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O positivismo é um humanismo

O século XX foi, acima de muitas outras coisas, o século da ciência. Para o bem ou para o mal, nossa sociedade tecnificada se distingue de todas as outras quase em maior medida do que quaisquer outras jamais se diferenciaram entre si, e, sem esquecer as importantes transformações ocorridas em matéria política, isso se deve sobretudo às capacidades científicas e industriais que acumulamos na história recente. É totalmente absurdo, portanto, tentar compreender a sociedade contemporânea pretendendo ignorar simultaneamente os mecanismos capilares mediante os quais a investigação e o conhecimento científicos se interconectam com os demais âmbitos econômicos, políticos e culturais, e isso exige alcançar uma compreensão razoável dos procedimentos e resultados da investigação científica. Por sorte, não nos faltam estudos acerca desses temas, mas há que reconhecer também que muito do que se escreve nos últimos anos sobre a ciência parece ser mais o resultado de uma profunda incompreensão de seus aspectos mais fundamentais. As fontes dessa incompreensão são muitas, e em ocasiões se multiplicam alimentando-se umas às outras, embora frequentemente se trate apenas de interpretações descabidas, exageradas, ou meramente precipitadas, de alguns fatos que se dão efetivamente no terreno da ciência e de suas relações com a sociedade: fatos tais como a frequente falta de consenso entre os cientistas, a magnitude dos problemas importantes para os quais a ciência não encontra solução, a crescente simbiose entre a investigação científica e o capital privado, a persistência de astronômicas desigualdades econômicas junto com desenvolvimentos tecnológicos muito sofisticados, ou a enorme distância que medeia entre o conteúdo abstrato de muitos descobrimentos e as visões hogareñas e cheias de sentido em cujo marco transcorre a vida de quase todos nós. Esses fatos são indiscutíveis, e uma adequada compreensão da ciência deve sempre levá-los em conta em sua justa medida e tentar explicá-los, mas de maneira alguma para justificar uma rejeição absoluta da validade do conhecimento científico, pois é precisamente essa validade a que permitiu que a investigação científica e tecnológica tenha contribuído para transformar tão intensamente nossa sociedade. Não por mil vezes repetido é menos certo o argumento de que, se a aerodinâmica e a eletrônica possuíssem mais ou menos a mesma objetividade que as práticas mágicas ou a meditação transcendental, os intelectuais que se dedicam a criticar a “racionalidade tecnocientífica-instrumental-capitalista” não iriam dar suas bem pagas conferências viajando de avião, senão talvez voando numa vassoura, e não discutiriam com seus editores através do telefone celular ou do correio eletrônico, senão mediante a telepatia ou o tam-tam.

Após quatro décadas de crescente desenvolvimento das atitudes antiobjetivistas em relação à ciência (estimuladas em parte pela difusão da maravilhosa obrinha de Thomas Kuhn A estrutura das revoluções científicas, cujo quadragésimo aniversário se cumpre agora, e que é em grande medida inocente das interpretações mais radicais que serviu para justificar a posteriori), parece chegada a hora de nos perguntarmos se a imagem mais tradicional da ciência à qual essa obra se opunha não terá sido criticada de forma demasiado injusta, e se não ganaríamos algo tentando recuperar alguns aspectos, tremendamente sensatos, das concepções sobre o conhecimento científico que propunham os defensores do chamado “neopositivismo” (expressão esta última que, por sinal, terminou convertendo-se quase num insulto entre os filósofos). Neste capítulo vou indicar algumas das ideias dessa corrente que foram mais severamente criticadas durante as últimas décadas, tentando justificar por que os aspectos fundamentais do positivismo não só não se veem afetados por essas críticas, senão que elas apontam mais para teses que qualquer positivista sensato incluiria dentro de suas próprias posições, e argumentarei também que este positivismo reflexivo (ou, na acertada expressão que me sugeriu Javier Muguerza, este “positivismo sensato”) não teria que ser tomado como uma concepção epistemológica para consumo interno dos filósofos, senão mais como uma parte fundamental da visão que os seres humanos podemos ter de nós mesmos a essas alturas da história.

