O medo do conhecimento: quando as boas intenções obstruem a investigação científica (Parte I)

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BOSTON - OCTOBER 10: Harvard University Scientist Steven Pinker poses for a portrait in his office on October 10, 2005 in Boston, MA. (Photo by Jean-Christian Bourcart/Getty Images)

O seguinte texto foi retirado e adaptado do capítulo Cientistas políticos, da obra de Steven Pinker A Tábula Rasa — A negação contemporânea da natureza humana. No caso, Pinker fazia menção à postura irracional de pesquisadores que ele chama de “cientistas radicais” (isto é, cientistas com fortes tendências ideológicas-políticas), e como suas condutas minaram a pesquisa científica e estigmatizaram outros pesquisadores. A considerar: a doutrina da tábula rasa e a do bom selvagem significam, respectivamente, que o ser humano não nasce com qualquer pré-disposição biológica (ou seja, que nada é verdadeiramente inato, e que “natureza humana” é um termo vago, pois o que permearia os anseios humanos e tornaria o homem o que ele é seria o ambiente e a cultura), e que somos naturalmente bons até que o Estado e a propriedade privada nos corrompa.

Mais sobre o livro pode ser lido aqui, e aqui pode ser assistida uma palestra-resumo da obra.


Parte I – Cientistas políticos

A primeira conferência a que assisti como aluno de pós-graduação em Harvard em 1976 foi do famoso cientista da computação Joseph Weizenbaum. Ele foi um dos primeiros a trabalhar em inteligência artificial (AI), e é mais lembrado pelo programa Eliza, que levava as pessoas a pensar, erroneamente, que o computador estava conversando, embora estivesse apenas declamando respostas prontas. Weizenbaum acabara de publicar O poder do computador e a razão humana, em uma análise crítica da inteligência artificial e dos modelos computadorizados de cognição, elogiada como “o mais importante livro sobre computadores da década passada”. Eu estava com o pé atrás em relação ao livro, que era econômico em argumentos e pródigo em santimônia. (Por exemplo, afirmava que certas ideias em inteligência artificial, como uma proposta de ficção científica para um híbrido de sistemas nervosos e computadores, eram “simplesmente obscenas. São [aplicações] cuja própria cogitação já deveria provocar sentimentos de nojo em toda pessoa civilizada. […] É impossível alguém não se perguntar o que deve ter acontecido à percepção que os proponentes têm da vida, e portanto de si mesmos como parte do continuum da vida, para chegarem mesmo a pensar em uma coisa dessa”).[1] Ainda assim, nada poderia ter me preparado para a apresentação que nos aguardava no Centro de Ciências aquela tarde.

Weizenbaum discutiu um programa de AI dos cientistas da computação Allan Newell e Herbert Simon que se baseava em analogias: se o programa soubesse a solução para um problema, aplicava a solução a outros problemas com uma estrutura lógica semelhante. Aquilo, Weizenbaum nos disse, na realidade era projetado para ajudar o Pentágono a formular estratégias de contra-insurreição no Vietnã. Dizia-se que os vietcongues “movem-se na selva como peixes na água”. Se essa informação fosse fornecida ao programa, disse o conferencista, ele poderia deduzir que exatamente como podemos drenar um lago para expor os peixes, podíamos desmatar uma floresta para expor os vietcongues. Discorrendo sobre as pesquisas sobre reconhecimento da fala por computador, ele disse que a única razão concebível para estudar a percepção da fala era permitir à CIA monitorar milhões de conversas telefônicas simultaneamente, e instou os alunos presentes a boicotar as tentativas. Mas, acrescentou, na verdade não importava se não seguíssemos seu conselho, pois ele tinha absoluta certeza — não havia a mais ínfima dúvida em sua mente — de que no ano 2000 todos nós estaríamos mortos. E com essa inspiradora exortação à nova geração, encerrou a conferência.

Os rumores sobre nossa morte revelaram-se bem exagerados, e as outras profecias aquela tarde não se saíram melhor. O uso da analogia no raciocínio, longe de ser obra do demônio, é hoje um importante tema de pesquisa na ciência cognitiva, e amplamente considerado crucial para descobrirmos como funciona a nossa inteligência. Usa-se rotineiramente software de reconhecimento da fala em serviços de informação telefônica, e os computadores pessoais já vêm com esse tipo de software, uma benção para pessoas deficientes e para quem sofre de lesão por esforço repetitivo. E as acusações de Weizenbaum permanecem como um lembrete da paranoia política e do exibicionismo moral que caracterizam a vida universitária na década de 1970, a época na qual a atual oposição às ciências da natureza humana tomou forma.

Não era assim que eu havia imaginado o discurso acadêmico na Atenas da América, mas talvez eu não devesse me surpreender. Ao longo de toda a história, batalhas de opinião foram travadas por barulhentos moralizadores, demonizadores, hiperbolistas e coisas piores. A ciência deveria ser uma cabeça-de-ponte onde ideias, e não pessoas, eram atacadas, e onde fatos verificáveis eram separados de opinião política. Mas quando a ciência começava a abeirar-se do tema da natureza humana, os observadores reagiam de modo diferente daquele como agiriam em relação a descobertas, por exemplo, sobre a origem dos cometas ou a classificação dos lagartos, e os cientistas revertiam à mentalidade moralista que aflora tão naturalmente em nossa espécie.

Pesquisas sobre a natureza humana seriam polêmicas em qualquer época, mas as novas ciências escolheram uma década particularmente ruim para atrair publicidade. Nos anos 70 muitos intelectuais haviam se tornado radicais políticos. O marxismo era correto, o liberalismo era para fracotes, e Marx declarara que “as ideias dominantes de cada época sempre foram as ideias de sua classe dirigente”. As tradicionais suspeitas contra a natureza humana foram embrulhadas em uma ideologia de extrema esquerda, e os cientistas que examinavam a mente humana em seu contexto biológico foram então considerados instrumentos de um establishment reacionário. Os críticos anunciaram que eram parte de um “movimento científico radical”, e com isso nos forneceram uma designação conveniente para o grupo.[2]

