Memória Incerta 1: O dragão e a mantícora

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Imagem do post: Montagem das gravuras “A terrível mantícora”, de Conrad Gessner, e “O homem-dragão”, utilizada num impresso em Lucca, Toscana (ambos do século XVI). 

Esse é o segundo de uma série de textos sobre lembranças, falsas lembranças e as ciências da memória. Confira os links dos outros textos:

1030 d.C., um monge bávaro parte do mosteiro de Santo Emmeram, em Ratisbona (atual Alemanha), em direção à Panônia (atual Hungria). O seu nome era Arnaldo. Anos depois, ao escrever suas lembranças da viagem, Arnaldo relata um evento insólito: “na segunda sexta-feira após o pentecostes, na terceira hora, eu e minha comitiva encontramos um dragão”. Isso mesmo, um dragão!

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Dracarys! (Game of Thrones)

Segundo Arnaldo, a fera gigantesca não media menos que um quilômetro (!), tinha a cabeça emplumada e do tamanho de uma montanha, o corpo todo coberto por escamas, as costas enegrecidas pela fuligem e o umbigo cor de enxofre. O dragão teria circulado pelos céus em volta da comitiva por mais ou menos três horas. Então, como um raio, ele teria desaparecido das suas vistas.

No livro, “Phantoms of remembrance”, o historiador Patrick Geary analisa a estranha “lembrança” de Arnaldo, como parte de seu estudo acerca do papel da memória na sociedade europeia medieval na passagem do primeiro para o segundo milênio. “Se Arnaldo realmente viu ou não um dragão é menos importante do que o fato de ele lembrar ter visto um: sua percepção e memória operavam de acordo com um sistema diferente, que era dependente menos da experiência que dos sistemas comemorativos e referenciais dos quais ele fazia parte” (Geary, 1995: 160).

Em seu livro “Da Memória e Reminiscência”, Aristóteles fala sobre “Antipheron de Oreus e outras pessoas instáveis, que falam de suas imaginações como realmente tendo acontecido a eles” (século 4 a.C./2007: 35), mas pouco sabemos sobre Antipheron de Oreus e de suas imaginações. Nesse caso, o relato do “encontro” entre Arnaldo, sua comitiva e o dragão é, provavelmente, um dos mais antigos relatos de falsa lembrança que nós conhecemos.

A expressão “falsa lembrança” é geralmente utilizada para se referir a casos em que temos uma nítida impressão de lembrar de algo quando, de fato, não lembramos. Por exemplo, temos uma falsa lembranças quando temos a nítida impressão de lembrar de ter visto a morte de Senna ao vivo na televisão, quando, de fato, não lembramos disso (porque, talvez só vimos a reprise). Ou seja, uma falsa lembrança não é uma lembrança com conteúdo falso (no exemplo, a morte de Senna realmente foi transmitida ao vivo), mas sim algo que pensamos ser uma lembrança, mas que, de fato, não é.

Atualmente, não existe muita gente que afirme lembrar de ter visto dragões voadores (já Satã…), porém, nas últimas décadas, casos de falsas lembranças em adultos normais, não muito diferentes do monge alemão, têm sido amplamente estudados por filósofos (Hacking, 1995/2000) e psicólogos (Loftus e Ketcham, 1994). O principal motivo para que as falsas lembranças tenham recebido tanta atenção nas últimas décadas é, no mínimo, insólito.

O mito das lembranças reprimidas

O atual interesse nas falsas lembranças tem uma origem curiosa: deve-se a uma disputa judicial estadunidense. Na década de 80, centenas de estadunidenses foram diagnosticados como sofrendo de transtorno dissociativo de identidade (popularmente conhecido como “síndrome das múltiplas personalidades”). Nesta época, descrita por alguns como “a epidemia da múltipla personalidade” (Boor, 1982), foi estimado que 5% dos estadunidenses sofriam do transtorno (Roos et al, 1989). Diante de tal situação, um grupo de psiquiatras e psicólogos fundou a Sociedade Internacional para o Estudo da Dissociação de Múltipla Personalidade (ISSMP&D), ativa ainda hoje.

Na quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de desordens mentais (DSM-IV), da Associação Americana de Psiquiatria (APA), um dos sintomas de tal transtorno diz respeito à memória: a “incapacidade de dar importantes informações pessoais, incapacidade esta que não possa ser explicada como esquecimento normal”. Assim, a “epidemia” de transtorno dissociativo foi acompanhada de uma “epidemia” de “lembranças” recuperadas e que teriam sido reprimidas por muitos anos.

