Nada em Biologia faz sentido exceto à luz da evolução — A Carta de Dobzhansky

Nascido em 1900, Dobzhansky foi um dos geneticistas mais renomados de seu século. Cristão e evolucionista, nasceu na Rússia em 1900, graduou-se pela Universidade de Kiev e lecionou (com J. Philipchenko) na Universidade de Leningrado antes de, em 1927, ir para os Estados Unidos; logo após lecionou na Universidade Columbia e no Instituto de Tecnologia da California (Caltech) antes de se juntar à Universidade Rockefeller, em 1962. Dobzhansky foi presidente da Genetics Society of America, da American Society of Naturalists, da Society for Study of Evolution, da American Society of Zoologists, e da American Teilhard de Chardin Association. Entre suas honras estão a National Medal of Science (1964) e a Gold Medal Award for Distinguished Achievement in Science (1969). Ele obteve 18 doutorados honoris causa de universidades dos EUA e do exterior. Dentre suas mais bem conhecidas obras estão The Biological Basis of Human Freedom (1956) e Mankind Evolving (1963). Morreu de insuficiência cardíaca em 1975.

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Theodosius Hryhorovych Dobzhansky

A tradução e divulgação da Carta de Dobzhansky se deve mais ao fato de ser uma declaração histórica. A equipe do Universo Racionalista não necessariamente endossa a cosmovisão de Dobzhansky. Veja mais aquiaquiaqui e aqui para entender o nosso ponto de vista no que concerne ao embate epistemológico entre ciência e religião (ou religiosidade). No mais, a reprodução desta tradução é, obviamente, livre, mas não se esqueça de mencionar a fonte de autoria. O documento original pode ser baixado aqui. Tradução por Matheus Coelho.

O presente artigo foi apresentado no convênio de março de 1972 no The American Biology Teacher (NABT), Vol. 35, No. 3, pp. 125-129.

A Carta de Dobzhansky

Recentemente, em 1966, o xeique Abd el Aziz bin Baz solicitou ao rei da Arábia Saudita para que suprimisse uma heresia que estava se espalhando em sua terra. Escreveu o xeique:
O Sagrado Corão, os ensinamentos do Profeta, a maioria dos cientistas islâmicos e os fatos atuais, todos provam que o Sol orbita a Terra […] e que a Terra está fixa e estável, posta ali por Deus para o deleite do homem […] Qualquer um que professasse o contrário proferiria uma acusação de falsidade contra Deus, o Corão e o Profeta.

O bom xeique evidentemente assegura que a teoria Copernicana é “uma mera teoria,” não um “fato.” Nisso ele está tecnicamente correto. Uma teoria pode ser verificada por uma quantidade massiva de fatos, mas isso a torna uma teoria comprovada, não um fato. O xeique talvez não soubesse que a Era Espacial havia começado bem antes de ele ter solicitado o rei para que suprimisse a heresia Copernicana. A esfericidade da Terra havia sido constatada pelos astronautas, e até mesmo por muitas pessoas da superfície terrestre através da tela de seus aparelhos de televisão. Talvez o xeique pudesse replicar que aqueles que se aventuram para além do confinamento da Terra de Deus sofrem alucinações, e que a Terra seja realmente plana.

Partes do modelo de mundo Copernicano, como a asserção de que a Terra orbita o Sol e não o contrário, não foram verificadas por observações diretas como foi a esfericidade da Terra. Ainda assim os cientistas aceitam o modelo como uma representação acurada da realidade. Por quê? Porque faz sentido graças à esmagadora quantidade de fatos que, vistos por outro lado, não têm significado ou são extravagantes. Para os não-especialistas, muitos desses fatos não são familiares. Por que então nós aceitamos a “mera teoria” de que a Terra é uma esfera que gira ao redor de um Sol esférico? Estaríamos nós simplesmente nos submetendo à autoridade? Não exatamente: sabemos que aqueles que estudaram a evidencia a acharam convincente.

