Memória Incerta 3: O “sequestro” de Piaget

0
1250

Imagem do post: Sir Jean William Fritz Piaget (Neuchâtel, 9 de agosto de 1896 – Genebra, 16 de setembro de 1980) foi um epistemólogo suíço, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX.

 

Esse é o terceiro de uma série de textos sobre lembranças, falsas lembranças e as ciências da memória. Confira os links dos outros textos:

“Quando queremos lembrar do que nos aconteceu nos primeiros anos de nossa infância, é muitas vezes o caso de confundirmos o que ouvimos dos outros com o que genuinamente sabemos através de nossa própria experiência” (Goethe, Memórias: poesia e verdade).

Neste texto, continuamos com a proposta de uma classificação de tipos de falsas lembranças iniciada no texto anterior. Recapitulando. Uma falsa lembrança acontece quando alguém tem a impressão de lembrar de algo (“lembrar”), mas não lembra de fato. Não lembra porque, entre outros motivos, aquele algo não aconteceu ou, ao menos, não aconteceu do modo como a pessoa “lembra”. Minha ideia é a de que podemos fazer uma classificação de tipos de falsas lembranças se a gente considerar as maneiras a partir da quais alguém pode falhar em lembrar de algo.

Quando a gente descreve um caso de lembrança,  gente usa frases do tipo: “S lembra de a-em-t como um Φ”, em que S é uma pessoa (a pessoa que “lembra”), a é o objeto lembrada (uma pessoa, objeto, evento, etc), t é uma coordenada temporal em que o conteúdo da lembrança se passaria e Φ é alguma  propriedade atribuída ao objeto da lembrança. Por exemplo, quando eu digo “Eu lembro de Senna em 1990 como um grande piloto de F1”, S=eu, a=Senna, t=1990 e Φ=um grande campeão.

Nesse caso, alguém pode ter uma falsa lembrança quando comete: (i) erro de atribuição de identidade (“lembra” de a como se fosse b, quando a≠b), (ii) erro de atribuição de propriedade (“lembra” de a como sendo um Φ, quando a não é um Φ), (iii) erro na atribuição de coordenada espaçotemporal (“lembra” de a ocorrendo t’, quando a ocorreu em t) e (iv) erro de atribuição de modalidade (“lembra” de a como sendo atual, quando a foi apenas imaginado). Nesse texto, eu vou tratar dos dois últimos casos.

Erro na atribuição de coordenada espaçotemporal

Em 19 de abril de 1995, a cidade de Oklahoma foi alvo de um ataque a bomba. Noventa minutos depois da explosão, Timothy McVeigh, um veterano da Guerra do Golfo, foi preso por dirigir uma caminhonete sem documentos e, então, foi associado ao crime. Após descobrir que a caminhonete fora alugada dois dias antes, em 17/04/1995, na Elliott’s Body Shop, os policiais entrevistaram os funcionários da locadora. O dono da loja descreveu um homem que, dois dias antes do atentado, havia alugado a caminhonete. O homem, que havia se identificado como Robert Kling, tinha a mesma descrição de McVeigh: era branco, alto, tinha cabelos loiros e curtos.

Timothy James McVeigh foi o autor de um atentado a bomba em Oklahoma (19/4/95) que matou 168 pessoas e feriu centenas outras. Antes do 11 de setembro, esse era o atentado em solo estadunidense a matar mais pessoas.
Timothy James McVeigh foi o autor de um atentado a bomba em Oklahoma (19/4/95) que matou 168 pessoas e feriu centenas outras. Antes do 11 de setembro, esse era o atentado em solo estadunidense a matar mais pessoas.

Porém, o mecânico Tom Kessinger, que também estava presente na transação, “lembrava” de a caminhonete ter sido alugada por dois homens. Segundo Kessinger, um deles tinha a descrição de McVeigh, enquanto o outro tinha cabelos escuros, um físico atarracado, estava usando um boné azul e branco e tinha uma tatuagem por baixo da manga esquerda de sua camisa. A partir do depoimento de Kessinger, os policiais iniciaram a busca pelo suposto coautor do atentado de Oklahoma, batizada “John Doe 2” (um nome utilizado nos EUA para pessoas não identificadas, algo como “Zé Ninguém”). O suposto coautor do atentado em Oklahoma nunca foi encontrado. O principal motivo para isto é que, talvez, ele nunca tenha existido.

Pelo que ficou apurado, a fonte da “lembrança” de Kessing parece datar de um dia após a transação com McVeigh. Nesta data, em 18/04/1995, o sargento do exército Michael Hertig e o soldado Todd Bunting também alugaram uma caminhonete na presença do mecânico. Hartig, como McVeigh, era alto e claro, enquanto Bunting era mais baixo, tinha cabelos escuros, usava um boné branco e azul e tinha uma tatuagem por baixo da manga esquerda da camisa – a mesma “descrição” de John Doe 2. Após alguma relutância, os policiais concluíram que John Doe 2 era mesmo Todd Bunting, um homem inocente, (Schacter, 2001/2003: 117) e, então, o caso foi finalmente encerrado.