1. O positivismo no ponto de mira

O positivismo, seja velho ou novo, é a união de duas teses, uma epistemológica e outra político-moral. A primeira sustenta que os únicos métodos válidos de obtenção de conhecimento, isto é, os únicos que nos garantem em alguma medida razoável a verdade dos conhecimentos obtidos com eles, são a demonstração formal e a contrastação empírica, ou dito de outro modo: a análise rigorosa e intersubjetiva de nossos conceitos e de nossas experiências. Qualquer outro tipo de argumentos com os quais se nos tente persuadir de alguma teoria ou opinião não possuirá na realidade nada que aponte para a verdade objetiva de suas conclusões, e portanto não existirá razão alguma que nos force a aceitá-las se o que desejamos é descobrir a verdade sobre aquele assunto. Só são conhecimentos científicos, então, os produzidos através de algum método que garanta razoavelmente sua validade intersubjetiva.

A segunda tese afirma que se deve promover a obtenção de conhecimentos científicos sobre todos aqueles âmbitos que sejam de interesse para os cidadãos, e em particular, que devem ser denunciadas como totalmente carentes de validade objetiva quaisquer outras ideias ou opiniões pretensamente fáticas (e, é claro, essas crenças teríamos que tentar substituí-las por conhecimentos verdadeiramente científicos, sempre que isso seja razoável). Esta segunda tese afirma, pois, a conveniência de fomentar o “espírito científico” em nossa sociedade.

A essas duas teses, o chamado “positivismo lógico” ou “neopositivismo” – desenvolvido no período entre as duas guerras mundiais pelos membros do Círculo de Viena e outros filósofos afins – acrescentou algumas mais sobre a maneira correta de analisar as teorias e os conceitos científicos, suas relações mútuas, e sua conexão com a evidência empírica: basicamente a doutrina de que carecem de sentido todos aqueles enunciados cuja verdade ou falsidade não possa ser estabelecida de maneira formal ou empírica, e a doutrina de que as teorias deveriam ser formuladas como sistemas axiomáticos, de tal maneira que as teorias com um âmbito de aplicação mais restringido (por exemplo, a teoria celular) pudessem ser deduzidas logicamente de teorias mais profundas (por exemplo, a mecânica quântica), e também de tal forma que fosse possível deduzir, a partir daqueles axiomas, enunciados que pudessem ser cotejados automaticamente com experiências intersubjetivas. A primeira condição garantiria o progresso acumulativo da ciência, no sentido de que as teorias antigas que estivessem bem confirmadas se manifestariam simplesmente como um “caso especial” das teorias novas; a segunda condição garantiria que a aceitação de qualquer teoria se levaria a cabo única e exclusivamente em função de se suas predições empíricas são confirmadas por uma experiência neutral. A primeira doutrina, por sua parte, serviria para purificar o âmbito da ciência de todas aquelas teses (“metafísicas”) que podem esconder a influência de fatores ideológicos.

Como dizia na introdução, o neopositivismo foi criticado com denodo desde quase todas as frentes possíveis com argumentos procedentes da própria epistemologia, da história e da sociologia da ciência, da psicologia, e, é claro, das correntes de pensamento antimodernas. A seguir indico as cinco críticas que me parecem mais importantes; as duas primeiras são de natureza epistemológica, as duas seguintes foram formuladas sobretudo no âmbito dos estudos sociais sobre a ciência, e a última procede da filosofia em seu sentido mais tradicional.

 Não existe uma “base empírica neutra” mediante a qual contrastar as hipóteses científicas, pois os defensores de uma teoria determinada tendem a interpretar a experiência de maneira diferente de seus rivais. Mais propriamente sucede (ou isto se argumenta) que quando uns cientistas adotam uma teoria, reinterpretam sistematicamente os “dados empíricos” de tal forma que sejam coerentes com seu novo ponto de vista. Em definitivo: a experiência nunca é um árbitro imparcial com o qual julgar a validade de uma teoria.

 Diz-se também que as teorias científicas não podem ser reduzidas a uma linguagem formal, na qual o significado de cada termo esteja completamente determinado. Os limites semânticos dos conceitos são sempre mais ou menos difusos, e vão renegociando-se à medida que os cientistas discutem entre si ou recebem influências culturais ou políticas. Isso implica igualmente que as afirmações de uma teoria não possam ser reduzidas, sem nenhuma perda de significado, aos conceitos de outras teorias. Assim pois, o progresso científico não pode ser acumulativo, pois resulta impossível decidir se uma teoria é objetivamente melhor que suas predecessoras.

