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O rover Curiosity da NASA encontra pistas surpreendentes sobre o passado aquático de Marte

Traduzido por Julio Batista
Original de Laboratório de Propulsão a Jato da NASA

Entre outras descobertas feitas pelo rover Curiosity, texturas rochosas onduladas sugerem que existiam lagos em uma região do antigo Marte que cientistas esperavam ser mais seco.

Quando o rover Curiosity da NASA chegou à “unidade portadora de sulfato” no meio do ano passado, os cientistas pensaram ter visto a última evidência de que lagos já cobriram esta região de Marte. Isso porque as camadas rochosas de lá se formaram em ambientes mais secos do que as regiões exploradas anteriormente na missão. Acredita-se que os sulfatos da área – minerais salgados – tenham sido deixados para trás quando a água estava secando.

Assim, a equipe do Curiosity ficou surpresa ao descobrir a evidência mais clara da missão de antigas ondulações de água que se formaram dentro de lagos. Bilhões de anos atrás, as ondas na superfície de um lago raso agitaram os sedimentos no fundo do lago, ao longo do tempo criando texturas onduladas deixadas na rocha.

O rover Curiosity da NASA recentemente encontrou pistas surpreendentes sobre o passado aquático de Marte, inclusive ao explorar uma região chamada “Marker Band”. (Créditos: NASA/JPL-Caltech/MSSS)

“Esta é a melhor evidência de água e ondas que vimos em toda a missão”, disse Ashwin Vasavada, cientista do projeto Curiosity no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA no sul da Califórnia. “Subimos por milhares de metros de depósitos de lagos e nunca vimos evidências como esta – e agora as encontramos em um local que esperávamos ser seco.”

Camadas de história

Desde 2014, o rover tem subido a parte inferior do Monte Sharp, uma montanha de 5 quilômetros de altura que já foi cercada por lagos e riachos que teriam proporcionado um ambiente rico para a vida microbiana, se é que esta alguma vez se formou no Planeta Vermelho.

O Monte Sharp é composto de camadas, com a mais antiga na base da montanha e a mais nova no topo. À medida que o rover sobe, ele progride ao longo de uma linha do tempo marciana, permitindo aos cientistas estudar como Marte evoluiu de um planeta que era mais parecido com a Terra em seu passado antigo, com um clima mais quente e água abundante, para o deserto gelado que é hoje.

Há bilhões de anos, as ondas na superfície de um lago raso agitaram os sedimentos no fundo do lago. Com o tempo, o sedimento se transformou em rochas com texturas onduladas que são a evidência mais clara de ondas e água que o rover Curiosity de Marte da NASA já encontrou. (Créditos: NASA/JPL-Caltech/MSSS)

Tendo subido quase 800 metros acima da base da montanha, o Curiosity encontrou essas texturas de rocha onduladas preservadas no que é apelidado de “Marker Band” – uma fina camada de rocha escura que se destaca do resto do Monte Sharp. Essa camada de rocha é tão dura que o Curiosity não conseguiu extrair uma amostra dela, apesar de várias tentativas. Não é a primeira vez que Marte não quer compartilhar uma amostra conosco; mais abaixo na montanha, na “Cordilheira Vera Rubin”, o Curiosity teve que tentar três vezes antes de encontrar um local mole e macio o suficiente para perfurar.

Os cientistas estarão procurando por rochas mais moles na próxima semana. Mas mesmo que eles nunca obtenham uma amostra dessa faixa incomum de rocha, há outros locais que eles estão ansiosos para explorar.

Pistas marcianas

No fundo deste vale, chamado Gediz Vallis, há um monte de rochas e detritos que se acredita terem sido arrastados para lá por deslizamentos de terra úmidos bilhões de anos atrás. A equipe do rover espera observar mais de perto essas evidências de água corrente. (Créditos: NASA/JPL-Caltech/MSSS)

Bem à frente da Marker Band, os cientistas podem ver outra pista para a história da antiga água de Marte em um vale chamado Gediz Vallis. O vento esculpiu o vale, mas acredita-se que um canal que passa por ele e começa no alto do Monte Sharp tenha sido erodido por um pequeno rio. Os cientistas suspeitam que deslizamentos de terra úmidos também ocorreram lá, enviando pedras e detritos do tamanho de carros para o fundo do vale.

Como a pilha de detritos resultante fica no topo de todas as outras camadas do vale, é claramente uma das características mais jovens do Monte Sharp. O Curiosity teve um vislumbre desses detritos na cordilheira do Gediz Vallis duas vezes no ano passado, mas só conseguiu examiná-los à distância. A equipe do rover espera ter outra chance de vê-lo ainda este ano.

O Curiosity usou seu instrumento ChemCam para observar a cordilheira de Gediz Vallis, localizando pedras que se acredita terem sido arrastadas por um antigo fluxo de detritos. Uma das razões pelas quais os cientistas estão interessados ​​nesta cordilheira é porque inclui rochas como estas, que se originaram muito mais acima no Monte Sharp, onde o Curiosity não será capaz de alcançar. (Créditos: NASA/JPL-Caltech/LANL/CNES/CNRS/IRAP/IAS/LPG)

Mais uma pista dentro da Marker Band que fascinou a equipe é uma textura de rocha incomum, provavelmente causada por algum tipo de ciclo regular no clima, como tempestades de poeira. Não muito longe das texturas onduladas estão rochas feitas de camadas que são regulares em seu espaçamento e espessura. Esse tipo de padrão rítmico nas camadas rochosas da Terra geralmente decorre de eventos atmosféricos que ocorrem em intervalos periódicos. É possível que os padrões rítmicos nessas rochas marcianas tenham resultado de eventos semelhantes, sugerindo mudanças no antigo clima do Planeta Vermelho.

“As ondulações das ondas, os fluxos de detritos e as camadas rítmicas nos revelam que a história de transição do úmido para seco em Marte não foi simples”, disse Vasavada. “O antigo clima de Marte tinha uma complexidade maravilhosa, muito parecido com o da Terra.”