Nesta época, centenas de pessoas, em sua maioria mulheres sob tratamentos psiquiátricos, “lembraram” de terem sido abusadas sexualmente na infância, geralmente por seus parentes e como parte de cultos satânicos (como o caso de Paul Ingram, discutido no texto anterior). A partir da recuperação destas “lembranças”, muitas pessoas romperam relações com seus parentes e até mesmo os processaram.

Em 1992, um grupo de profissionais, familiares acusados de estupro e mesmo alguns “acusadores arrependidos” fundaram a Fundação da Síndrome da Falsa Memória (FMSF), para investigar o que eles acreditavam ser um surto de falsas lembranças. Os objetivos da fundação são: (i) “procurar as razões para a disseminação da Síndrome da Falsa Memória, que está devastando muitas famílias”;(ii) “desenvolver maneiras de prevenir (a síndrome)” e (iii) “ajudar aqueles que são afetados por ela, reconciliando-os com suas famílias”.

No livro “The myth of repressed memory” (1994), as psicólogas Elizabeth Loftus, atual membro do conselho científico da FMSF, e Katherine Ketcham defenderam que não é concebível que alguém “reprima” importantes lembranças por muitos anos para depois as reproduzir acuradamente. Assim, as psicólogas defendiam que boa parte das “lembranças” de abuso sexual na infância seriam, de fato, falsas lembranças, criadas a partir da utilização de técnicas de sugestão, como hipnose, exercícios de relaxamento, etc, por parte dos psicólogos.

Elizabeth Loftus dedicou sua carreira para demonstrar que é possível reproduzir falsas lembranças complexas em laboratório, a partir de simples sugestões e outros procedimentos controlados. Veja ela aqui, falando no TED:

A FMSF cresceu rapidamente: em 1994, o jornal da fundação anunciou que dez mil famílias tomaram informações acerca de suas ações e que, ao menos, 6007 pessoas eram membros. Em 2010, eram 1535 famílias recebem o boletim da FMSF.

A ciência das falsas lembranças

Nas últimas décadas, foi produzida uma quantidade considerável de dados clínicos e experimentais sobre os casos de falsas lembranças. Para se ter uma ideia, falsas lembranças são estudadas a partir de nove procedimentos (Brainerd e Reyna, 2005: 24): (1) intrusão semântica na lembrança de listas, que estuda falsas lembranças de listas de palavras semanticamente relacionadas; (2) falso alarme semântico no reconhecimento de listas, que trata dos falsos reconhecimentos de listas de palavras semanticamente relacionadas; (3) falsa lembrança devido a inferências semânticas, que estuda falsas lembranças proposicionais, a partir de listas de proposições semanticamente relacionadas; (4) sugestibilidade do testemunho ocular, que pesquisa as condições de lembrança que podem levar a falsos-testemunhos oculares; (5) falsa identificação de suspeitos de crimes, que estuda as situações em que podem ocorrer falsos reconhecimentos de suspeitos em investigações policiais; (6) falsa lembrança para eventos consistentes com um esquema, que estuda o papel dos esquemas nas falsas lembranças; (7) falsa lembrança por erro no monitoramento da realidade, que trata do papel que os erros no monitoramento exercem nas falsas lembranças; (8) falsa lembrança devido a inferências ilógicas, que pesquisa o papel de erros inferência nas falsas lembranças e (9) falsa lembrança autobiográfica, que estuda as falsas lembranças em seus ambientes naturais.

Apesar da grande quantidade de dados produzidos, os resultados da aplicação dos procedimentos utilizados na pesquisa não são inteiramente comensuráveis. Não existe uma teoria integrada que explique quais são os tipos de falsas lembranças e o que eles tem em comum. Nas palavras de Brained e Reyna, “um dos principais problemas enfrentados pelas teorias da falsa memória é o fato de os fenômenos de falsa memória são tão diversos: alguns são característicos de tarefas laboratoriais; outros são da vida cotidiana; alguns têm como causa eventos traumáticos, com consequências jurídicas; outros se dão por eventos inócuos e alguns são características de algumas fases do desenvolvimento, outros de outras fases” (Brained e Reyna: 2002: 164).

No próximo texto, eu vou arriscar uma classificação dos tipos de falsa lembrança, o que é um desafio, já que não existe consenso nem mesmo em relação os tipos de memória.

256 tipos de memória?