Weizenbaum abominou a tentativa feita pela inteligência artificial e pela ciência cognitiva de unificar mente e mecanismo, mas as outras ciências da natureza humana também suscitaram acrimônia. Em 1971 o psicólogo Richard Herrnstein publicou um artigo intitulado “IQ” na Atlantic Montly.[3] O argumento de Herrnstein, ele foi o primeiro a salientar, deveria ter sido banal. Ele escreveu que na proporção em que o status social se tornasse menos acentuadamente determinado por legados arbitrários como raça, parentesco e riqueza herdada, passaria a ser mais fortemente determinado pelo talento, especialmente (em uma economia moderna) a inteligência. Uma vez que as diferenças em inteligência são parcialmente hereditárias, e como pessoas inteligentes tendem a casar-se com pessoas inteligentes, quando uma sociedade se tornasse mais justa também se tornaria mais estratificada segundo linhas genéticas. Pessoas mais inteligentes tenderiam a afluir para os estratos mais elevados, e seus filhos tenderiam a permanecer ali. Esse argumento básico deveria ser banal, pois fundamenta-se em uma necessidade matemática: conforme diminui a proporção da variação no status social causada por fatores não-genéticos, a proporção causada por fatores genéticos tem de aumentar. O argumento só poderia ser completamente falso caso não houvesse variação no status social baseada no talento intelectual (e isso requereria que não se desse preferência aos talentos na hora de empregar ou negociar) ou caso não houvesse variação genética na inteligência (e para isso as pessoas teriam de ser tábulas rasas ou clones).

O argumento de Herrnstein não implica que quaisquer diferenças na inteligência média entre as raças são inatas (uma hipótese distinta que dois anos antes fora aventada pelo psicólogo Arthur Jensen[4]), e ele negou expressamente estar afirmando tal coisa. A dessegregação nas escolas não completara ainda uma geração, a legislação sobre os direitos civis tinha menos de uma década, e por isso as diferenças que haviam sido documentadas nos resultados médios de QI de brancos e negros poderiam facilmente ser explicadas por diferenças de oportunidade. De fato, dizer que o silogismo de Herrnstein implicava que os negros acabariam na base de uma sociedade geneticamente estratificada era acrescentar a suposição gratuita de que os negros eram em média geneticamente menos inteligentes, coisa que Herrnstein teve o cuidado de evitar.

Apesar disso, o influente psiquiatra Alvin Poussaint escreveu que Herrnstein “tornou-se o inimigo dos negros, e suas declarações são uma ameaça à sobrevivência de todo negro nos Estados Unidos”. Ele perguntou retoricamente: “Devemos carregar cartazes proclamando o direito de Herrnstein à liberdade de expressão?”. Panfletos foram distribuídos em universidades na região de Boston instando os estudantes: “Combata as mentiras fascistas do professor de Harvard”, e a Harvard Square foi coberta com fotografias de Herrnstein com a legenda PROCURADO POR RACISMO e cinco citações deturpadas pretensamente extraídas de seu artigo. Herrnstein recebeu uma ameaça de morte e descobriu que não podia mais falar sobre sua área de especialização, o aprendizado em pombos, pois aonde quer que fosse as salas de conferência enchiam-se de turbas vociferantes. Em Princeton, por exemplo, estudantes declararam que bloqueariam as portas do auditório para forçá-lo a responder questões sobre a controvérsia do QI. Várias conferências foram canceladas quando as universidades anfitriãs afirmaram não poder garantir a segurança do professor.[5]

O tema da diferenças inatas entre as pessoas tem implicações políticas óbvias. Mas alguns intelectuais inflamavam-se com a aparentemente elogiosa afirmação de que as pessoas têm características comuns inatas. Em fins da década de 1960 o psicólogo Paul Ekman descobriu que sorriso, cenho franzido, riso de escárnio, careta de dor e outras expressões faciais eram encontrados e compreendidos no mundo inteiro, mesmo entre povos coletores sem contato prévio com o Ocidente. Essas descobertas, argumentou, corroboravam duas afirmações feitas por Darwin em seu livro A expressão das emoções no homem e nos animais, de 1872. Uma era que os humanos haviam sido dotados de expressões emocionais pelo processo da evolução; a outra, radical na época de Darwin, era que todas as raças haviam divergido recentemente a partir de um ancestral comum.[6] Apesar dessas mensagens enaltecedoras, Margaret Mead apontou os estudos de Ekman como “revoltantes” , “consternadores” e “uma desgraça” — e essa foi uma das reações mais brandas.[7] No encontro anual da American Anthropological Association, Alan Lomax Jr. levantou-se na platéia gritando que não deveria ser dada a palavra a Ekman porque suas ideias eram fascistas. Em outra ocasião, um ativista afro-americano acusou Ekman de racismo por afirmar que as expressões faciais dos negros não eram diferentes das dos brancos. (Certas pessoas são impossíveis de contentar.) E não foram apenas afirmações sobre faculdades inatas na espécie humana que atraíram a ira de radicais, mas também afirmações sobre faculdades inatas de quaisquer espécies.

Alguns desses protestos eram sinais dos tempos e arrefeceram com o declínio do radical chique. Mas a reação a dois livros sobre a evolução continuou por décadas e se tornou parte da corrente intelectual dominante. O primeiro foi Sociobiologia, de E. O. Wilson, publicado em 1975.[8] Esse livro sintetiza uma vasta literatura sobre comportamento animal usando novas ideias sobre seleção natural de George Williams, William Hamilton, John Maynard Smith e Robert Trivers. Analisa princípios sobre a evolução da comunicação, altruísmo, agressão, sexo e criação da prole e os aplica aos principais grupos taxonômicos dos animais sociais, como insetos, peixes e aves. O capítulo 27 faz o mesmo para o Homo sapiens, tratando nossa espécie como mais um ramo do reino animal. Inclui um exame da literatura sobre universais e variação entre sociedades, uma discussão sobre a linguagem e seus efeitos sobre a cultura e a hipótese de que alguns universais (incluindo o senso moral) podem provir de uma natureza humana moldada pela seleção natural. Wilson manifestou a esperança de que sua ideia pudesse ligar a biologia às ciências sociais e à filosofia, prefigurando o argumento de seu livro posterior, Consiliência.