O xeique é provavelmente ignorante sobre tal evidência. E o que é mais provável é que ele está tão irremediavelmente convencido do contrário que nenhuma quantidade de evidência o impressionaria. De qualquer forma, seria pura perda de tempo tentar convencê-lo. O Corão e a Bíblia não contradizem Copérnico, e nem Copérnico os contradiz. É um absurdo tomar a Bíblia e o Corão por apostilas de ciências naturais. Eles tratam de assuntos ainda mais importantes: o sentido do homem e suas relações com Deus. Eles são escritos em linguagem poética e simbólica, e eram compreensíveis às pessoas da época em que foram escritos, bem como o são para as pessoas de todas as outras épocas. O rei da Arábia não cumpriu com a exigência do xeique. Ele sabia que algumas pessoas temem o esclarecimento, porque o esclarecimento ameaça seus escusos interesses. A educação não deve ser usada para promover o obscurantismo.

A Terra não é o centro do universo, apesar de que talvez seja seu centro espiritual. Ela é uma mera partícula de poeira no espaço cósmico. Ao contrário dos cálculos do Bispo Ussher, o mundo não veio a existir do modo que existe hoje por volta de 4004 a.C. As estimativas da idade do universo dadas pelos cosmólogos modernos ainda são aproximações grosseiras, que são revisadas (geralmente para mais) conforme os métodos estimativos são aperfeiçoados. Alguns cosmólogos dão 10 bilhões de anos, outros supõem que o universo sempre existiu e continuará a existir eternamente.[1] A origem da vida na Terra é datada provisoriamente entre 3 e 5 bilhões de anos atrás; seres parecidos com o homem apareceram relativamente há pouco tempo, entre 2 e 4 milhões de anos. A estimativa da idade da Terra, da duração da era geológica e paleontológica, e a antiguidade dos ancestrais humanos são hoje baseadas principalmente na evidência radiométrica — as proporções de isótopos de certo elemento químico em rochas adequadas para tais estudos.

O xeique bin Baz e seus semelhantes recusam-se a aceitar a evidência radiométrica porque é “mera teoria.” Qual é a alternativa? Alguém poderia supor que o Criador achou proveitoso brincar com geólogos e biólogos. Ele cuidadosamente dispôs várias rochas com taxas de decaimento radioativo de 2 bilhões de anos, outras em 2 milhões, justamente para que nos enganássemos enquanto, na verdade, elas têm somente 6 mil anos de idade. Esse tipo de pseudo-explicação não é tão nova assim. Um dos primeiros antievolucionistas[2], P. H. Gosse, publicou um livro chamado Omphalos (“O Umbigo”). A essência deste estupendo livro é tal que, de acordo com ele, Adão, embora sem mãe, fora criado com umbigo, e que os fósseis só existem porque o Criador, num ato deliberado de Sua parte, os espalhou pelo planeta para que se parecessem muito antigos. É fácil enxergar o tamanho erro de se pensar dessa forma: é blasfemo, porque acusa-se Deus de cometer enganos absurdos. Isso é tão revoltante quanto desnecessário.

A diversidade dos seres vivos
A diversidade e a unidade da vida são aspectos igualmente surpreendentes e significativos do mundo natural. Foram descritos e estudados entre 1.5 a 2 milhões de espécies de animais e plantas, e o número de espécies ainda não descobertas é provavelmente tão grande quanto. A diversidade de tamanhos, formas e modos de vida é estonteante e fascinante. Aqui vão alguns exemplos: a doença de mão-pé-boca é causada por um vírus que mede 8-12 micrômetros de diâmetro, a baleia azul atinge 30 metros de comprimento e pesa 135 toneladas, os vírus mais simples são parasitas em células de outros organismos — reduzidos a quantidades essenciais mínimas de DNA ou RNA, que subvertem a maquinaria bioquímica das células do hospedeiro para replicar sua própria informação genética em vez daquela do hospedeiro.

É uma questão de opinião, ou de definição, se os vírus são considerados seres vivos ou substâncias químicas peculiares. O fato é que a diferença de opinião existente é em si mesma altamente significante. Significa que a fronteira entre o vivo e a matéria inanimada está obliterada. Na outra ponta do espectro simplicidade-complexidade temos os animais vertebrados, incluindo o homem. O cérebro humano contém 12 bilhões de neurônios[3], e as sinapses dentre eles são talvez mil vezes mais numerosas.