 A investigação científica não é uma plácida torre de marfim, senão que é mais um campo de batalha no qual cada ator persegue freneticamente seus próprios interesses: prestígio, poder, privilégios, ou benefícios econômicos. As alianças e os conflitos são tão correntes na ciência como na política ou nos negócios, e, segundo alguns críticos, nesta luta maquiavélica a verdade e a objetividade se tornam recompensas de segunda ou de terceira classe facilmente relegadas ante paixões mais intensas, ou bem meros artifícios retóricos que se usam apenas para salvar as aparências.

 Em particular, a ciência contemporânea não seria uma força libertadora da humanidade, senão que é mais um aliado do complexo industrial-capitalista-militar. A crescente privatização do conhecimento, isto é, sua transformação em segredo industrial ou militar, impede sua difusão até os grupos sociais e os países menos favorecidos. Por sua parte, a exaltação do cientificismo seria tão somente um instrumento ideológico que perseguiria alienar da sociedade seu direito a tomar decisões, outorgando-o em exclusiva àqueles que os poderosos hajam assinalado como “especialistas”.

 O neopositivismo oferece uma visão muito parcial da experiência e das capacidades humanas, pois relega quase todos os âmbitos importantes da vida (a religião, a arte, a moral…) à esfera do subjetivo, onde por princípio se consideram impossíveis as argumentações racionais. Além de sobrepor os valores da verdade empírica e do êxito prático a outros valores, possivelmente mais fundamentais, o neopositivismo ignora as concepções da racionalidade que não sejam a puramente instrumental ou a puramente cognitiva, e ignora igualmente a tremenda importância que o “irracional” tem em nossas vidas.

Com essas (e outras) críticas se pretende levar-nos à conclusão de que o neopositivismo é o expoente mais destacado dos vícios da Modernidade, e seu aparente abandono no terreno da filosofia da ciência é visto como um sintoma do fracasso do sonho ilustrado. Esta última conclusão em particular é muito precipitada, porque o neopositivismo não é a única forma de salvar a racionalidade da ciência e de seguir embarcados, assim, no projeto da Ilustração. Mas meu objetivo não é simplesmente defender a Modernidade frente aos ataques dos antimodernos; mais propriamente pretendo mostrar que o positivismo segue sendo, apesar das críticas, a opção mais razoável que temos para compreender a natureza do conhecimento, pois, após várias décadas de discussões, não contamos ainda com nenhuma perspectiva que explique melhor que o positivismo quanto e por que podemos confiar nos resultados da investigação científica, em comparação com a confiança que merecem as crenças alcançadas através de outros procedimentos.

2. “Esta teoria pode ser perigosa para sua saúde”

Antes de responder às críticas assinaladas, é conveniente insistir na pergunta com a qual terminávamos a seção anterior, pois os ataques às soluções propostas pelos positivistas deveriam em todo caso levar consigo, ou bem alguma resposta diferente que não caísse nos mesmos defeitos, ou bem um argumento que demonstrasse a impossibilidade de obter uma resposta razoável. A questão é, naturalmente, a de quais afirmações podem ser tomadas como “conhecimento”, ou, dito de outro modo, qual deve ser a fonte da autoridade cognitiva. Este é um problema epistemológico, é claro, mas acima de tudo é um problema social, ou, se se quiser, político, pois do que se trata é, em definitivo, de por que tu, ou eu, ou qualquer cidadão, devemos acreditar em certas coisas em vez de outras, ou, pelo menos, por que devemos aceitar que a sociedade esteja organizada sobre umas determinadas crenças em vez de sobre outras. O objetivo do positivismo consistiria, por assim dizer, em encontrar um certo tipo de procedimentos que permitissem outorgar um “certificado de qualidade” às hipóteses ou opiniões; algo assim como um aviso de que “as autoridades cognitivas lhe advertem que a aceitação desta teoria deve fazer-se sob sua estrita responsabilidade” (coloque-se o aviso bem grande à entrada dos templos, e ao princípio de certos programas de rádio e televisão, etc.) ou bem, “as autoridades cognitivas certificam que esta teoria passou pelas provas pertinentes, e pode ser consumida sem perigo”. Volto a insistir em que este não é unicamente um problema de metodologia da ciência (a disciplina que se ocuparia de estabelecer quais podem ser essas “provas pertinentes”), senão sobretudo uma questão política, pois a pergunta fundamental é a de como decidir quem hão de ser as tais “autoridades cognitivas”.