O primeiro ataque a Sociobiologia concentrou-se em sua principal heresia. Em uma crítica que ocupou um livro inteiro, o antropólogo Marshall Sahlirs definiu a “sociobiologia vulgar” como uma contestação da doutrina do superorganismo de Durkheim e Kroeber: a crença de que a cultura e a sociedade viviam em uma esfera separada dos indivíduos, de seus pensamentos e sentimentos. “A sociobiologia vulgar”, escreveu Sahlins, “consiste na explicação do comportamento social humano como a expressão de necessidades e impulsos do organismo humano, propensões essas que a evolução biológica construiu na natureza humana.”[9] Admitindo temer uma incursão em seu terreno acadêmico, ele acrescentou: “O problema intelectual central efetivamente se resume à autonomia da cultura e do estudo da cultura. Sociobiologia contesta a integridade da cultura como uma coisa-em-si, como uma criação humana distinta e simbólica”.[10]

O livro de Sahlins chamou-se O uso e abuso da biologia. Um exemplo de pretenso abuso foi a ideia de que a teoria de Hamilton da aptidão inclusiva poderia ajudar a explicar a importância dos laços de família na vida humana. Hamilton mostrara como a tendência a fazer sacrifícios pelos parentes poderia ter evoluído. Parentes compartilham genes, portanto qualquer gene que incentive um organismo a ajudar um parente estaria indiretamente ajudando uma cópia de si mesmo. O gene proliferará se o custo do favor for menor que o benefício feito ao parente, levando-se em conta o grau de parentesco (metade para um irmão ou filho, um oitavo para um primo irmão etc). isso não pode ser verdade, escreveu Sahlins, porque na maioria das culturas as pessoas não têm termos para designar frações. Isso as incapacita para calcular os coeficientes de parentesco que lhes diriam que parentes favorecer, e quanto. Sua objeção é uma confusão clássica de uma causa próxima com uma causa última. É como dizer que as pessoas não podem absolutamente ver em profundidade, pois a maioria das culturas não desenvolveu a trigonometria que fundamenta a visão estereoscópica.

De qualquer modo, “vulgar” não era nem a metade da crítica. Em seguida a uma resenha favorável do eminente biólogo C. H. Waddington na New York Review of Books, o “Grupo de Estudos da Sociobiologia” (incluindo dois colegas de Wilson, o paleontólogo Stephen Jay Gould e o geneticista Richard Lewontin) publicou uma amplamente divulgada filípica intitulada “Contra a ‘Sociobiologia'”. Depois de embrulhar Wilson junto com os proponentes da eugenia e do darwinismo social e com a hipótese de Jensen sobre as diferenças raciais inatas na inteligência, os signatários escreveram:

A razão da sobrevivência dessas recorrentes teorias deterministas é consistentemente tenderem a fornecer justificação genética ao status quo e aos privilégios que existem para certos grupos com base em classe, raça ou sexo. […] Essas teorias proporcionaram importante alicerce para a criação de leis sobre esterilização e de leis restritivas da imigração pelos Estados Unidos entre 1910 e 1930, e também para políticas de eugenia que levaram ao estabelecimento das câmaras de gás na Alemanha nazista.

O que o livro de Wilson nos ilustra é a imensa dificuldade de separar não só os efeitos do ambiente (por exemplo, transmissão cultural), mas também os preconceitos pessoais e de classe social do pesquisador. Wilson junta-se ao grande cortejo de biólogos deterministas cujo trabalho serve para fortalecer as instituições de sua sociedade eximindo-as da responsabilidade pelos problemas sociais.[11]

Também acusaram Wilson de discutir “as salutares vantagens do genocídio” e de fazer “instituições como a escravidão […] parecerem naturais em sociedades humanas devido à sua existência ‘universal’ no reino biológico”. Para o caso de a relação não estar suficientemente clara, um dos signatários escreveu em outro texto que “em última análise, foram os textos da sociobiologia […] que forneceram a estrutura conceitual pela qual a eugenia foi transformada em prática genocida” na Alemanha nazista.[12]

Sem dúvida podemos encontrar motivos de crítica no último capítulo de Sociobiologia. Hoje sabemos que alguns dos universais de Wilson são imprecisos ou formulados de modo demasiado rudimentar, e sua afirmação de que o raciocínio moral há de ser um dia suplantado pela biologia evolucionista certamente é errada. Mas as críticas de “Contra a ‘Sociobiologia'” eram demonstravelmente falsas. Wilson foi tachado de “determinista”, alguém que acredita que as sociedades humanas conformam-se a uma rígida fórmula genética. Mas eis o que ele havia escrito:

A primeira e mais facilmente verificável característica diagnóstica [das sociedades humanas] é de natureza estatística. Os parâmetros da organização social […] variam muito mais entre as populações humanas do que entre os de qualquer outra espécie primata. […] Por que as sociedades humanas são tão flexíveis?[13]

Nessa mesma linha, Wilson foi acusado de acreditar que as pessoas estão presas em castas determinadas por sua raça, classe, sexo e genoma individual. Mas, na verdade, ele escrevera que “há poucos indícios de solidificação hereditária do status”[14] e que as populações humanas não diferem muito umas das outras geneticamente”.[15] Além disso:

As sociedades humanas floresceram em níveis de extrema complexidade porque seus membros têm a inteligência e a flexibilidade para desempenhar papéis de praticamente qualquer grau de especialização, e para trocá-los conforme requeira a ocasião. O homem moderno é um ator de muitos papéis que pode perfeitamente ser exigido até seu limite pelas demandas constantemente em mudança do ambiente.[16]

Quanto à inevitabilidade da agressão — outra ideia perigosa que ele foi acusado de acalentar — o que Wilson escrevera foi que ao longo da evolução humana “a agressividade foi reprimida e as velhas formas de dominância dos primatas foram substituídas por complexas habilidades sociais.”[17] A acusação de que Wilson (que toda a vida foi um democrata liberal) era impelido pelo preconceito pessoal a defender racismo, sexismo, desigualdade, escravidão e genocídio foi especialmente injusta — e irresponsável, pois Wilson tornou-se alvo de difamação e hostilidade de pessoas que leram o manifesto, mas não seu livro.[18]

Em Harvard houve panfletos e assembleias de estudantes, um manifestante com megafone exigindo a demissão de Wilson e invasões da sala onde ele dava aula por estudantes berrando slogans. Quando ele falava em outras universidades, cartazes intitulavam-no “Profeta da Direita do Patriarcado” e instavam as pessoas a trazer agitadores para suas conferências.[19] Wilson estava prestes a falar em um encontro da American Association for the Advancement of Science em 1978 quando um grupo de pessoas carregando cartazes (um deles com uma suástica) irrompeu no palco entoando: “Wilson racista, não pode se esconder, nós o acusamos de genocídio”. Um manifestante agarrou o microfone e impingiu um discurso dramático à platéia enquanto outro ensopava Wilson com um jarro de água.