Alguns organismos vivem em uma grande variedade de ambientes. A esse respeito, o homem está no topo da escala. Ele não só é uma espécie verdadeiramente cosmopolita como também pode, devido às suas próprias conquistas tecnológicas, sobreviver por tempo limitado na superfície da Lua e no espaço cósmico. Em contrapartida, alguns organismos são incrivelmente especializados. Talvez o nicho ecológico mais limitado de todos seja o de uma espécie de fungos da família Laboulbeniaceae, o qual cresce exclusivamente na porção traseira do élitro da abelha Aphenops cronei, achada somente em algumas cavernas de calcário do sul da França. As larvas da mosca Psilopa petrolei se desenvolvem em infiltrações de petróleo bruto nos campos petrolíferos da Califórnia; ao que se sabe, isso não ocorre em nenhum outro lugar. Esse é o único inseto capaz de viver e se alimentar em petróleo, e seu espécime adulto pode andar em sua superfície desde que nenhuma outra parte exceto os tarsos estejam em contato com a substância. Larvas da mosca Drosophila carcinophila se desenvolvem somente nas cavidades nefríticas que ficam sob as abas do terceiro maxilípede do caranguejo terrestre Geocarcinus ruricola, que é restrito a certas ilhas do Caribe.

Existe alguma explicação que torne a razão dessa colossal diversidade de seres vivos inteligível? De onde vieram estas extraordinárias, aparentemente caprichosas e supérfluas criaturas como o fungo Laboulbenia, a abelha Aphenops cronei, as moscas Psilopa petrolei, a Drosophila carcinophila e tantas outras curiosidades biológicas? A única explicação que faz sentido é que a diversidade orgânica evoluiu em resposta à diversidade de ambientes no planeta Terra. Nem uma única espécie, seja ela perfeita ou versátil, poderia explorar todas as oportunidades para se viver. Cada uma das milhões de espécies tem seu próprio modo de viver e obter sustento do ambiente. Existem sem dúvida muitos outros modos possíveis de viver ainda não explorados por qualquer espécie existente; mas uma coisa é certa: com menos diversidade, algumas oportunidades de vida permaneceriam inexploradas.[4] O processo evolucionário tende a preencher os nichos ecológicos disponíveis. E não é conscientemente ou deliberadamente, as relações entre evolução e ambiente são mais sutis e mais interessantes do que isso. O ambiente não impõe mudanças evolutivas em seus habitantes, como postulado pelas agora já abandonadas teorias neolamarckistas. O melhor meio para visualizar a situação consiste no seguinte: o ambiente apresenta desafios às espécies, estas que podem responder por mudanças genéticas adaptativas.

Um nicho ecológico não ocupado, uma oportunidade de vida ainda inexplorada, é um desafio. Também o é uma mudança ambiental, como o clima da Era do Gelo dando lugar a um clima mais quente. A seleção natural pode fazer com que uma espécie responda ao desafio através de mudanças genéticas adaptativas. Essas mudanças podem possibilitar que as espécies ocupem um nicho ecológico anteriormente vazio como uma nova oportunidade para a vida, ou que elas resistam à mudança climática se esta lhes for desfavorável. Mas essa resposta pode ou não ser bem sucedida. Isso depende de muitos fatores, sendo o principal deles a composição genética da espécie que está respondendo ao desafio no momento em que a resposta é solicitada pelo ambiente. A falta de resposta bem sucedida pode causar a extinção da espécie. A evidência fóssil mostra claramente que o fim eventual da maioria das linhagens evolucionárias é a extinção. Organismos que vivem hoje são descendentes bem sucedidos de somente uma minoria de espécies que viveram no passado — e de minorias ainda menos populosas quanto mais no passado se volta. No entanto, o número de espécies existentes hoje não diminuiu; na verdade, provavelmente aumentou ainda mais com o tempo. Tudo isso é compreensível à luz da teoria da evolução; mas que trabalho sem sentido teria sido, da parte de Deus, criar uma infinidade de espécies ex nihilo [“do nada”] e então deixar a maioria delas para morrer!