Desde uma perspectiva que tome como valor supremo o da liberdade – valor este que pressupõe a posse dos meios imprescindíveis para exercê-la, tudo o qual não posso justificar aqui com muito detalhe, embora temo que minha perspectiva será tachada de eurocêntrica e pré-pós-moderna -, desde uma perspectiva liberal, dizia, há que tomar como hipótese de partida a de que ninguém pode ser obrigado a aceitar aquilo que não queira crer. Curiosamente, este mesmo princípio é a base moral sobre a qual se assentam em nossos dias as posições irracionalistas: “posto que um tem direito a pensar o que queira”, escutamos frequentemente, “ninguém pode obrigar-me a abandonar minha crença de que o relato do Gênesis é literalmente verdadeiro, ou de que as pessoas de certas raças são moral e intelectualmente inferiores às da minha, ou de que os feitiços amorosos são efetivos, ou de que a humanidade é visitada por extraterrestres, ou de que a liberdade no mercado mundial de capitais favorece aos pobres, ou de que o ser humano é bom por natureza”. Há que reconhecer que este fato – o de que, para justificar que alguém insista em manter crenças tão manifestamente absurdas, se recorra ao direito a crer no que se queira – é claro sintoma do progresso havido na sociedade ocidental, pois, até não há muito, o que faltava era o direito a opor-se a certas crenças. Na realidade, a ciência e a tecnologia modernas procedem de uma inacabada revolução cultural que permitiu, pela primeira vez na história, que o ser humano tivesse a liberdade, nem sempre exercida, de pensar o que lhe parecesse, sem ter que aceitar obrigatoriamente as mitologias impostas por sua sociedade. Agora bem, como é possível que duas coisas tão contrapostas, como o crescimento explosivo de nossos conhecimentos sobre a realidade, por um lado, e a manutenção imperturbável de supinas estupidezes, por outro, sejam ambos fruto de uma mesma causa?

Para esclarecer esta questão é necessário distinguir entre o direito a pensar o que se queira, que todos temos, e o suposto direito a que o que se pensa seja verdade, que não é, naturalmente, um direito, senão um resíduo da tendência humana a impor-se sobre os demais, pois está claro que muitos dos que se adjudicam este “direito” o fazem sobretudo com o fim de impor suas crenças a outros, e muito especialmente aos mais jovens. Quando uma pessoa com razoável senso comum se encontra com o desconcertante direito a ter as opiniões que lhe pareça, o primeiro que terá que se perguntar é, em troca: “quais são as opiniões que mais me interessará ter?”. Na maioria dos casos práticos, temos muito clara a resposta a esta última pergunta: interessa-nos ter crenças verdadeiras, e isto significa na prática que haveremos de tentar, na medida do possível, que sejam as coisas mesmas as que nos ditem a opinião que devemos ter sobre elas, ainda que para fazê-lo tenhamos que submetê-las a tortuosos e imaginativos interrogatórios. Por exemplo, se sou um cozinheiro razoável, me interessará crer que deixar a comida posta ao fogo durante dez horas muito provavelmente a calcinará; se sou um nadador razoável, me interessará crer que permanecer mais de trinta minutos seguidos debaixo da água pode ser muito grave para minha saúde; se sou um terrorista razoável (perdão pelo oxímoro), me interessará crer que um tiro na cabeça causa com mais probabilidade a morte que um tiro na mão.

