Memória Incerta 2: O nazista que não estava lá

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Imagem do post: Simon Wiesenthal, um sobrevivente de campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, dedicou sua vida a localizar, identificar e levar à justiça criminosos nazistas (AP-PHOTO)

Esse é o terceiro de uma série de textos sobre lembranças, falsas lembranças e as ciências da memória. Confira os links dos outros textos:

Neste texto, propomos uma classificação de tipos de falsas lembranças. Uma falsa lembrança acontece quando alguém tem a impressão de lembrar de algo (“lembrar”), mas não lembra de fato. Não lembra porque, entre outros motivos, aquele algo não aconteceu ou, ao menos, não aconteceu do modo como a pessoa “lembra”. Minha ideia é a de que podemos fazer uma classificação de tipos de falsas lembranças se a gente considerar as maneiras a partir da quais alguém pode falhar em lembrar de algo.

Quando a gente descreve um caso de lembrança,  gente usa frases do tipo: “S lembra de a-em-t como um Φ”, em que S é uma pessoa (a pessoa que “lembra”), a é o objeto lembrada (uma pessoa, objeto, evento, etc), t é uma coordenada temporal em que o conteúdo da lembrança se passaria e Φ é alguma  propriedade atribuída ao objeto da lembrança. Por exemplo, quando eu digo “Eu lembro de Senna em 1990 como um grande piloto de F1”, S=eu, a=Senna, t=1990 e Φ=um grande campeão.

Nesse caso, alguém pode ter uma falsa lembrança quando comete: (i) erro de atribuição de identidade (“lembra” de a como se fosse b, quando a≠b), (ii) erro de atribuição de propriedade (“lembra” de a como sendo um Φ, quando a não é um Φ), (iii) erro na atribuição de coordenada espaçotemporal (“lembra” de a ocorrendo t’, quando a ocorreu em t) e (iv) erro de atribuição de modalidade (“lembra” de a como sendo atual, quando a foi apenas imaginado). Nesse texto, eu vou tratar dos dois primeiros casos.

Erro de atribuição de identidade

Em 1978, Frank Walus, um operário polonês aposentado que emigrou para os EUA no final dos anos 40, foi acusado de ser um criminoso de guerra. Simon Wiesenthal (entre outras testemunhas) identificou Walus com um oficial da Gestapo. Mais especificamente, Wiesenthal identificou Walus como sendo “o açougueiro de Kielce”, um assassino sanguinário que teria atuado nas cidades polonesas de Czestochowa e Kielce entre 1939 e 1943.

Frank Walus (à direita) ao lado de Ernst Zundel.
Frank Walus (à direita) ao lado de Ernst Zundel.

Outra testemunha “lembrou” de ter visto Walus matar uma criança e a mãe desta criança. Mais outra “lembrou” de quando Walus entrou em sua casa e espancou seu pai e de quando ele matou um advogado judeu. Ainda outra reconheceu a fotografia de Walus em meio a uma série de fotografias. “Nunca esquecerei este rosto”, confidenciou a testemunha. “Este é o rosto (do homem) que matou um homem inocente, cujo único crime era ser um judeu”. Baseado nestes testemunhos, Walus foi condenado por crimes de guerra e sua cidadania estadunidense foi revogada.

Porém, quando a defesa apelou contra a condenação de Walus, o outro lado da história apareceu. Nos arquivos de guerra da Alemanha, não foi encontrado qualquer menção a “Frank Walus” ou a outro nome semelhante. Também não havia qualquer menção a Walus nos arquivos da comissão polonesa contra crimes de guerra. Além disso, Walus tinha documentos e testemunhas que comprovavam seu álibi: na época da guerra, ele havia sido mandado para um campo de trabalhos forçados na Baviera.  Diante das evidências, a corte cancelou a sentença, deixando em aberto a possibilidade de outro julgamento, que nunca aconteceu (Schacter, 1996: 98).

Se o veredito final do Departamento de Justiça dos EUA estiver mesmo correto, podemos dizer que Wiesenthal lembrou falsamente de Walus na época da guerra. Pois, pelos seus depoimentos, sabemos que ele “lembrou” de Walus na época da guerra, mas, ao que parece, ele não lembrou do operário polonês.  A forma de sua falsa lembrança é a seguinte: ele “lembrou” do açougueiro de Kielce como se fosse Walus e, assim, falhou em lembrar de algo.

Erro na atribuição de propriedade

No final dos anos 60, o psicólogo Donald Thompson colaborou com Endel Tulving numa série de experimentos que os levaram a propor uma teoria sobre como memória codifica novos conteúdos. Após sua colaboração com Tulving, Thompson passou a pesquisar as distorções da memória, mais precisamente os casos de erros na identificação de suspeitos por testemunhas oculares. Em 1975, Thompson foi chamado a testemunhar num caso de estupro. Ele estava acostumado com este tipo de chamado, porém, desta vez, o motivo era diferente: sua descrição casava quase que perfeitamente com a descrição que uma vítima fez de seu estuprador a partir da “lembrança” dele.