Não há, obviamente, nada intencional ou consciente na ação da seleção natural. Uma espécie não diz a si mesma, “Deixe-me tentar amanhã (ou daqui a um milhão de anos) crescer em um tipo diferente de solo, ou me alimentar de outra forma, ou habitar uma outra parte do corpo de um caranguejo diferente.” Somente um ser humano poderia tomar decisões tão conscientes. Essa é a razão da espécie Homo sapiens ser o ápice da evolução biológica.[5] A seleção natural é, ao mesmo tempo, um processo cego e criativo. Somente um processo criativo e cego poderia produzir, por um lado, o tremendo sucesso biológico que é a espécie humana e, por outro lado, formas de adaptação tão limitadas e restritas como os superespecializados fungos, a abelha e as moscas mencionadas acima.

Os antievolucionistas falham em entender como a seleção natural opera. Eles imaginam que todas as espécies existentes foram criadas por ordem divina há somente alguns milhares de anos, da mesma forma que são hoje. Mas qual o sentido de haver mais de 2 ou 3 milhões de espécies vivendo na Terra? Se a seleção natural é o desencadeador primário da evolução, qualquer quantidade de espécies se torna compreensível: a seleção natural não funciona de acordo com planos preordenados, e as espécies são produzidas não por causa de uma necessidade prévia que vise suprir algum propósito, mas simplesmente por causa da existência de oportunidades ambientais e recursos genéticos. O Criador estava de bom humor quando fez a Psilopa petrolei para os campos de petróleo da Califórnia e as espécies de Drosophila exclusivamente para o corpo de certos caranguejos terrestres que vivem em certas ilhas do Caribe? A diversidade orgânica se torna razoável e compreensível se, no entanto, o Criador criou a vida não por capricho, mas pela evolução por seleção natural. É errado afirmar que criação e evolução são alternativas mutuamente exclusivas. Eu sou um criacionista e um evolucionista. Evolução é o método de criação de Deus, ou da Natureza. A Criação não é um evento que aconteceu em 4004 b.C.; é um processo contínuo que começou por volta de 10 bilhões de anos e ainda está em curso.

Unidade da vida
A unidade da vida não é menos extraordinária do que sua diversidade. A maioria das formas de vida é similar de muitas maneiras. As similaridades biológicas universais são particularmente impressionantes em seu aspecto bioquímico: dos vírus ao homem, a hereditariedade é codificada em apenas duas aparentadas substâncias químicas, o DNA e o RNA. O que o código genético tem de simples, tem de universal. Existem apenas quatro “letras” genéticas no DNA: adenina, guanina, timina e citosina. A uracila substitui a timina no RNA. Todo o desenvolvimento evolucionário do mundo natural se deu não pela invenção de novas “letras” no “alfabeto” genético, mas pela elaboração de contínuas novas combinações dessas letras.

Não somente o código genético do DNA-RNA é universal, também o é o método de tradução das sequências das “letras” no DNA-RNA em sequências de aminoácidos e, estes, em proteínas. Os mesmos 20 aminoácidos compõem incontáveis proteínas diferentes em todos, ou pelo menos na maioria dos seres vivos. Diferentes aminoácidos são codificados por um a seis tripletos de nucleotídeos no DNA e RNA. E a biomecânica universal se estende para além do código genético e sua tradução em proteínas: uniformidades marcantes (como adenosina trifosfato, biotina, riboflavina, hemes, piridoxina, vitamina K, B12 e ácidos fólicos) implementam processos metabólicos e prevalecem no metabolismo celular dos mais diversos seres vivos.