Desde um ponto de vista evolutivo, a principal vantagem que puderam obter nossos ancestrais ao desenvolver a capacidade de ter crenças seria a de poder forjar-se representações do futuro que coincidissem razoavelmente bem com o que haveria de suceder-lhes chegado o caso. A ciência moderna não é outra coisa que a tentativa de estender esta maravilhosa capacidade natural (a de ajustar à verdade nossas crenças sobre assuntos cotidianos) para outros âmbitos nos quais as autoridades cognitivas de outras épocas não a haviam permitido desenvolver-se, fosse pelo medo ao resquebrajamento de sua própria autoridade, ou pelo pânico também inato que os seres humanos temos ao desconhecido, a ir mais além das seguranças que nos transmitiu a tradição (este pânico é tão grande que os mitos, antigos e modernos, insistem uma e outra vez em que as descobertas importantes foram feitas por heróis, ou comunicadas diretamente pelos deuses, mais do que por gente normal). Assim, quando os seres humanos nos demos a liberdade de pensar como quiséssemos (coisa que começou a suceder muito lentamente, num espaço geográfico e social muito restringido, e que ainda encontra fortes resistências e dificuldades), uma boa parte de quem desfrutou dessa liberdade a pôs em marcha, não para reafirmar-se dogmaticamente em suas crenças (o que também fizeram outros muitos), senão para ver aonde chegávamos deixando que nossas crenças fossem ditadas em último termo pela experiência e pelo raciocínio lógico, guias que haviam sido tão proveitosas durante milênios em campos tão importantes como a criação dos filhos, a agricultura, a contabilidade, a caça, ou a guerra. Digamos também que desta liberação do senso comum não só surgiu a ciência moderna, senão também muitos outros dos elementos característicos de nossa sociedade, como a tecnologia, a grande arte, a empresa capitalista, ou as instituições políticas contemporâneas.

A pergunta de por que crer nas descobertas científicas há de ser respondida, portanto, no mesmo pacote que as questões sobre por que podemos confiar (se é que podemos) nos produtos nos quais gastamos nosso dinheiro, ou no funcionamento das instituições, e a resposta é, basicamente, que esta confiança dependerá de se as pessoas que produziram aquelas coisas ou gestionaram essas instituições o fizeram sob um sistema de incentivos que assegure que elas mesmas se beneficiarão o máximo possível (em qualquer sentido em que elas entendam esse benefício) se o fazem de maneira eficaz. Com respeito à maior parte dos produtos tecnológicos e os demais bens que podemos adquirir, o sistema de incentivos que melhor cumpre esta função é, como se sabe, o mercado de livre concorrência: cada empresa se esforçará em oferecer o melhor produto possível, e a um preço razoavelmente baixo, para evitar que os consumidores adquiram os produtos de empresas rivais. Com respeito às instituições, o melhor sistema conhecido é o democrático, no qual os gestores que não acertam a satisfazer as demandas dos cidadãos são expulsos nas seguintes eleições, e no qual certos direitos básicos dos cidadãos resultam intocáveis para quaisquer gestores. E com respeito à ciência? Neste caso parece que funciona bastante bem o sistema de competição feroz entre investigadores, cada um deles tentando demonstrar mediante argumentos lógicos e observações empíricas que as hipóteses dos colegas falham, mas também reconhecendo publicamente o mérito das hipóteses que conseguem superar essas críticas. Certamente, a principal diferença entre este sistema de controle, por um lado, e o mercado ou a democracia, por outro, é que no da ciência não aparecem por nenhum lado os cidadãos ou consumidores, como sim o fazem nos segundos, ou pelo menos essa é a impressão; dito de outra maneira, as teorias científicas, o homem da rua nem as compra nem as vota.

Quer isto dizer que o conteúdo da ciência está fora do controle democrático? De maneira nenhuma, porque os cidadãos terão uma poderosa arma de controle na medida em que controlem o fluxo de recursos que chegam à investigação científica, e este controle se estabelece fundamentalmente por três vias. Em primeiro lugar, as indústrias fomentarão o desenvolvimento de conhecimentos susceptíveis de ser aplicados à produção de bens que os consumidores desejem comprar: o conhecimento dos fenômenos eletromagnéticos foi impulsionado em boa medida pelo furibundo desejo que muitas pessoas têm de ver a televisão, ou de escutar música pelo rádio, ou de contar-se fofocas através do telefone celular. Em segundo lugar, nos regimes democráticos os governos devem justificar ante os cidadãos por que financiam umas determinadas linhas de investigação em vez de outras. E em terceiro lugar, o recurso econômico principal que necessita a ciência é precisamente sua “força de trabalho”: os cientistas, que estarão selecionados habitualmente entre aquelas pessoas que têm um desejo maior em influir no desenvolvimento da ciência.

