pessoas serem canhotas observadas em alguns estudos epidemiológicos”.

Portanto, embora essa nova pesquisa não seja a palavra final sobre o porquê as pessoas são canhotas, destras ou ambidestras, esse é um passo à frente emocionante.

A pesquisa foi publicada na Nature Human Behavior.