O que toda essa universalidade biológica ou bioquímica significa? Ela sugere que a vida surgiu de matéria inanimada somente uma única vez, e que todos os seres vivos, não importa o quão diversos em outros aspectos, conservam as funcionalidades básicas da vida primordial. (Também é possível que tenha havido várias, senão numerosas origens da vida; se for esse o caso, a progenitura de somente uma delas sobreviveu e herdou a Terra). Mas e se não houvesse evolução e cada uma das milhões de espécies tivesse sido criada separadamente? Por mais ofensiva que tal noção possa soar ao sentimento religioso e à razão, os antievolucionistas, dessa forma, acabam por tornar a acusar o Criador de estar trapaceando. Assim, eles insistem que Ele deliberadamente dispôs as coisas exatamente como se seu método de criação fosse a evolução, de modo a induzir intencionalmente os sinceros buscadores da verdade ao engano.

Os notáveis e recentes avanços da biologia molecular tornaram possível compreender de que modo diversos seres vivos são construídos por materiais tão monotonamente similares: as proteínas são compostas de somente 20 tipos de aminoácidos e codificadas somente por DNA e RNA, cada um contendo unicamente quatro tipos de nucleotídeos. O método é surpreendentemente simples. Todas as palavras do idioma inglês, todas as sentenças, capítulos e livros, são compostos de sequências de 26 letras do alfabeto (e também podem ser representadas por somente três sinais do código Morse: ponto, traço e espaço). O significado de uma palavra ou uma sentença não é definido somente por quais letras ela contém, mas pela sequência dessas letras. É o mesmo com a hereditariedade: ela é codificada pelas sequências das “letras” do alfabeto genético — os nucleotídeos –, que compõem as bases do DNA. Tais letras são traduzidas nas sequências de aminoácidos que compõem as proteínas.

Estudos moleculares tornaram possível análises mais exatas dos graus de similaridades e diferenças bioquímicas entre os seres vivos. Alguns tipos de enzimas e outras proteínas são quase universais, ou ao menos bem difundidas no mundo natural. Elas possuem funcionalidades similares em diferentes seres vivos, nos quais catalisam reações químicas semelhantes. Mas quando essas proteínas são isoladas e têm sua estrutura determinada quimicamente, frequentemente se encontra sequências de aminoácidos mais ou menos desiguais em organismos diferentes. Por exemplo, as assim chamadas cadeias alfa de hemoglobina têm sequências idênticas de aminoácidos tanto no homem quanto no chimpanzé, mas diferem num simples aminoácido (de 141) no gorila. Já no gado, no cavalo, no jumento, no coelho e no peixe carpa, as cadeias alfa diferem das nossas em, respectivamente, 17, 18, 20, 25 e 71 aminoácidos.

O citocromo C é uma enzima que tem um papel importante no metabolismo das células aeróbicas. Ela é encontrada nos mais diversos seres vivos, do homem ao bolor. E. Margoliash, W. M. Fitch e outros cientistas compararam os aminoácidos no citocromo C de diferentes ramos da árvore da vida e a maioria das semelhanças significantes, bem como diferenças, foram reveladas. O citocromo C de diferentes ordens de mamíferos e aves diferem de 2 a 17 aminoácidos, de 7 a 38 entre classes de vertebrados, de 23 a 41 entre vertebrados e insetos e de 57 a 72 entre animais e leveduras e bolores. Fitch e Margoliash preferem chamar seus achados de “distâncias mutacionais mínimas.” Mencionei acima que diferentes aminoácidos são codificados por diferentes tripletos de nucleotídeos no genoma. Esta codificação é agora bem conhecida. A maioria das mutações envolve substituições de nucleotídeos individuais em partes da fita de DNA que codificam para uma dada proteína. Portanto, pode-se calcular o número mínimo de mutações únicas necessárias que fazem com que se altere o citocromo C de um ser vivo no de outro. A seguir, as distâncias mutacionais mínimas entre o citocromo C humano e o citocromo C de outros seres vivos:

É importante notar que as sequências de aminoácidos em um dado tipo de proteína variam dentro de populações de uma mesma espécie bem como de espécie para espécie. É evidente que diferenças entre proteínas nos níveis de espécie, gênero, família, ordem, classe e filo são compostas de elementos que variam também entre indivíduos de uma mesma espécie. Diferenças individuais e grupais são diferenças apenas quantitativas, e não qualitativas.