Conforme aumentou a má fama de Sociobiologia nos anos seguintes, Hamilton e Trivers, que haviam formulado muitas das ideias, também se tornaram alvo de piquetes, e o mesmo aconteceu com os antropólogos Irven DeVore e Lionel Tiger quando tentaram ensinar aquelas ideias. A insinuação de que Trivers era um instrumento do racismo e da opressão da direita foi particularmente exasperante, pois Trivers na realidade era um radical político, defensor dos Panteras Negras e colaborador acadêmico de Huey Newton, o fundador do movimento.[20] Trivers afirmara que a sociobiologia, na verdade, é uma força para o progresso político. Ela se baseia na ideia de que os organismos não evoluíram para beneficiar sua família, grupo ou espécie, pois os indivíduos componentes desses grupos têm conflitos de interesses genéticos uns com os outros e são selecionados conforme defendem esses interesses. Isso imediatamente subverte a reconfortante crença de que os que estão no poder governam pelo bem de todos, e põe em evidência atores ocultos no mundo social, como as mulheres e a geração mais nova. Além disso, encontrando uma base evolucionária para o altruísmo, a sociobiologia mostra que o senso de justiça tem raízes profundas na mente das pessoas e não precisa contrariar nossa natureza orgânica. E mostrando que o auto-engano tem probabilidade de evoluir (porque o melhor mentiroso é o que acredita nas próprias mentiras), a sociobiologia incentiva o auto-exame e ajuda a minar a hipocrisia e a corrupção.[21]

Trivers escreveu posteriormente sobre os ataques à sociobiologia: “Embora alguns dos atacantes fossem eminentes biólogos, o ataque pareceu intelectualmente débil e preguiçoso. Erros crassos de lógica foram permitidos desde que parecessem dar alguma vantagem tática na luta política. […] Porque éramos mercenários dos interesses dominantes, diziam aqueles colegas mercenários dos mesmos interesses, éramos seus porta-vozes, empregados para aprofundar os [engodos] com os quais a elite dirigente conservava sua injusta vantagem. Embora decorra do raciocínio evolucionista que os indivíduos tendem a argumentar de modos que sejam, em última análise (e às vezes inconscientemente), proveitosos para si mesmos, parecia, a priori, improvável que o mal residisse tão completamente em um grupo de mercenários, e a virtude, no outro”.[22]

Os eminentes biólogos que Trivers tinha em mente eram Gould e Lewontin, que, juntamente com o neurocientista britânico Steven Rose, se tornaram a vanguarda intelectual do movimento da ciência radical. Por 25 anos eles têm combatido incansavelmente, numa batalha de retaguarda contra a genética comportamental, a sociobiologia (e depois a psicologia evolucionista) e a neurociência de temas politicamente sensíveis como diferenças entre os sexos e doença mental.[23] Além de Wilson, outro grande alvo de seus ataques foi Richard Dawkins. Em seu livro O gene egoísta, lançado em 1976, Dawkins abordou muitas das mesmas ideias de Wilson, mas concentrou-se na lógica das novas teorias evolucionistas, e não nos detalhes zoológicos. Quase nada disse sobre os humanos.

O argumento dos cientistas radicais contra Wilson e Dawkins pode ser resumido em duas palavras: “determinismo” e “reducionismo”.[24] Seus textos são salpicados com essas palavras, usadas não em acepção técnica, mas como termos vagos de conotação ofensiva. Por exemplo, vejamos duas passagens representativas em um livro de Lewontin, Rose e do psicólogo Leon Kamin com o título desafiadoramente defensor da tábula rasa Não em nossos genes:

A sociobiologia é uma explicação da existência humana baseada no reducionismo e no determinismo biológico. Seus proponentes afirmam […] que os detalhes das disposições sociais presentes e passadas são as manifestações inevitáveis da ação específica dos genes.[25]

[Os reducionistas] afirmaram que as propriedades de uma sociedade humana […] não são nada além das somas dos comportamentos e tendências individuais dos indivíduos humanos dos quais a sociedade se compõe. Sociedades são “agressivas” porque os indivíduos que as compõem são “agressivos”, por exemplo.[26]

As citações de Wilson que vimos anteriormente neste capítulo mostram que ele nunca expressou coisa alguma que chegue perto dessas crenças ridículas, e tampouco Dawkins o fez, obviamente. Por exemplo, depois de discutir a tendência nos mamíferos e nos macacos de os machos buscarem maior número de parceiras sexuais do que as fêmeas, Dawkins dedicou um parágrafo às sociedades humanas escrevendo:

O que essa espantosa variedade leva a crer é que o modo de vida humano é em grande medida determinado por sua cultura, e não pelos genes. Contudo, ainda é possível que os humanos do sexo masculino em geral tenham tendência à promiscuidade, e as mulheres à monogamia, como poderíamos predizer pelo raciocínio evolucionista. Quais dessas tendências prevalecem em sociedades específicas depende de detalhes das circunstâncias culturais, assim como em diferentes espécies de animais depende de detalhes ecológicos.[27]

O que exatamente significam “determinismo” e “reducionismo”? Na acepção precisa em que os matemáticos empregam o termo, um sistema “determinista” é aquele cujos estados são causados por estados anteriores com absoluta certeza, e não probabilisticamente. Nem Dawkins nem qualquer outro biólogo mentalmente são jamais teriam sonhado em aventar que o comportamento humano é determinista, como se as pessoas tivessem de perpetrar atos de promiscuidade, agressão ou egoísmo a cada oportunidade. Entre os cientistas radicais os numerosos intelectuais que eles influenciaram, “determinismo” assumiu um significado que é diametralmente oposto ao seu significado real. A palavra agora é usada para designar qualquer afirmação de que as pessoas têm uma tendência a agir de determinados modos em determinadas circunstâncias. É um sinal da tenacidade da tábula rasa que uma probabilidade maior do que zero é igualada a uma probabilidade de 100%. Zero para o inato é a única crença aceitável, e todos os afastamentos disso são tratados como equivalentes.

Isso é o que se diz sobre determinismo genético. E quanto ao “reducionismo” e a afirmação de que Dawkins é “o mais reducionista dos sociobiólogos”, que acredita que cada característica tem seu próprio gene? Lewontin, Rose e Kamin tentam instruir seus leitores sobre como os seres vivos realmente funcionam segundo sua alternativa ao reducionismo, que eles chamam de “biologia dialética”:

Pense, por exemplo, no preparo de um bolo: o gosto do produto é resultado de uma complexa interação dos componentes — como manteiga, açúcar e farinha — expostos por vários períodos a temperaturas elevadas não é dissociável em tanto por cento de farinha, tanto por cento de manteiga etc., embora cada componentes […] tenha sua contribuição para fazer o produto final.[28]

Deixarei que Dawkins comente:

Assim expressa, essa biologia dialética parece ter muito sentido. Talvez até eu possa ser um biólogo dialético. Pensando bem, não tem alguma coisa familiar nesse bolo? Sim, aqui está, em uma publicação de 1981 do mais reducionista dos sociobiólogos:

“[…] Se seguirmos uma receita específica, palavra por palavra, de um livro de receitas, o que finalmente emerge do forno é um bolo. Não podemos agora dividir o bolo em suas migalhas componentes e dizer: esta migalha corresponde à primeira palavra da receita, esta à segunda etc. Com exceções sem importância, como a cereja no topo, não existe um mapeamento biunívoco de palavras da receita para “pedaços” do bolo. A receita inteira mapeia o bolo inteiro.”

