Memória Incerta 0: Lembrando Satã

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Imagem do post: Demônio do filme “A Lenda”, de 1985. 

Esse é o primeiro de uma série de textos sobre lembranças, falsas lembranças e as ciências da memória. Confira os links dos outros textos:

“É grande esta força da memória, imensamente grande, ó meu Deus. É um santuário infinitamente amplo. Quem o pode sondá­lo até ao profundo? Ora, esta potência é própria do meu espírito e pertence à  minha natureza” (Agostinho, Confissões).

No conto “Yumiura”, de Yasunari Kawabata, um escritor recebe a visita inesperada de uma mulher que afirma tê-lo conhecido há trinta anos, durante um festival portuário na cidade de Yumiura.

“Faz realmente” – disse ela numa voz tímida – “um longo tempo. Meu nome agora é Murano. Meu nome era Tai quando nos encontramos. Você se lembra de mim?”.
“Eh?”, o escritor não lembra.

A mulher, porém, continua seu relato:

“Após o final da festa, descemos a estrada em direção ao mar. O céu estava à beira de explodir em chamas. Nós nos conhecemos num pôr-do-sol esplêndido”.
“Fui tão longe a ponto de visitar seu quarto em Yumiura?”, pergunta o escritor.
“Sim”, ela responde. “Você me pediu em casamento”. E, enquanto ela falava, lágrimas escorriam de seus grandes olhos.

O escritor se via envergonhado: o encontro fortuito num lugar chamado Yumiura estava fresco na memória da mulher, mas para ele, que, afinal, havia cometido o erro, o evento desaparecera. No instante em que a mulher deixa sua casa, o escritor procura um mapa detalhado do Japão, uma lista de todos municípios japoneses e esforça-se para encontrar uma cidade chamada Yumiura. Apesar das “lembranças” da mulher, a cidade de Yumiura sequer existia.

A ocorrência de falsas lembranças, como as da visitante do conto, nos parece aterradora pois parece colocar em questão a confiança que temos na memória. O caráter aterrador das falsas lembranças é expresso por Kawabata quando, numa certa altura da história, a visitante afirma: “lembranças são sempre bem vindas. Quaisquer que sejam as circunstâncias, a habilidade de lembrar coisas do passado é certamente uma dádiva dos deuses”, abençoando, assim, aquela mesma faculdade que havia acabado de lhe guiar ao erro.

A memória é uma de nossas capacidades mais importantes e está envolvida em praticamente todas nossas capacidades cognitivas: a percepção, o raciocínio, etc. Qualquer dúvida sobre esta afirmação se dissipa tão logo nós consideremos os casos de pessoas que foram privadas de sua memória. É famoso, por exemplo, o caso do paciente K.C..

Paciente K.C.

Em 1981, quando tinha 30 anos, Kent Cochrane (K.C.) sofreu um acidente de motocicleta que lhe rendeu lesões em diversas regiões do cérebro, incluindo os lobos temporal e medial. Após o acidente, K.C. perdeu um dos aspectos de sua memória: a capacidade de lembrar de qualquer experiência pessoal, ocorrida antes ou depois do acidente. K.C. sabe muitos fatos sobre sua vida (ex. o endereço da casa em morava na época do acidente), porém, não importa quanta informação factual lhe for dada, ele não consegue lembrar de qualquer experiência passada. O paciente K.C. sabe fatos sobre seu próprio passado do mesmo modo que ele sabe fatos semelhantes sobre outras pessoas.

Ken Cochrane, 61, has lived with severe amnesia since a motorcycle accident in 1981 and has been the subject of numerous scientific studies on memory. He was photographed in his bedroom at an Etobicoke retirement home, Monday October 29, 2012. (Galit Rodan for the Toronto Star).
Ken Cochrane (K.C.) aos 61 anos. Ele viveu com amnésia severa desde seu acidente em 1981 até sua morte em 2014 (Galit Rodan for the Toronto Star).

Em resumo, K.C. não tem o que se costuma chamar de “memória de episódica”. A amnésia de K.C., porém, não afeta somente sua apreensão do passado, mas também influencia outras de sua capacidades cognitivas mais básicas. Por exemplo, ao ser perguntado sobre o que fará horas depois, no próximo dia, ou mesmo no resto de sua vida, K.C. nunca responde: ele não consegue formar expectativas sobre seu próprio futuro (Tulving, 2001: 14). Não é preciso listar os problemas que a incapacidade de formar expectativas sobre o futuro pode nos acarretar. Assim, a amnésia de K.C., apesar de afetar criticamente “apenas” um dos aspectos de sua memória, tem consequências desastrosas para a vida dele.

Exatamente por isso, a possibilidade mesma de que tenhamos falsas lembranças nos parece tão aterradora. Pois, enquanto K.C. ao menos tem alguma noção das deficiências de sua memória, nós poderíamos, sem saber, estar numa situação próxima à dele. Na literatura sobre a memória, são relatados casos de falsas lembranças com consequências tão drásticas quanto os casos de amnésia.

Lembrando Satã

Em 1993, a revista The New Yorker publicou um artigo sobre um aparente caso de falsa lembrança. O artigo, intitulado provocativamente como “Lembrando Satã”, conta a história de Paul Ingram, um policial de quarenta anos, acusado de abuso sexual por suas filhas de dezoito e vinte e dois anos.