É claro, também é verdade que tanto no caso da ciência como no do mercado, e nem se fale no da política, haverá possivelmente formas de melhorar o funcionamento de seus sistemas de controle, sobretudo na medida em que haja mais cidadãos cada vez mais conscientes do tremendo controle que podem exercer sobre esses sistemas mediante a combinação de suas decisões; mas há que estar muito cegado por algumas ideologias para negar que uma parte notável da população viu incrementado seu bem-estar, sobretudo no último século, graças ao desenvolvimento da ciência, da tecnologia, da economia de mercado e da política democrática, ainda que esta melhoria, lamentavelmente, não se haja estendido, ou o haja feito muito pouco, a outra parte da população ainda maior, e a despeito de que a eficácia da ciência e da tecnologia, e até mesmo da democracia, se hajam manifestado muitas vezes sob formas terrivelmente cruéis.

O mais interessante do positivismo é, portanto, seu reconhecimento de que a validade das hipóteses científicas se fundamenta (quando tal validade existe) na demonstração empírica de que a realidade é como efetivamente deveria ser se aquelas hipóteses fossem corretas, e igualmente se baseia em seu reconhecimento de que tanto aquela “demonstração empírica”, como a prova da conexão lógica que existe entre cada conjunto de hipóteses e suas predições, só podem levar-se a cabo mediante os procedimentos que estavam ao alcance de nosso senso comum desde a época das cavernas: o raciocínio lógico e a repetição cuidadosa das experiências; mas estes procedimentos são aplicados pela ciência com a maior intensidade possível, com a maior discussão intersubjetiva possível, e liberados daquelas limitações culturais e institucionais que em outras épocas os limitavam.

3. Positivismo reflexivo

Nesta última seção exporei, bem que com pouco detalhe, as principais razões pelas quais o positivismo supera as críticas indicadas na primeira parte, embora, mais que negando a validade dessas críticas, o farei mostrando que os elementos razoáveis que elas contêm são na realidade consequências dos próprios posicionamentos positivistas, o qual faz do nosso um “positivismo reflexivo” ou “sensato”. Isto nos obriga a assumir que, já que a ciência é o método mais eficaz de busca de conhecimentos, devem ser levados em conta os próprios resultados da ciência para entender como e em que medida ela mesma funciona (tal é a posição que se conhece como “naturalismo científico”), e também a aceitar que, ainda que a ciência seja mais eficaz – do ponto de vista cognitivo – que qualquer outro método, não se segue daí que vá ser muito eficaz em todos os terrenos (o qual distingue nossa postura do “cientificismo”).

Pois bem, com respeito à primeira crítica indicada (a não neutralidade dos dados empíricos), as investigações sobre nossas capacidades cognitivas parecem deixar claro que, em geral, a percepção funciona de maneira eficacíssima dentro de seus limites naturais, de maneira que há pelo menos certos tipos de dados sobre os quais quaisquer seres humanos com capacidades sensoriais normais estarão de acordo necessariamente. Os desacordos sobre a interpretação dos dados não se referem, pois, a que distintos cientistas percebam as coisas de maneira distinta, senão a que utilizam hipóteses diferentes mediante as quais interpretar esses dados. O que o positivismo demanda é, simplesmente, que essas hipóteses sejam elas mesmas submetidas a contrastação empírica. Esta demanda não se consegue satisfazer sempre, mas a existência de inumeráveis procedimentos experimentais padronizados dá fé de que sim consegue cumprir-se muitas vezes. A tese “reflexiva” do positivismo a respeito desta questão será, portanto, que quando várias teorias entram em conflito, é recomendável buscar um território empírico neutral; a base empírica dada por nossas capacidades sensoriais é só o limite ao qual se pode chegar nessa busca, embora em muitas controvérsias científicas será possível encontrar um terreno neutral muito antes de alcançar esse limite, e, em troca, em outras muitas não se conseguirá determinar suficientemente qual interpretação dos dados empíricos é a mais correta.