Não estou, obviamente, reivindicando a prioridade do bolo. […] Mas o que espero de fato é que essa pequena coincidência possa ao menos fazer com que Rose e Lewontin reconsiderem. Será que seus alvos não são propriamente os reducionistas ingenuamente atomistas que eles tanto gostariam que fossem?[29]

Com efeito, a acusação de reducionismo está às avessas, pois Lewontin e Rose, em seus próprios estudos, são biólogos reducionistas rematados que explicam fenômenos no nível do genes e moléculas. Dawkins, em contraste, especializou-se como etologista e escreve sobre o comportamento dos animais em seu habitat natural. Wilson, por sua vez, é um pioneiro das pesquisas em ecologia e ardoroso defensor do ameaçado campo que os biólogos moleculares depreciativamente designam por biologia “de passarinhos na floresta”.

Tudo o mais tendo falhado, Lewontin, Rose e Kamin finalmente imputaram uma citação condenatória a Dawkins: Eles [os genes] nos controlam, corpo e mente”.[30] Isso soa extremamente determinista. Mas o que Dawkins escreveu foi: “Eles nos criaram, corpo e mente”, o que é muito diferente.[31] Lewontin usou a citação deturpada em cinco lugares diferentes.[32]

Existe alguma explicação caridosa para esses “erros crassos”, como Trivers os chamou? Uma possibilidade poderia ser o uso, por Dawkins e Wilson, da expressão “um gene para X”, ao discutirem a evolução de comportamentos sociais como altruísmo, monogamia e agressão. Lewontin, Rose e Gould repetidamente investem sobre essa linguagem, que a seu ver refere-se a um gene que sempre causa o dado comportamento e é sua única causa. Mas Dawkins deixou claro que a frase refere-se a um gene que aumenta a probabilidade de um comportamento em comparação com genes alternativos naquele lócus. E essa probabilidade é uma média computada levando em conta os outros genes que o acompanharam ao longo do tempo evolutivo e os ambientes em que viveram os organismos possuidores do gene. Esse uso não reducionista e não determinista da frase “um gene para X” é rotineiro entre os geneticistas e biólogos evolucionistas porque é indispensável para o que eles fazem. Algum comportamento tem de ser afetado por alguns genes, ou nunca poderíamos explicar por que leões agem de modo diferente das ovelhas, por que as galinhas chocam seus ovos em vez de comê-los, por que os cervos dão marradas e os gerbos não etc. A biologia evolucionista propõe-se a explicar por que esses animais acabaram tendo esses genes em vez de genes com efeitos diferentes. Ora, determinado gene pode não produzir o mesmo efeito em todos os ambientes, nem o mesmo efeito em todos os genomas, mas ele tem de ter um efeito médio. É essa média que a seleção natural seleciona (sendo tudo o mais igual), e é isso que significa o “para” em “um gene para X”. É difícil acreditar que Gould e Lewontin, que são biólogos evolucionistas, poderiam literalmente ter se confundido com esse uso do termo, mas se de fato foram, isso explicaria seus 25 anos de críticas despropositadas.

A que grau de baixeza se pode descer? Ridicularizar a vida sexual do oponente pareceria algo saído diretamente de uma novela satírica sobre a vida acadêmica. Mas Lewontin, Rose e Kamin trazem à baila a afirmação feita pelo sociólogo Steven Goldberg de que as mulheres são hábeis em manipular as emoções dos outros, e comentam: “Que tocante imagem da vulnerabilidade de Goldberg à sedução vemos assim revelada!”.[33] Posteriormente, mencionam um capítulo do pioneiro livro A evolução da sexualidade humana, de Donald Symons, no qual se mostra que em todas as sociedades o sexo tipicamente é concebido como um serviço ou favor feminino. “Quem lê sociobiologia”, eles comentam, “tem a constante sensação de ser um voyeur, espiando as memórias autobiográficas de seus proponentes”.[34] Rose gostou tanto do gracejo que o repetiu catorze anos depois em seu livro Linhas da vida: A biologia além do determinismo.[35]

Toda esperança de que essas táticas fossem coisa do passado dissipou-se com eventos ocorridos no ano 2000. Os antropólogos há muito tempo se mostraram hostis a qualquer um que discute a agressão humana em um contexto biológico. Em 1976 a American Anthropological Association quase aprovou uma moção de censura a Sociobiologia e proibiu dois simpósios sobre o tema, e em 1983 a entidade efetivamente aprovou uma moção declarando que o livro Margaret Mead and Samoa, de Derek Freeman, era “mal escrito, não científico, irresponsável e enganoso”.[36] Mas isso não era nada em comparação com o que estava por vir.

Em setembro de 2000, os antropólogos Terrence Turner e Leslie Sponsel enviaram aos executivos da associação uma carta (que proliferou rapidamente pelo ciberespaço) alertando sobre um escândalo para a antropologia que em breve seria divulgado em livro do jornalista Patrick Tierney.[37] Os pretensos perpetradores eram o geneticista James Neel, fundador da moderna ciência da genética humana, e o antropólogo Napoleon Chagnon, célebre por seu estudo de trinta anos do povo ianomâmi da floresta Amazônica. Turner e Sponsel escreveram:

Essa história medonha — um verdadeiro coração das trevas antropológico além da imaginação até de um Josef Conrad (embora não, talvez, de um Josef Mengele) — será vista (acertadamente, a nosso ver) pelo público, e pela maioria dos antropólogos, pondo em xeque toda a disciplina. Como afirmou outro leitor das provas, este livro deve abalar os alicerces da antropologia. Deve elevar a área a compreender como os corruptos e depravados protagonistas puderam espalhar seu o veneno por tanto tempo enquanto gozaram de grande respeito em todo o mundo ocidental e gerações de estudantes universitários recebiam suas mentiras como a substância introdutória da antropologia. Nunca mais se deve permitir que uma coisa dessa torne a acontecer.