Evidências que apoiem as proposições acima são amplas e as que mais crescem. Muito trabalho está sendo feito recentemente sobre as variações individuais nas sequências de aminoácidos das hemoglobinas do sangue humano. Mais de 100 variações foram detectadas. A maioria delas envolve substituições de aminoácidos individuais — substituições que surgiram por causa das mutações genéticas nas pessoas (ou em seus ancestrais) em que foram descobertos. Como esperado, algumas dessas mutações são prejudiciais para seus portadores, mas outras aparentemente são neutras ou mesmo favoráveis em certos ambientes. Algumas hemoglobinas mutantes foram encontradas somente em uma pessoa ou em uma família; outras são descobertas repetidamente entre habitantes de diferentes partes do mundo. Torno a dizer que todas esses notáveis achados fazem sentido unicamente à luz da evolução, e que, de contrário, não fazem nenhum sentido.

Anatomia e Embriologia comparada
A bioquímica universal é a descoberta mais impressionante e também a mais atual, mas certamente não é o único vestígio da criação por meio da evolução. A anatomia e embriologia comparada proclama a origem evolucionária dos presentes habitantes do planeta. Em 1555, Pierre Belon chegou à conclusão de que ossos do homem e das aves eram, superficialmente, homólogos. Consequentemente, anatomistas traçaram homologias nos esqueletos, bem como em órgãos, de todos os vertebrados. Homologias também são rastreáveis no exoesqueleto de artrópodes como lagostas, moscas e borboletas, por mais diferentes que pareçam. Exemplos de homologia podem ser multiplicados indefinidamente.

Homologia de alguns tipos de vertebrados.

Embriões de diversos animais muitas vezes exibem similaridades admiráveis. Cem anos atrás, tais similaridades deixaram o zoólogo alemão Ernst Haeckel tão entusiasmado que ele chegou a interpretá-las como o embrião repetindo em seu próprio desenvolvimento a história evolutiva da espécie. Para Haeckel, cada estágio do desenvolvimento embriônico recapitulava seus ancestrais mais remotos. Em outras palavras, supôs ele que, estudando o desenvolvimento embriônico, era possível ler os estágios que o desenvolvimento evolucionário havia percorrido. Esta assim chamada lei biogenética não é mais aceita em sua forma original, no entanto, as semelhanças embrionárias são inegavelmente impressionantes e significativas.

Sequência de desenvolvimento embriônico de vertebrados em contexto filogenético. Repare nas similaridades compartilhadas por vários táxons, principalmente os amniota (táxons laranja, vermelho e amarelo). N.T.

A presença de fendas branquiais nas primeiras etapas do desenvolvimento dos embriões humanos e nos embriões de outros vertebrados terrestres é outro exemplo famoso. É claro que em nenhuma etapa do desenvolvimento humano o embrião é um peixe, e isso tão pouco quer dizer que as guelras sejam funcionais. Mas por que, afinal de contas, existem em embriões humanos inconfundíveis fendas branquiais se não evoluímos de ancestrais remotos que respiraram com a ajuda de guelras? O Criador estaria brincando de novo?

Provavelmente todo mundo conhece as cracas sedentárias[6], as quais parecem não ter nenhuma similaridade com a maioria dos crustáceos tanto quanto têm com os copépodes. Quão notável é o desenvolvimento desses cirrípedes quando passam pelo estágio de larva de vida livre, o náuplio! Nesse estágio de desenvolvimento, um cirrípede e um Cyclops [gênero de copépodes] parecem inequivocamente similares. Eles são, evidentemente, parentes.

Radiação adaptativa: moscas do Havaí
Existem por volta de 2.000 espécies de moscas drosófilas no mundo inteiro. Cerca de 1/4 delas vive no Havaí, embora a área total do arquipélago seja do tamanho do Estado de Nova Jersey. Todas, exceto 17 espécies, são endêmicas (não são achadas em nenhum outro lugar). Além do mais, uma grande maioria de moscas endêmicas havaianas não ocorre ao longo do arquipélago: elas estão restritas a ilhas individuais ou mesmo a uma parte de uma ilha. Qual é a explicação para essa extraordinária proliferação de espécies de drosófilas em um território tão pequeno? Um recente trabalho dos cientistas H. L. Carson, H. T. Spieth e D. E. Hardy e outros torna a situação compreensível.