A segunda crítica tem uma resposta parecida: a formalização das teorias não é uma conditio sine qua non para garantir a objetividade da ciência, senão um ideal que convém perseguir quando existe alguma controvérsia teórica. A mesma lógica contemporânea mostra que existem limites para a potência demonstrativa de qualquer sistema axiomático com o qual possa formalizar-se ao menos a aritmética elementar (este é o conhecido teorema de Gödel), mas esses limites deixam também um amplíssimo margem para a produção de argumentos objetivamente válidos. Por outro lado, o fato de que os conceitos e as hipóteses tenham significados flexíveis só demonstra que podem ser modelados com certa liberdade (não são tanto de pedra como de argila), de maneira que os cientistas têm sempre a opção de dar-lhes uma forma mais precisa em vez de uma mais difusa: quanto mais claramente esteja delimitado o que pretendemos afirmar com um conceito ou uma teoria, tanto mais fácil será sua crítica intersubjetiva. A axiomatização lógica das teorias é, de novo, o limite desse processo de clarificação e discussão objetiva (e o contínuo desenvolvimento de novas técnicas lógico-matemáticas, incluída a informática, permite cada vez mais possibilidades neste sentido), mas para chegar a um acordo intersubjetivo, frequentemente será suficiente com uma formalização menos exigente, e às vezes até mesmo sem nenhuma formalização, senão empregando tão só princípios claramente definidos na linguagem cotidiana; e também como no caso anterior, às vezes nem mesmo uma formalização estrita permitirá determinar uma só resposta correta.

Com respeito à terceira crítica (a falta de atenção do positivismo aos aspectos sociais da investigação científica), havemos de recordar que, tal como vimos, a questão fundamental para o positivismo seria precisamente a de como deve organizar-se socialmente a investigação para garantir que seus resultados tivessem a máxima credibilidade possível. Os velhos positivistas pareciam defender, ingenuamente, que para isso bastava ordenar a prática científica segundo umas regras metodológicas bem fundadas, e que a própria honestidade dos cientistas garantiria que essas regras iam ser cumpridas. A coisa, porém, não está tão clara, mas isto só significa que é necessário estudar com rigor as estruturas sociais da ciência; se esse estudo chega à conclusão de que essas estruturas são bastante eficazes na produção de conhecimentos objetivos, a terceira crítica carecerá de fundamento, e se não é assim, o desafio para o positivismo será mais o de utilizar as melhores ferramentas científicas disponíveis (por exemplo, a disciplina econômica conhecida como “desenho de mecanismos”), junto com uma boa dose de senso comum, para propor uma reforma daquelas instituições científicas cujo funcionamento seja cognitivamente ineficaz. Neste sentido, a resposta é similar à das duas críticas anteriores: os próprios resultados da ciência (então em ciências cognitivas, lógica e matemáticas; agora em sociologia e economia) podem servir para encontrar as bases mais sólidas a nosso alcance desde as quais levar a cabo uma discussão objetiva das teorias, ainda que essa base não possa ser nunca totalmente sólida. Não outra coisa era, ao fim e ao cabo, o que mantinham alguns neopositivistas, sobretudo Otto Neurath.

A quarta crítica é seguramente a mais popular, especialmente fora do âmbito da filosofia acadêmica. Em definitivo, a crítica consiste na postura do perplexo cidadão que não acerta a ver com claridade em que se beneficia ele de tão quantiosas inversões em investigação científica e tecnológica, e que suspeita razoavelmente que, ainda que o conhecimento outorgue poder, é mais provável que ele se encontre entre as vítimas desse poder que entre os beneficiários. A resposta a esta crítica deve partir do fato indubitável de que o conhecimento proporciona poder, mas isto pode fazê-lo por duas razões diferentes: em primeiro lugar, quem conhece realmente melhor a maneira como as coisas vão ocorrer, pode aproveitar esse conhecimento para dominá-las e dominar com isso a outras pessoas; em segundo lugar, quem consegue convencer aos demais de que possui melhores conhecimentos, ainda que não os possua de fato, pode obter também um certo controle sobre os convencidos (embora não sobre as coisas que afirma conhecer). Muitas formas de poder existentes ao longo da história foram deste segundo tipo: por exemplo, a gente obedecia à Igreja porque aceitavam que ela tinha as chaves da condenação e da salvação. Mas a ciência outorga poder fundamentalmente pela primeira razão: alguns laboratórios farmacêuticos ganham fortunas porque muitas de suas medicinas curam efetivamente, e algumas empresas de comunicações conseguem um certo controle sobre a opinião pública porque os satélites artificiais transmitem seus programas efetivamente. Na realidade, se a acumulação de poder técnico em algumas mãos não lhes conferiu automaticamente um poder político ilimitado, é porque outras mãos, com interesses diferentes, também conseguiram incrementar seu poder técnico, e nem sempre está claro quem conseguiu mais.