As acusações eram verdadeiramente chocantes. Turner e Sponsel acusaram Niel e Chagnon de terem deliberadamente infectado os ianomâmis com sarampo (que frequentemente é fatal entre povos indígenas) e então negado tratamento médico a fim de testar as “teorias genéticas eugenicamente tendenciosas” de Neel. Segundo a interpretação dessas teorias por Turner e Sponsel, chefes políginos em sociedades coletores eram biologicamente mais aptos do que os mimados ocidentais porque possuíam “genes dominantes” para “habilidade inata” que eram selecionados quando os chefes entravam em competição violenta por esposas. Neel acreditava, disseram Turner e Sponsel, que a “democracia, com sua liberdade de reprodução para as massas e suas ajudas sentimentais aos fracos”, era um erro. Argumentaram:

A implicação política dessa eugenia fascista é claramente que a sociedade deveria reorganizar-se em pequenos grupos reprodutores isolados nos quais machos geneticamente superiores poderiam emergir como dominantes, eliminando ou subordinando os machos perdedores na competição pela liderança e pelas mulheres, e acumulando haréns de fêmeas reprodutoras.

As acusações contra Chagnon eram igualmente sinistras. Em seus livros e artigos sobre os ianomâmis, Chagnon documentara as frequentes guerras e ataques de surpresa desse povo, e apresentara dados indicativos de que os homens que haviam participado de uma matança tinham mais esposas e filhos do que os que não participaram.[38] (Essa descoberta é provocativa, pois, se essa recompensa fosse típica das sociedades pré-estatais nas quais os humanos evoluíram, o uso estratégico da violência teria sido selecionado no decorrer do tempo evolutivo.) Turner e Sponsel acusaram Chagnon de forjar seus dados, de causar violência entre os ianomâmis (deixando-os frenéticos por causa das panelas e facas com que ele pagava a seus informantes) e de encenar lutas letais para seus documentários filmados. O retrato dos ianomâmis apresentado por Chagnon, declararam, fora usado para justificar uma invasão de garimpeiros de ouro no território desse povo, favorecida pela colusão de Chagnon com “sinistros” políticos venezuelanos. Os ianomâmis inquestionavelmente foram dizimados por doenças e pelas depredações dos garimpeiros, de modo que atribuir a Chagnon essas tragédias e crimes equivale a acusá-lo de genocídio. Para rematar, Turner e Sponsel acrescentaram que o livro de Tierney continha “breves referências a Chagnon […] exigindo que os habitantes das aldeias lhe trouxessem garotas para fazer sexo com ele”.

Manchetes como “cientista matou índios amazônicos para testar teoria racial” logo apareceram no mundo todo, seguidas de um trecho do livro de Tierney publicado na The New Yorker e depois pelo próprio livro, intitulado Trevas em El Dorado: Como cientistas e jornalistas devastaram a Amazônia.[39] Sob pressão dos advogados da editora, que receavam processo por difamação, algumas das acusações mais sensacionalistas do livro foram suprimidas, atenuadas ou postas na boca de jornalistas venezuelanos ou de informantes inidentificáveis. Mas a substância das acusações permaneceu.[40]

Turner e Sponsel admitiram que sua acusação contra Neel “permanece apenas uma inferência no presente estado de nosso conhecimento: não há uma prova conclusiva na forma de um texto escrito ou de uma gravação de conversa de Neel”. Isso, como se viu, era dizer pouco. Depois de alguns dias, estudiosos com conhecimento direto dos eventos — historiadores, epidemiologistas, antropólogos e cinegrafistas — demoliram as acusações item por item.[41]

Longe de ser um eugenista depravado, James Neel (que morreu pouco depois de as acusações virem a público) era um cientista honrado e benquisto que invariavelmente criticara a eugenia. De fato, com frequência se atribui a ele ter expurgado da genética humana as velhas teorias eugenistas, tornando-a, assim, uma ciência respeitável. Diante disso, a estapafúrdia teoria cuja autoria Turner e Sponsel lhe imputaram era incoerente e cientificamente iletrada (por exemplo, confundiram um “gene dominante “com um gene para dominância). Seja como for, não existe o menor indício de que Neel acalentasse qualquer convicção próxima disso. Registros mostram que Neel e Chagnon surpreenderam-se com a epidemia de sarampo já em progresso e fizeram heroicos esforços para contê-la. A vacina que administraram, e que Tierney afirmara ser a causa da epidemia, nunca provocou transmissão contagiosa de sarampo nas centenas de milhões de pessoas do mundo todo que a tomaram, e com toda a probabilidade os esforços de Neel e Chagnon salvaram centenas de vidas entre os ianomâmis.[42] Confrontado com declarações públicas de epidemiologistas que contestavam suias asserções, Tierney saiu-se com uma desculpa esfarrapada: “Os especialistas com quem falei na época tinham opiniões muito diferentes desses que estão se manifestando publicamente agora”.[43]

Embora ninguém possa provar que Neel e Chagnon não tenham inadvertidamente introduzido a doença em outros lugares com a sua presença, as chances de que isso tenha ocorrido são pouquíssimas. Os ianomâmis, espalhados por dezenas de milhares de quilômetros quadrados, tiveram muito mais contato com outros europeus do que com Chagnon ou Neel, pois milhares de missionários, negociantes, garimpeiros e aventureiros deslocam-se pela região. De fato, o próprio Chagnon documentou que um missionário católico salesiano fora causa provável de um surto anterior. Isso, somado à crítica de Chagnon à missão por fornecer armas de fogo aos ianomâmis, custou-lhe a eterna inimizade dos missionários. Não por coincidência, a maioria dos informantes de Tierney era ligada à missão.

As acusações específicas contra Chagnon desmoronaram tão depressa quanto as feitas contra Neel. Chagnon, ao contrário do que afirmara Tierney, não havia exagerado a violência dos ianomâmis nem passado ao largo do restante do estilo de vida desse povo; na realidade, descrevera meticulosamente suas técnicas de resolução de conflitos.[44] A insinuação de que Chagnon os iniciara na violência é simplesmente inacreditável. Ataques de surpresa e guerras entre os ianomâmis têm sido descritos desde a primeira metade do século XVIII, e foram documentados por toda a primeira metade do século XX, muito antes de Chagnon ter posto os pés na Amazônia. (Um relato revelador foi uma narrativa em primeira pessoa intitulada Yanoáma: a história de Helena Valero, uma menina raptada por índios amazônicos).[45] E as principais afirmações empíricas de Chagnon respeitam o padrão-ouro da ciência: a replicação independente. Em levantamentos de índices de mortes na guerra em sociedades pré-estatais, as estimativas de Chagnon para os ianomâmis inserem-se perfeitamente nos limites da variação (duas mortes em um bando de quinze pessoas equivalem a 10 milhões de mortes em um país do tamanho dos Estados Unidos).[46]:

