Misterioso derramamento de óleo ameaça paraíso da biodiversidade marinha no Brasil

Um voluntário brasileiro limpa o óleo em uma praia em Lauro de Freitas, no Estado da Bahia, em 2 de novembro. Agora, pequenas manchas chegaram no Banco dos Abrolhos, lar de algumas das espécies marinhas mais icônicas do Brasil. Créditos: Antonello Veneri / AFP via Getty Images.

Por Herton Escobar
Publicado na Science

Os cientistas marinhos no Brasil estão monitorando de perto o aparecimento de um misterioso derramamento de óleo no maior ponto quente de biodiversidade do Atlântico Sul. A região, conhecida como Banco dos Abrolhos, abriga quase 9000 quilômetros quadrados de recifes em águas rasas e quentes ao longo da parte central da costa brasileira.

Mais de 4000 toneladas de resíduo de óleo bruto de uma fonte desconhecida chegaram na costa nordeste do país desde o final de agosto, contaminando centenas de praias, estuários, recifes e manguezais ao longo de um trecho de 2500 quilômetros de costa.

As preocupações aumentaram no início da semana passada, quando a onda de manchas de óleo pegajoso começou a invadir a fronteira norte do Banco dos Abrolhos, na costa sul do Estado da Bahia. Na manhã de sábado, as primeiras pequenas manchas de petróleo haviam aparecido nas costas rochosas do arquipélago do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, a 60 quilômetros da costa – lar de algumas das espécies marinhas mais icônicas do Brasil, como o endêmico coral-cérebro brasileiro (Mussismilia braziliensis) e o peixe-papagaio-azul ameaçado de extinção (Scarus trispinosus).

Uma frota de navios da marinha patrulha a região desde quarta-feira, procurando detectar e interceptar quaisquer grandes manchas de óleo. Contudo, não há nada que possa ser feito para manchas menores, que precisam ser limpas manualmente.

“O óleo está chegando. Quanto dele vai pousar aqui e quais ecossistemas serão afetados ainda precisa ser visto; mas pode ser trágico”, diz Rodrigo Leão Moura, cientista marinho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no Rio de Janeiro, Brasil, que acompanha a crise.

A análise química indicou desde cedo que o óleo era da Venezuela, mas a fonte do derramamento foi um mistério completo nos primeiros 2 meses. O governo do presidente Jair Bolsonaro foi fortemente criticado por não responder rapidamente ou com força suficiente à onda de contaminação. Embora tenha finalmente enviado navios e tropas para ajudar na limpeza, o governo também tentou culpar organizações não governamentais e conspiradores de esquerda pela crise, assim como por incêndios massivos e uma taxa crescente de desmatamento na Amazônia. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, até twittou uma foto de um navio do Greenpeace em 24 de outubro, sugerindo – sem nenhuma prova – que ele era responsável pelo vazamento.

Na sexta-feira, a Polícia Federal brasileira finalmente divulgou o nome de um verdadeiro suspeito: o Bouboulina, um navio-tanque grego que passou pela costa nordeste do Brasil no final de julho, transportando 1 milhão de barris de óleo da Venezuela para a Malásia. De acordo com a investigação, as imagens de satélite mostram uma grande mancha de óleo aparecendo no mar em 29 de julho, a cerca de 730 quilômetros da costa do Estado da Paraíba, assim quando o Bouboulina passava. A empresa responsável pelo navio nega qualquer responsabilidade e diz que o Bouboulina entregou toda a sua carga na Malásia.

Contudo, a suspeita se encaixa bem nas simulações computacionais realizadas pelo instituto de engenharia da UFRJ (Coppe), que indicam que o óleo veio de uma fonte afastada da costa a cerca de 700 quilômetros de distância e foi derramado cerca de um mês antes de atingir a terra. “O padrão de distribuição do óleo ao longo da costa e a possível fonte indicada pela polícia são consistentes com o nosso modelo”, disse Luiz Assad, que é oceanógrafo da Coppe, à Science.

Os investigadores federais estimaram que o Bouboulina derramou – acidentalmente ou intencionalmente – cerca de 2,5 mil toneladas de óleo bruto, mas não se sabe o quão precisa é essa estimativa ou quanto do óleo derramado chegará à terra. Qualquer quantidade de óleo que atinge Abrolhos é motivo de preocupação, diz Ronaldo Francini Filho, biólogo marinho da Universidade Federal da Paraíba em João Pessoa, cuja a equipe planeja inspecionar os recifes com um veículo operado remotamente nesta semana. “É um ambiente extremamente sensível que já está sofrendo os efeitos das mudanças climáticas e outros impactos antropogênicos”, diz Francini Filho.

Além de seus muitos habitats de recifes de corais, Abrolhos é um importante santuário para aves marinhas e baleias jubarte e um importante destino para o ecoturismo marinho. Seu parque nacional marinho de 880 quilômetros quadrados, fundado em 1983, é o mais antigo do Brasil.

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