Num artigo de alto teor irônico, intitulado “Are there 256 kinds of memory?” (existem 256 tipos de memória?), o psicólogo Endel Tulving listou nada menos 256 diferentes tipos de memória que foram propostos por diversos pesquisadores da área (Tulving, 2007: 50):

  • memória anormal, associativa, categorial, celular, dinâmica, direta, ecoica, emocional, facial, falsa, genuína, geral, habitual, histórica, ilusória, implícita, latente, literal, melódica, modal, narrativa, natural, olfatória, original, pavloviana, perceptiva, química, recente, social, tácita, unitária, visual, etc.

Além da quantidade de tipos, a lista chama a atenção pela diversidade de critérios de classificação utilizados. Os psicólogos classificam a memória a partir de experimentos do tipo estudo/teste, os neurologistas a partir da quantidade de afluxo sanguíneo em diferentes áreas do cérebro no desempenho de tarefas, etc. Assim, quanto à quantidade de tempo em que a informação é armazenada, a memória é classificada em memória de curta e de longa duração; quanto ao grau de consciência do sujeito na lembrança, em memória inconsciente, disposicional, parcialmente consciente e consciente; quanto ao tipo de lembrete que dispara a recordação, em memória implícita e memória explícita; quanto ao tipo de informação armazenada, em declarativa, não declarativa e de procedimentos; etc.

Não é possível propor uma classificação que contenha os 256 tipos listados por Tulving e que não apresente sobreposições porque os diversos critérios de classificação utilizados são incompatíveis entre si. Por exemplo, uma lembrança consciente pode ser implícita ou explícita; uma lembrança explícita pode ser inconsciente, disposicional, parcialmente consciente e consciente. Nas palavras de Tulving, “o termo ‘memória’ tornou-se um termo guarda-chuva que cobre todos estes diferentes tipos e o sonho dos psicólogos de chegarem a uma teoria abrangente tornou-se tão irrelevante quanto uma teoria psicológica sobre guarda-chuvas” (Tulving, 2007: 42).

Se me permitem citar Jorge Luis Borges (“O idioma analítico de John Wilkins”), “estas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram aquelas atribuídas por Dr. Franz Kuhn a certa enciclopédia chinesa chamada Empório celestial de conhecimentos benévolos. Em suas remotas páginas está escrito que os animais se dividem em: (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) porcos, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cachorros soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam feito loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo, (l) etc, (m) que acabaram de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas”.

Se fosse colocado nas categorias do Empório celestial de conhecimentos benévolos, o “animal” resultante da junção dos mais diversos tipos de memória seria mais ou menos como uma mantícora:  corpo de leão, cabeça de homem, três fileiras de dentes de tubarão, às vezes asas de morcego, e uma voz trovejante. Estaria, portanto, na categoria (f) de animal fabuloso (e, consequentemente, na (h)). No próximo texto, vamos enfrentar essa mantícora para o caso específico das falsas lembranças. Será que faz sentido classificar os tipos de falsas lembranças? Desejem-nos sorte.

Bibliografia

ARISTÓTELES. “De memoria et reminiscentia”. In BLOCH, D. Aristotle on memory and
recollection. Leiden, Holanda: Brill, IV a.C./2007.GEARY, Patrick. Phantoms of remembrance: memory and oblivion at the end of the first
millennium. Nova Iorque, EUA: Princeton U.P., 1995.
BOOR, Myron. “The multiple personality epidemic: additional cases and inferences regarding diagnosis, dynamics and cure”. Journal of Nervous and Mental Diseases, 170, 302­304, 1982.
BRAINERD, Charles e REYNA, Valerie. The science of false memory. Nova Iorque, EUA: Oxford Univ Press, 2005.
BRAINERD, Charles e REYNA, Valerie. “Fuzzy­trace theory and false memory ”. Current Directions in Psychological Science ,
11, 162, 2002.
HACKING, Ian. Múltipla personalidade e as ciências da memória. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995/2000.
LOFTUS, Elizabeth e KETCHAM, Katherine. The myth of repressed memories: false memories and allegations of sexual abuse. New York: St. Martin’s Press, 1994.
ROOS, C. A.; NORTON, G. R.; WOZNEY, K. “Multiple personality: an analysis of 236 cases”.
Canadian Journal of Psychiatry, 34, 413­418, 1989.
TULVING, Endel. “Are there 256 kinds of memory?”. In. NAIRNE, J. (Ed.). The foundations of remembering. Nova Iorque, EUA: Psychology Press, 2007.

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