Mesmo sua afirmação mais controvertida, a de que os matadores tinham mais esposas e filhos, replicava-se em outros grupos, embora haja controvérsia quanto à interpretação. É instrutivo comparar o resumo de Tierney de um livro que supostamente refutava Chagnon com as palavras do próprio autor. Tierney relata:

Entre os jivaro, caçar cabeças era uma obrigação ritual para todos do sexo masculino e uma iniciação exigida para os adolescentes. Também ali a maioria dos homens morria na guerra. Entre os líderes jivaro, porém, os que capturavam mais cabeças tinham menos esposas, e os que tinham mais esposas capturavam menos cabeças.[47]

A autora, a antropóloga Elsa Redmond, na verdade escrevera:

Os homens ianomâmis que matam tendem a ter mais esposas, que adquirem raptando as das aldeias atacadas ou mediante alianças de casamento usuais nas quais eles são considerados mais atraentes como consortes. O mesmo vale para os lideres guerreiros dos jivaro, que podem ter de quatro a seis esposas; de fato, um grande líder guerreiro no rio Upano na década de 1930, chamado Tuki ou José Grande, teve onze esposas. Guerreiros que se destacam também têm mais filhos, devido sobretudo a seu maior êxito marital.[48]

Turner e Sponsel estavam entre os mais veementes críticos de Chagnon já fazia tempo (e, não por coincidência, foram fontes importantes para o livro de Tierney, apesar de se declararem chocados ao saber do conteúdo da obra). São francos quanto ao seu objetivo ideológico, que é defender a doutrina do bom selvagem. Sponsel escreveu que se empenha pela “antropologia da paz”, a fim de promover um “mundo pacífico e com menos violência”, que, a seu ver, é “latente na natureza humana”.[49] Ele se opõe a uma “ênfase darwiniana sobre a violência e a competição” e recentemente declarou que “a não-violência e a paz foram provavelmente a regra durante a maior parte da pré-história humana, e a matança intra-humana provavelmente foi rara”.[50] Admitiu até mesmo que boa parte de sua crítica a Chagnon provém de “uma reação quase automática contra qualquer explicação biológica do comportamento humano, da possibilidade de reducionismo biológico e das implicações políticas associadas”.[51]

Também muito conhecido da época da ciência radical é um esquerdismo irredentista que considera reacionárias mesmo posições moderadas e liberais. Segundo Tierney, Neel “estava convicto de que a democracia, com sua liberdade de reprodução para as massas e sua ajuda sentimental aos fracos, violava a seleção natural”,[52] sendo, portanto, “um erro eugênico”. Mas, na realidade, Neel era um liberal político que protestara contra o desvio de dinheiro destinado a crianças pobres para pesquisas sobre envelhecimento que, a seu ver, beneficiariam os ricos. Ele também defendia o crescente investimento em assistência pré-natal, tratamento médico para crianças e adolescentes e educação de qualidade para todos.[53] Quanto a Chagnon, Tierney o chama de “um militante anticomunista e advogado do livre mercado”. Sua prova? Uma citação de Turner (!) declarando que Chagnon é “um tipo de personagem de direita que tem uma atitude paranoide em relação a pessoas que considera de esquerda”. Para explicar como ele veio a adquirir essas inclinações direitistas, Tierney informa seus leitores de que Chagnon cresceu em uma parte da zona rural de Michigan “onde as diferenças não são bem-vindas, onde grassa a xenofobia ligada ao sentimento anticomunista, e onde o senador Joseph McCarthy contou com forte apoio”. Ignorante da ironia, Tierney conclui que Chagnon é uma “cria” de McCarthy que “recebeu toda a porção de espírito [de McCarthy]”. Chagnon, na verdade, é politicamente moderado e sempre votou nos democratas.[54]

Um comentário autobiográfico no prefácio de Tierney é revelador: “Gradualmente, passei de observador a defensor. […] o jornalismo tradicional, objetivo, já não era uma opção para mim”.[55] Tierney acredita que relatos sobre a violência entre os ianomâmis poderiam ser usados por invasores para tratá-los como selvagens primitivos que para seu próprio bem deveriam ser removidos ou assimilados. Difamar mensageiros como Chagnon, em sua opinião, é uma forma enobrecedora de ação social e um passo na direção da sobrevivência cultural dos povos indígenas (apesar do fato de o próprio Chagnon repetidamente ter atuado para proteger os interesses dos ianomâmis).

A dizimação de nativos americanos por doenças europeias e genocídio ao longo de quinhentos anos é, de fato, um dos grandes crimes da história. Mas é bizarro atribuir o crime a um punhado de cientistas contemporâneos que se esforçaram para documentar o estilo de vida daqueles povos antes que ele desaparecesse para sempre sob as pressões da assimilação. E é uma tática perigosa. Sem dúvida os povos indígenas têm o direito de sobreviver em suas terras, sejam eles ou não — como todas as sociedades humanas — propensos à violência e à guerra. Os “advogados” autonomeados que associam a sobrevivência de povos nativos à doutrina do bom selvagem colocam-se numa tremenda enrascada. Quando os fatos refutam essa doutrina, quem a defendeu inadvertidamente solapou a defesa dos direitos dos nativos ou então é obrigado a adotar qualquer expediente necessário para suprimir os fatos.

Ninguém deveria surpreender-se com o fato de as afirmações sobre a natureza humana serem controvertidas. Obviamente, qualquer afirmação nesse sentido deve ser esmiuçada, e todas as falhas lógicas e empíricas devem ser apontadas, como se faz com qualquer hipótese científica. Mas a crítica às novas ciências da natureza humana foi muito além do debate acadêmico normal. Transformou-se em hostilidades, menoscabo, deturpações, citações adulteradas e, mais recentemente, acusações caluniosas de carnificina. Creio que há duas razões para esse comportamento tacanho.

Uma razão é que no século XX a tábula rasa tornou-se uma doutrina sagrada que, na mente de seus defensores, tinha de ser professada com uma fé perfeita ou respeitada em todos os aspectos. Somente esse pensamento maniqueísta poderia levar pessoas a converter a ideia de que alguns aspectos do comportamento são inatos na ideia de que todos os aspectos do comportamento são inatos, ou converter a proposição de que características genéticas influenciam os assuntos humanos na ideia de que elas determinam os assuntos humanos. Somente sendo teologicamente necessário que 100% das diferenças na inteligência sejam causadas pelo ambiente alguém poderia inflamar-se com a banalidade matemática de que conforme diminui a proporção em que a variação é devida a causas não-genéticas, tem de aumentar a proporção devida a causas genéticas. Só havendo a necessidade de que a mente seja uma tábua raspada alguém poderia indignar-se com a afirmação de que a natureza humana nos faz sorrir em vez de franzir o cenho quando estamos contentes.