As ilhas havaianas são de origem vulcânica, isso quer dizer que elas nunca foram parte de qualquer continente. Suas idades estão entre 5.6 e 0.7 milhões de anos. Antes da chegada do homem, seus habitantes foram descendentes de espécies imigrantes que foram transportados através do oceano por correntes de ar e outros meios de transporte acidentais. Uma única espécie de drosófila, cuja chegada no Havaí foi a primeira, antes de numerosos competidores, enfrentou o desafio da abundância de muitos nichos ecológicos desocupados. Seus descendentes responderam a esse desafio através da mudança por radiação adaptativa, fator que tem como produto as notáveis espécies de drosófilas havaianas de hoje. Para prevenir um possível mal entendido, deixemos claro que as endêmicas drosófilas havaianas não são de forma alguma tão similares entre si de maneira que pudessem ser confundidas com variações da mesma espécie; contudo, elas são mais diversificadas do que as drosófilas de outros lugares. A maior e a menor espécie de drosófila são ambas havaianas. Elas exibem uma surpreendente variedade de padrões de comportamento. Algumas delas tem se adaptado a modos de vida bastante extraordinários para uma mosca drosófila, tais como ser parasita em casulos de ovos de aranhas.

Fora o Havaí, ilhas oceânicas que estão espalhadas pelo amplo Oceano Pacífico visivelmente não são ricas em espécies endêmicas de Drosophila. A explicação mais provável desse fato é que essas outras ilhas foram colonizadas por drosófilas depois da maioria dos nichos ecológicos já terem sido colonizados. Isso é obviamente uma hipótese, mas é uma hipótese racional. Os antievolucionistas podem talvez sugerir uma hipótese alternativa: num momento de distração, o Criador resolveu fabricar mais e mais espécies de drosófilas para o Havaí, até que houvesse um excesso extravagante delas no arquipélago. Deixo que você decida qual hipótese faz sentido.

Força e aceitação da teoria
Vista à luz da evolução, a Biologia é, talvez, a ciência mais intelectualmente gratificante e inspiradora. Sem essa luz, ela se torna uma pilha de fatos diversos e sem sentido — alguns deles interessantes ou curiosos, mas não fazendo qualquer sentido como um todo.

Isso não implica que nós sabemos tudo o que se pode saber sobre biologia e evolução. Qualquer biólogo competente está ciente da multidão de problemas ainda não resolvidos e questões ainda em aberto. Afinal, a pesquisa biológica não apresenta nenhum sinal de estar chegando ao fim; já o oposto é verdade. Discordâncias e conflitos de opinião entre biólogos são comuns, como deveriam ser numa ciência natural que está em constante crescimento. Antievolucionistas confundem, ou fingem confundir, essas discordâncias como indicações de dubiedade de toda a doutrina da evolução. Seu esporte favorito é misturar citações cuidadosamente e algumas vezes habilmente tirá-las do contexto, de modo a mostrar que nada é verdadeiramente bem estabelecido ou aceito entre evolucionistas. Eu e alguns dos meus colegas já ficamos hilariados e atônitos ao sermos citados como se fossemos, por baixo dos panos, antievolucionistas.

Deixe-me tentar deixar bem claro o que, em evolução, é estabelecido além de qualquer dúvida razoável e o que precisa de mais estudos. A evolução como um processo vigente na história da Terra só pode ser duvidada por aqueles que são ignorantes sobre a evidência ou que resistem a ela devido a bloqueios emocionais ou ao simples fanatismo. Em contrapartida, os mecanismos propulsores da evolução certamente precisam de estudo e esclarecimento. Não existem alternativas à história evolutiva que possam resistir a um exame crítico. No entanto, estamos constantemente aprendendo novos e importantes fatos sobre os mecanismos evolucionários.