Por sorte, Thompson tinha um álibi: na hora do crime, ele estava dando uma entrevista na televisão – ironicamente sobre o modo como as pessoas podem melhorar sua habilidade de lembrar de rostos. No decorrer das investigações, ficou esclarecido que, poucos minutos antes do estupro, a vítima estava assistindo a Thompson na televisão e, aparentemente, confundiu a lembrança do psicólogo com sendo a do estuprador. Esclarecido isto, Thompson foi liberado (Schacter, 1996: 114).

Como Thompson não poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, a vítima do estupro teve uma falsa lembrança.Neste caso, a vítima lembrou do psicólogo Donald Thompson, porém atribuiu ele uma propriedade que ele não tinha e, com isso, falhou em lembrar. Assim, este é um caso do que chamamos de falsa lembrança por erro de atribuição de propriedade. A forma de sua falsa lembrança é a seguinte: a vítima lembrou de Thompson (com as propriedades sensíveis relacionadas a ele) como se ele a tivesse estuprado e assim falhou em lembrar.

Caso especial: erro de conjunção de conteúdo

Na literatura de psicologia, encontramos um tipo relativamente diferente de erro de atribuição de propriedade, também chamado de “erro de conjunção de conteúdo” (Schacter, 2001/2003: 121). Os erros de conjunção de conteúdo acontecem quando se atribui a um particular um grupo de propriedades de outro particular, ao ponto de não ser mais razoável perguntar de que particular se está falando.

Reinitz et al (1992) reproduziram os erros de conjunção de conteúdo em laboratório. O experimento de Reinitz consistia em apresentar a 71 estudantes alguns desenhos de faces humana (figura abaixo), para, depois de 45 minutos, aplicar um teste para medir de quantas figuras apresentadas os estudantes lembravam. Na segunda fase de seu experimento, Reinitz apresentou aos participantes (a) figuras apresentadas anteriormente; (b) figuras não apresentadas, mas compostas por características apresentadas anteriormente, (c) figuras compostas por algumas características apresentadas e outras características novas e (d) figuras não apresentados anteriormente e perguntou se eles lembravam delas.

Os resultados foram os seguintes: 71% dos estudantes lembraram dos desenhos do tipo (a) e 52% deles “lembraram” dos desenhos do tipo (b), enquanto apenas 19% e 13% deles “lembraram” os desenhos do tipo (c) e (d), respectivamente. O dado relevante para nosso estudo é a alta porcentagem de falsa lembrança nos desenhos do tipo (b).

Erro de conjugação de conteúdo. Depois de serem apresentado às duas primeiras faces, 52% dos participantes afirmaram erradamente que lembravam da terceira (Reinitz et al, 1992).Erro de conjugação de conteúdo. Depois de serem apresentado às duas primeiras faces, 52% dos participantes afirmaram erradamente que lembravam da terceira (Reinitz et al, 1992).

O estudo de Reinitz e seus colaboradores demonstra não só a existência de erros de conjunção de conteúdo, como também o quanto eles são comuns. Em seus estudos, Reinitz apresentou aos participantes as duas primeiras faces da figura acima e perguntou se eles lembravam da terceira. A terceira face nada mais é que a conjunção de características da primeira (cabelos soltos, orelhas cobertas, boca fechada) e da segunda (sobrancelhas finas, olhos arredondados, nariz pequeno).

Na literatura sobre as falsas lembranças, geralmente se toma os erros de conjunção de conteúdo como sendo qualitativamente distintos dos erros de atribuição de propriedades, porém, acreditamos que a distinção é somente quantitativa. Pois podemos descrever os erros de conjunção de conteúdo a partir de uma sucessão de erros de atribuição de propriedades, mais especificamente, a partir da sucessão de erros na atribuição de propriedades de um particular a outro particular a ponto de o particular “lembrado” não ser mais identificável a partir da “lembrança”.

Acerca do experimento de Reinitz, podemos dizer que o participante X (um dos que afirmaram lembrar da terceira face) “lembrou” da primeira face como se ela tivesse os olhos arredondados, o nariz aredondado, etc, para cada propriedade presente na terceira, mas não na primeira face. (Analogamente, poderíamos dar a mesma descrição tomando a segunda face como referência).

Mesmo que no, no final do processo, não seja possível precisar de qual particular o sujeito lembrou, podemos, com resultados também indiscerníveis, “escolher” qualquer dos particulares evolvidos e atribuir ao sujeito diversos erros de atribuição de propriedade em relação a esse particular. Não há uma fronteira clara entre um erro de conjunção de conteúdo e um erro de atribuição relativamente a diversas propriedades.

Continua.

Bibliografia

REINITZ, M. T.; LAMMERS, W. J. e COCHRAN, B.P. “Memory conjunction errors: miscombination of stored stimulus features can produce illusions of memory”. Memory & Cognition, 20, 1-11, 1992.

SCHACTER, Daniel. Os sete pecados da memória: como a mente esquece e lembra. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2001/2003.

SCHACTER, Daniel. Searching for memory: the brain, the mind, and the past. Nova Iorque, EUA: Basic Books, 1996.

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