Uma segunda razão é que os pensadores “radicais” caíram na armadilha de sua própria moralidade. Comprometendo-se com o argumento comodista de que racismo, sexismo, guerra e desigualdade política eram factualmente incorretos porque não existia essa natureza humana (em contraposição a serem moralmente desprezíveis independentemente dos detalhes da natureza humana), toda descoberta sobre a natureza humana, segundo seu próprio raciocínio, era equivalente a dizer que esses tormentos não eram tão ruins, afinal de contas. Isso tornou ainda mais urgente desacreditar os hereges que estavam fazendo as descobertas. Se os critérios usuais da argumentação científica não estavam surtindo efeito, então outras táticas tinham de ser adotadas, pois um bem maior estava em jogo.

Notas:
1. Weizenbaum, 1976.
2. Lewontin, Rose & Kamin, 1984.
3. Herrnstein, 1971.
4. Jensen, 1969; Jensen, 1972.
5. Herrnstein, 1973.
6. Darwin, 1872 / 1998; Pinker, 1998.
7. Ekman, 1987; Ekman, 1998.
8. Wilson, 1975/2000.
9. Sahlins, 1976, p.3.
10. Sahlins, 1976, p. x.
11. Allen et al., 1975, p. 43.
12. Chorover, 1979, pp. 108-9.
13. Wilson, 1975 / 2000, p. 548.
14. Wilson, 1975 / 2000, p. 555.
15. Wilson, 1975 / 2000, p. 550.
16. Wilson, 1975 / 2000, p. 554.
17. Wilson, 1975 / 2000, p. 569.
18. Segerstrale, 2000; Wilson, 1994.
19. Wright, 1994.
20. Trivers & Newton, 1982.
21. Trivers, 1981.
22. Trivers, 1981, p. 37.
23. Gould, 1976a; Gould, 1981; Gould, 1998a; Lewontin, 1992; Lewontin, Rose & Kamin, 1984; Rose & Rose, 2000; Rose, 1997.
24. Só em títulos encontramos “determinismo” em Gould, 1976a; Rose, 1997; Rose & The Dialectics of Biology Group, 1982; e em quatro dos nove capítulos de Lewontin, Rose & Kamin, 1984.
25. Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 236.
26. Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 5.
27. Dawkins, 1976 / 1989, p. 164.
28. Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 11.
29. Dawkins, 1985.
30. Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 287.
31. Dawkins, 1976 / 1989, p. 20, grifo meu.
32. Levins & Lewontin, 1985, pp. 88, 128; Lewontin, 1983, p. 68; Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 287. Em Lewontin, 1982, p. 18, a citação é parafraseada como “governado por nossos genes”.
33. Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 149.
34. Lewontin, Rose & Kamin, 1984, p. 260.
35. Rose, 1997, p. 211.
36. Freeman, 1999.
37. A carta de Turner e Sponsel pode ser encontrada em chief.anth.uconn.edu/gradstudents/dhume/darkness_in_el_dorado.
38. Chagnon, 1988; Chagnon, 1992.
39. Tierney, 2000.
40. University of Michigan report on the ongoing investigation of the Neel-Chagnon allegations (www.umich.edu/~urel/darkness.html); atualizado (N.T.); John J. Miller, “The Fierce People: The wages of anthropological incorrectness”, National Review, 20 de novembro de 2000.
41. John Tooby, “Jungle fever: Did two U.S. scientists start a genocidal epidemic in the Amazon, or was The New Yorker duped?” Slate, 24 de outubro de 2000; University of Michigan reported on the ongoin investigation of the Neel-Chagnon allegations (www.umich.edu/~urel/darkness.html); John J. Miller, “The Fierce People: The wages of anthropological incorrectness”, National Review, 20 de novembro de 2000;  “A statement from Bruce Alberts”, National Academy of Sciences, 9 de novembro de 2000, www.nas.org; John Tooby, “Preliminary report”, Department of Anthropology, University of California, Santa Barbara, 10 de dezembro de 2000 (www.anth.ucsb.edu/icsnpreliminaryreport.pdf; ver também www.anth.ucsb.edu/chagnon.html); Lou Marano, “Darkness in anthropology”, UPI, 20 de outubro de 2000; Michael Shermer, “Spin doctoring the Yanomamö”, Sceptic, 2001; Virgilio Bosh & oito outros signatários, “Venezuelan response to Yanomamö book”, Science, 291, 2001, pp. 985-6; “The Yanomamö and the 1960s measles epidemic”: cartas de J. V. Neel, Jr., K. Hill e S. L. Katz, Science, 292, 8 de junho de 2001, pp. 1836-7; “Yanomaö wars continue”, Science, 295, 4 de janeiro de 2002, p 41; yahoo.com/group/evolutionary-psychology/files/aaa.html. Novembro 2001. Uma vasta coleção de documentos relacionados ao caso de Tierney pode ser encontrada no site www.anth.uconn.edu/gradstudents/dhume/index4.htm.
42. Edward Hagen, “Chagnon and Neel saved hundred of lives”, The Fray, Slate, 8 de dezembro de 2000 (www.anth.uconn.edu/gradstudents/dhume/dark/darkness.0250.html); atualizado (N.T.); S. L. Katz, “The Yanomamö and the 1960s measles epidemic” (carta), Science, 292, 8 de junho de 2001, p. 1837.
43. Em Pittsburg Post-Gazette, citado em John J. Miller, “The Fierce People: The wages of anthropological incorrectness”, National Review, 20 de novembro de 2000.
44. Chagnon, 1992, caps. 5, 6.
45. Valero & Biocca, 1965 / 1996.
46. Ember, 1978; Keeley, 1996; Knauft, 1987.
47. Tierney, 2000, p. 178.
48. Redmond, 1994, p. 125; citado em John Tooby, Slate, 24 de outubro de 2000.
49. Sponsel, 1996, p. 115.
50. Sponsel, 1996, pp. 99, 103.
51. Sponsel, 1998, p. 114.
52. Tierney, 2000, p. 38.
53. Neel, 1994.
54. John J. Miller, “The Fierce People: The wages of anthropological incorrectness”, National Review, 20 de novembro de 2000.
55. Tierney, 2000, p. XXIV.

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