Assim pois, aqueles que se colocam a importantíssima questão de por que a ciência beneficia mais a uns que a outros, não deveriam negar a legitimidade desta outra pergunta: a de por que a ciência proporciona um poder tecnológico tão impressionante. A resposta do positivismo já a vimos: a ciência o consegue estendendo a prática do método experimental e do raciocínio lógico mais além dos âmbitos tradicionais desses métodos. À primeira questão pode tentar dar-se também uma resposta “científica”, de novo através da investigação social e econômica, mas o mais interessante será sem dúvida a resposta “política”: como fazer para que a ciência beneficie o máximo possível ao maior número possível de pessoas.

Penso que só alguns místicos crerão sinceramente que a situação dos pobres do mundo melhoraria se a investigação científica e seus métodos fossem abandonados por completo. Em troca, se os cidadãos dos países ricos nos empenhássemos em que nossos governos e nossas empresas mudassem o rumo de suas respectivas políticas (por exemplo, exigindo-lhes que nos cobrem uns altos impostos para financiar investigações sanitárias úteis para os países pobres, ou negando-nos a comprar os produtos das empresas que exploram aos cidadãos desses países), poderíamos obter resultados políticos muito melhores precisamente graças à ciência.

Por outro lado, o fato de que muitas decisões politicamente relevantes se deixem de mão de “especialistas científicos” pode conduzir a problemas que qualquer positivista sensato admitirá. Por exemplo, quem emprega a esses “especialistas” para persuadir ao governo ou à opinião pública (sejam as empresas tabaqueiras, ou as organizações ecologistas), necessita que os cientistas sejam habitualmente críveis, pois se não, para que contratá-los, se ninguém lhes vai crer? De novo chegamos ao problema de como organizar a investigação para que seus resultados tenham a máxima credibilidade possível. Por outra parte, o que se critica a esses “especialistas” é, em geral, que enfocam de maneira tendenciosa os problemas e que propõem soluções enviesadas. A resposta óbvia de um positivista é que, em tais casos, os cientistas não terão seguido um método cognitivamente eficaz, pois deveriam ter levado em conta os dados e as ideias que podem proporcionar as outras partes em conflito. Ao fim e ao cabo, não se está pressupondo que é preferível ser objetivo e imparcial, quando se critica aos “especialistas” por não sê-lo em grau suficiente e quando se assegura que os problemas deveriam resolver-se tentando manejar, entre outras coisas, os melhores conhecimentos possíveis?

Um cauto positivista acrescentaria, ademais, que em muitas ocasiões os mal chamados “especialistas” o são em questões das quais, na realidade, não se possui quase nenhum conhecimento verdadeiramente objetivo, senão simples opiniões e visões interessadas, adornadas com uma retórica mais ou menos cientificista; isto ocorre para a maioria dos chamados “problemas sociais”, como – ponhamos – o urbanismo, a educação, a política fiscal e outros tipos de delinquência, mas também para muitíssimas aplicações práticas da tecnologia e das ciências naturais. Nestes casos, o positivismo não deveria utilizar-se para dar cobertura retórica aos argumentos de uns e outros, senão mais para denunciar o caráter quase exclusivamente ideológico de tais debates, e para mostrar com claridade o pouquíssimo que realmente sabemos precisamente sobre muitos dos temas que mais nos interessam.

Referências

Este artigo unifica as cinco partes originais publicadas por Jesús Zamora Bonilla no blog A Bordo del Otto Neurath:

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5

O artigo foi publicado originalmente por Jesús Zamora Bonilla no A Bordo del Otto Neurath.

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Divulgador Científico há mais de 10 anos. Fundador do Universo Racionalista. Penetration Tester. Pós-Graduado em Computação Forense, Cybersecurity, Ethical Hacking, Full Stack Java Developer e Inteligência Artificial, Machine Learning e Data Science. Endereço do LinkedIn e do meu site pessoal.