Inicialmente, Ingram não lembrava de ter cometido nenhum desses atos e negava as acusações. Porém, ao ser preso, o policial, que era membro de uma seita pentecostal fundamentalista, foi encorajado por seu pastor a lembrar dos tais “eventos”. Após horas de questionamento e orações, ele concedeu que as acusações fossem verdadeiras, que havia reprimido tais lembranças e que estava disposto a assinar a confissão. No decorrer das investigações, Ingram, sempre com a ajuda do pastor, “lembrou” de detalhes do “culto satânico”, que incluía sacrifícios de bebês, assassinatos e orgias, levando à prisão dois de seus “comparsas” – que negaram veementemente todas as acusações.

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Página da matéria “Lembrando Satã” da revista The New Yorker. Na foto do topo, Paul Ingram.

Enquanto esperava o julgamento na cadeia, Ingram foi entrevistado pelo psicólogo Richard Ofshe, que pediu que ele lembrasse de ter forçado seu filho e suas duas filhas fazerem sexo em sua frente – evento que, apesar de similar aos demais eventos “lembrados” por Ingram, não havia sido lembrado por nenhuma das filhas do policial e tinha sua ocorrência negada pelo seu filho. Após imaginar o evento e rezar, Ingram “lembrou” vividamente daquele terrível ato que teria ordenado e assistido. Assim, Ofshe concluiu que o policial era suscetível a falsas lembranças e que suas “lembranças” anteriores também poderiam ser falsas (Schacter, 1996: 130). Apesar disso, Ingram continuou preso.

Além de servir como matéria para boa literatura (e matérias sensacionalistas), nas últimas décadas, os casos de falsas lembranças em adultos normais, não muito diferentes daquele da visitante, têm sido estudados por filósofos, psicólogos, entre outros cientistas. Na atual psicologia sobre as falsas lembranças, eu destaco os trabalhos da psicóloga Elizabeth Loftus (1978, 1994, 1996, 2003), os trabalhos William Brewer (1988), Marcia Johnson (1979), além do livro The science of false memory, de Brainerd (brain-nerd?) e Reyna (2005). Na filosofia, são poucos os trabalhos sobre falsas lembranças, entre eles, destacamos o artigo de Andy Hamilton (1999) e o livro de Ian Hacking (1995/2000).

Apesar da existência de importantes estudos sobre falsas lembranças, Eu acredito que o fenômeno ainda não foi devidamente considerado nas atuais ciências da memória. Além disso, existe uma considerável confusão terminológica e conceitual das atuais ciências da memória no que diz respeito a lembranças e falsas lembranças. Para se ter uma ideia da confusão em torno da questão, no artigo “Are there 256 different kinds of memory?”, Endel Tulving (2007) lista nada menos que 256 tipos de memória propostos em artigos da área.

Nas próximas semanas, eu pretendo publicar uma série de textos sobre memória e o fenômeno das falsas lembranças. Na série, pretendo responder perguntas do tipo: (a) quais são os tipos de memória, (b) o que são falsas lembranças, (c) quais são os tipos de falsas lembranças. A ideia é fazer uma revisão das principais teorias correntes, descrever casos interessantes que estão na literatura e ainda relatar minha própria colaboração para o campo de estudos. Os textos da série são baseados em minha dissertação de mestrado em filosofia. Quem se interessar pode baixar a dissertação completa aqui.

A série é semanal e o primeiro texto será publicado em 29/11/15. LEMBRE-SE disso.

Bibliografia

BRAINERD, Charles e REYNA, Valerie. The science of false memory. Nova Iorque, EUA: Oxford Univ Press, 2005.
BREWER, William. “Memory for randomly sampled autobiographical events,”. In NEISSER, U. e WINOGRAD, E. (Eds.). Remembering reconsidered. Cambridge, Inglaterra: Cambridge University Press , 1988.
HACKING, Ian. Múltipla personalidade e as ciências da memória. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995/2000.
HAMILTON, Andy. “False memory syndrome and the authority of personal memory-claims: a philosophical perspective”, Philosophy, Psychiatry & Psychology, 5, 283-97, 1999.
JOHNSON, Marcia; RAYE, C.; WANG, A. e TAYLOR, T. “Fact and fantasy: the roles of accuracy and variability in confusing imaginations with perceptual experiences”. Jounal of Experimental Psychology: Human Learning and Memory, 5, 229-240, 1979.
KAWABATA, Yasunari. First snow on Fuji. Washington, EUA: Counterpoint, 2000.
LOFTUS, Elizabeth. “Our changeable memories: legal and practical implications”. Nature Reviews: Neuroscience, 4, 231-234, 2003.
LOFTUS, Elizabeth, COAN, J.A. & PICKRELL, J.E. “Manufacturing false memories using bits of reality”. In REDER, L (Ed.). Implicit memory and meta-cognition. Mahwah, EUA: Lawrence Erlbaum Associates, 1996.
LOFTUS, Elizabeth e KETCHAM, Katherine. The myth of repressed memories: false memories and allegations of sexual abuse. New York: St. Martin’s Press, 1994.
LOFTUS, Elizabeth. F.; MILLER, D. G. e BURNS, H. J. “Semantic integration of verbal information into a visual memory”. Human Learning and Memory, 4, 19-31, 1978.
SCHACTER, Daniel. Searching for memory: the brain, the mind, and the past. Nova Iorque, EUA: Basic Books, 1996.
TULVING, Endel. “Are there 256 kinds of memory?”. In. NAIRNE, J. (Ed.). The foundations of remembering. Nova Iorque, EUA: Psychology Press, 2007.
TULVING, Endel. “Origin of autonoesis in episodic memory”. In ROEDIGER III, H; NAIRNE, J; NEATH, I e SURPRENANT, A (Eds.). The nature of remebering: essays in honor of Robert G. Crowder. Washington, DC, EUA: American Psychological Association, 2001.

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