Se o resultado final da investigação policial estiver correto (se McVeigh alugou a caminhonete sozinho e não existe coautor do atentado), podemos dizer que Kessing teve uma falsa lembrança. Assim, ao que parece Kessing atribuiu erradamente tanto a localização temporal do evento lembrado, quando os particulares que participaram de tal evento. Kessing “lembrou” do evento do aluguel de uma caminhonete por dois homens (que, no caso, eram Michael Hertig e Todd Bunting) como se este tivesse ocorrido em 17/04/1995 (um dia antes do dia quando ele, de fato, ocorreu). Além disso, provavelmente por causa desta primeira confusão, ele atribuiu erradamente sua lembrança de Hertig a McVeigh, ou seja, Kessing “lembrou” de Hertig como se ele fosse McVeigh.

Erro na atribuição de modalidade

Em seu livro Play, dreams and imitation in childhood, Jean Piaget relata o que ele, por muito tempo, acreditou ser sua lembrança mais antiga. Até completar quinze anos, Piaget “lembrava” de, aos dois anos de idade, ter sido salvo de uma tentativa de sequestro por sua babá.

“Ainda posso ‘ver’ claramente a seguinte cena, a qual até os quinze acreditei ter ocorrido. Estava sentado em meu carrinho de bebê, que era empurrado por minha babá pela Champs-Élysées, quando um homem tentou me sequestrar. Estava seguro pelo cinto atado em volta de mim, enquanto minha babá tentava bravamente se manter entre eu e o ladrão. Ela sofreu vários arranhões e eu ainda posso ‘ver’ vagamente aqueles em seu rosto. Então uma multidão se amontoou, um policial com uma capa e um cassetete branco chegou e o homem deu no pé. Ainda posso ‘ver’ toda a cena, e posso até mesmo localizá-la perto da estação de metrô” (Piaget, 1999: 188).

Anos depois, sua antiga babá confessou ter inventado a história para ganhar uma recompensa. O notável é que Piaget “lembrava” vividamente de muitos detalhes, como os ferimentos sofridos pela babá e a perseguição policial subsequente.

Assim, “a mais antiga lembrança de Piaget” é um caso do que chamamos de falsa lembrança por erro na atribuição de modalidade. Este tipo de erro na atribuição é um pouco diferente dos expostos anteriormente. Nestes casos, o erro não está na identificação do particular lembrado, mas na identificação de sua modalidade. Este é o caso mais dramático de erro de atribuição, aquele em que a “lembrança” resultante está mais distante da realidade.

Ao que parece, o evento fictício do quase sequestro de Piaget lhe foi relatado diversas vezes durante a sua infância. Nestas e em outras ocasiões, Piaget teve a oportunidade de imaginar detalhadamente as ficções que lhe eram contadas. Então, em algum momento, ele passou a tomar a imaginação do evento pela lembrança de um particular. Nas palavras de Piaget: “quando criança, devo ter ouvido o relato desta história (…) e a projetado no passado na forma de uma memória visual, o que era uma memória de uma memória, mas falsa” (ibidem). Uma última nota sobre o assunto: não é concebível que alguém, em estado psicológico normal, tome um conteúdo proposicional pela lembrança de um particular, que é um estado imagético, assim, para que haja tal confusão, faz-se necessário que o sujeito “transforme” este conteúdo em imagens, imaginando-o. Assim, o único erro possível na atribuição de modalidade da memória de particulares é tomar uma imaginação por lembrança.

Caso especial: o “problema de Goethe”

Em sua autobiografia, Memórias: Poesia e verdade (1848: 1), Goethe escreveu que “quando nós queremos lembrar do que nos aconteceu nos primeiros tempos de nossa infância, é muitas vezes o caso de confundirmos o que ouvimos dos outros com o que genuinamente sabemos através de nossa própria experiência”. O parágrafo de Goethe nos chama a atenção para o fato de que nem todas as lembranças que temos acerca de nosso próprio passado são lembranças de experiências. Algumas de nossas lembranças autobiográficas são proposicionais (ou seja, infomações que nos foram contadas por outros).

Por exemplo, lembro que, aos dois anos quase perdi o dedo médio da mão direita num acidente. Sei que este evento se passou, pois vi fotografias desta época em que estava com a mão direita enfaixada. Porém, não lembro do evento em si – e dificilmente poderia lembrar, devido ao fenômeno da amnésia infantil (Spear, 1979). Assim, é possível que alguém tome uma lembrança proposicional pela lembrança de um particular. Mas este seria apenas um subtipo de erro de atribuição de modalidade, pois, para que alguém tome uma lembrança proposicional por uma lembrança de um particular, é preciso que ele transforme o conteúdo da lembrança proposicional em imagens mentais ao imaginá-lo.

Bibliografia

GOETHE, Johann. The autobiography of Goethe: truth and poetry, from my own life. Londres, Inglaterra: Bohn’s Standard Library, 1848.
PIAGET, Jean. Play, dreams and imitation in childhood. Londres, Inglaterra: Routledge, 1999.
SCHACTER, Daniel. Os sete pecados da memória: como a mente esquece e lembra. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 2001/2003.
SPEAR, N. E. “Experimental analysis of infantile amnesia”. In. KIHLSTROM, J. F. E EVANS, F. J. (Eds.). Functional disorders of memory. Hillsdale, EUA, 1979.

CONTINUAR LENDO