É extraordinário que há mais de um século Darwin foi capaz de compreender tanto sobre evolução sem nem ao menos ter tido à sua disposição os principais fatos descobertos desde então. O desenvolvimento da genética depois do ano 1900 — especialmente da genética molecular nas ultimas duas décadas — forneceu informações essenciais para o entendimento dos mecanismos evolutivos. Mas ainda há muita dúvida e muito para aprender. Isso é animador e inspirador para qualquer cientista que se preze. Imagine que pesadelo seria se já soubéssemos de tudo e não restasse mais nada para ser descoberto pela ciência!

A doutrina da evolução está em conflito com a fé religiosa? Não está. É um grande erro confundir as Sagradas Escrituras com textos elementares de Astronomia, Geologia, Biologia e Antropologia. Somente se símbolos são construídos para significar o que eles não pretendem significar que então aparecem conflitos imaginários e insolúveis. Como dito acima, tal tolice leva à blasfêmia: pois, se assim for, o Criador teria de ser acusado de ter cometido enganos sistemáticos.

Um dos maiores pensadores da nossa época, Pierre Teilhard de Chardin, escreveu o seguinte: “A evolução é uma teoria, um sistema ou uma hipótese? Ela é muito mais do que isso — é um postulado geral do qual decorrem todas as teorias, todas as hipóteses, todos os sistemas, de modo que, por conseguinte, se tornem satisfatórios a fim de que sejam concebíveis e verdadeiros. A evolução é uma luz que ilumina todos os fatos, uma trajetória tal qual todas as linhas de pensamento devem seguir — isso que é evolução.” Claro, alguns cientistas, bem como alguns filósofos e teólogos, discordam de algumas partes dos ensinamentos de Teilhard; a aceitação de sua visão de mundo fica aquém do universal. Mas não há dúvida de que Teilhard foi um homem verdadeiramente e profundamente religioso, e que o cristianismo foi a pedra angular de sua visão de mundo. Além disso, para Teilhard, ciência e fé não estavam segregados a compartimentos à prova d’água, como estão para muitas pessoas. Ciência e fé foram partes harmoniosas de sua visão de mundo. Teilhard foi um criacionista, mas um que entendeu que a Criação, neste mundo, é realizada por meio da evolução.


N. T.:

1. Atualmente, o consenso científico sobre a idade do universo é de que o Big Bang ocorreu entre 13 a 14 bilhões de anos atrás.

2. Os “antievolucionistas”, tão citados por Dobzhansky, são crentes no deus judaico-cristão, i. e., ao contrário de Dobzhsnaky, são cristãos literalistas, que negam a evolução biológica por acreditarem na literalidade do Gênesis bíblico.

3. O consenso atual é de que temos por volta de 86 bilhões de neurônios.

4. Quando Dobzhansky fala sobre modos de viver e similares, faz menção aos meios conhecidos de interação entre organismo e ambiente externo, e, de maneira mais filosófica, a novas e desconhecidas formas de vida provenientes de genes (e/ou mutações) ainda inexistentes por falta de novos ambientes, pressões seletivas ou simplesmente pela ausência de espécies em ambientes ainda inabitados. Em outras palavras, enfatiza-se a impossibilidade de saber sobre todos os modos, meios, formas, tamanhos, jeitos de ser e interagir com o ambiente, pois eles (estes meios, que são originados graças à variabilidade genética e sua interação com o ambiente quando posta em prática) ainda não existem e não podem ser preditos em sua totalidade. Afinal, tais modos (fisiológicos, comportamentais, morfológicos etc.) são literalmente infinitos e por isso nunca serão conhecidos de maneira geral — o que é, para mim, enigmático e espetacular.

5. O “ápice da evolução”, segundo Dobzhansky, é ser capaz de tomar decisões baseadas em razoável premeditação, de formular hipóteses e teorias que busquem compreender a realidade — isso o Homo sapiens domina bem –, e não que, dado o presente estado biológico da raça humana, a evolução não teria mais como prosseguir.

Não existe um ápice ou uma teleologia exata na evolução biológica: as espécies simplesmente se adaptam (ou não) aos desafios do ambiente.

6. Craca é o nome dado a diversos crustáceos da classe dos cirrípedes (Cirripedia).

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