O uso descontrolado de maconha pode danificar o local do cérebro responsável pelo prazer

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Abusadores de maconha reagem menos fortemente a estímulos de dopamina no cérebro, resultando em sensações de mal-estar e/ou em abstinência. Créditos: SCOTT HARMS/ISTOCKPHOTO/THINKSTOCK

Provavelmente não é surpreendente que fumar maconha de vez em quando faz com que você se sinta ótimo [opinião da escritora do artigo e não do tradutor], mas fumar uma grande quantidade da droga por um grande período tem consequências opostas. Cientistas descobriram que o cérebro de abusadores de maconha reagem menos fortemente à dopamina, que é responsável pelos sentimentos de prazer e satisfação. Suas respostas atenuadas sobre a dopamina podem deixar os usuários “chapados” de maconha, vivendo em uma névoa que, desta vez, não é uma das boas.

Depois da legalização em Colorado, Washington, e no Uruguai, a maconha vem se tornando cada vez mais disponível em muitas partes do mundo. Ainda, a pesquisa científica sobre o caráter médico da droga está sendo cada vez mais divulgada. A maconha contém uma enorme quantidade de produtos químicos diferentes, e os cientistas ainda não entendem por completo como esses componentes interagem para produzir determinados efeitos. O seu status ilícito na maior parte do mundo tem lançado barreiras para a pesquisa. Nos Estados Unidos, por exemplo, qualquer estudo que envolva a droga requer aprovação de quatro agências federais diferentes.

Uma das perguntas que ainda não foram respondidas é sobre o que exatamente a droga faz no nosso cérebro, tanto durante quanto depois do uso. Mas o que será discutido aqui é apenas o efeito na dopamina, o ingrediente principal para o nosso sistema de sentimentos felizes e de satisfação. Atividades prazerosas, tal como comer, fazer sexo e usar algumas drogas provocam um aumento súbito de dopamina, especialmente dizendo para o nosso cérebro “Ei, cara, isso foi bom. Vamos fazer de novo!”

Cientistas sabem que o abuso de drogas pode danificar o sistema de dopamina. Consumidores abusivos de álcool e cocaína, por exemplo, são conhecidos por produzir de longe menos dopamina nos seus cérebros que pessoas que não se dedicam a usar tais drogas. Mas estudos passados haviam sugerido que o mesmo não acontece para quem faz o mesmo com a maconha.

Nora Volkow, diretora do National Institute on Drug Abuse em Bethesda, Maryland, decidiu dar uma olhada mais de perto nos cérebros dos abusadores da maconha. Para obter ajuda, ela e seu time usaram outra droga, o metilfenidato, estimulante conhecido por aumentar os níveis de dopamina no cérebro. Os pesquisadores deram-na para 24 abusadores  (que fumavam em média 5 cigarros por dia, com uma frequência de 5 dias por semana, por 10 anos) e 24 usuários controlados.

Imagens do cérebro revelaram que ambos grupos produziram dopamina extra depois de usar a droga. Mas, enquanto os usuários normais experimentavam um aumento nos batimentos cardíacos e na pressão do sangue e relataram sentir inquietação, os abusadores não sentiram o mesmo. As suas respostas foram tão fracas que Volkow teve de verificar novamente se o metilfenidato que ela estava dando não estava vencido.

Essas últimas respostas sugerem que os abusadores de maconha danificam determinado circuito em seus cérebros. A pesquisa foi publicada no site do PNAS, ontem (14/07/2014). Diferente dos abusadores de cocaína de álcool, os de maconha parecem produzir a mesma quantidade de dopamina dos que não abusam da droga, porém os seus cérebros não consegue interpretar a mensagem de que isso acontece. Essa desconexão pode ser “um mecanismo chave de dependência da cannabis”, diz Raul Gonzalez, um neuropsicologista da Florida International University em Miami que não esteve envolvido com a pesquisa. O estudo “sugere que os usuários da droga experimentam menos o sentimento de recompensa e de felicidade que os outros geralmente sentem e vai contra os esteriótipos populares de que eles geralmente se sentem mais irritados, estressados e miseráveis. Isso talvez contribua para o uso da cannabis entre as pessoas”

Mas os abusadores da maconha fumam muito porque se sentem miseráveis ou eles se sentem miseráveis porque fumam muito? Volkow não sabe. Não ser capaz de destrinchar causa e efeito “é uma limitação para um estudo como esse”, ela diz. Talvez os abusadores já tivessem sistemas de dopamina menos reativos e começaram a fumar uma tonelada de maconha para lidar com o mal-estar. Ou talvez eles tenham prolongado o abuso da maconha e isso tenha provocado danos para um determinado sistema dos seus cérebros, levando à apatia e ao isolamento social que os dependentes geralmente enfrentam.

As aulas para os usuários recreativos de maconha, se houverem, não são claras. Esse estudo usou “VOLUNTÁRIOS consistentes” que estavam “usando uma grande quantidade de maconha”, diz Paul Stokes, um psiquiatra do Imperial College London que não esteve envolvido na pesquisa. “Ele provavelmente diz mais sobre a dependência do que sobre o uso recreativo”. Mas quando ele fez uma análise nos cérebros de pessoas que fumam a maconha não mais que uma vez na semana, ele obteve resultados similares quando relacionados à dopamina.

Todas essas perguntas têm seu grau de importância e devem ser respondidas, Volkow diz. Como a disponibilidade da droga aumenta, ela diz, “temos de conhecê-la muito bem”.

 

NOTA: A postagem tem puramente o caráter científico e não busca incentivar a proibição ou a legalização da droga, apenas citar pesquisas feitas com ela e informar sobre o prejuízo causado pelo uso exacerbado. Temos a total imparcialidade, até porque a TAG “Opinião” não foi empregada.


 

Traduzido e adaptado do artigo postado no sciencemag.org por Lizzie Wade com o título Hardcore pot smoking could damage the brain’s pleasure center

 

 

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Josikwylkson Costa Brito
Olá, meu nome é Josikwylkson Costa Brito (não, meu pai não deu uma cabeçada no teclado), mais conhecido como o Príncipe do Cosmos Nordestino, e nasci na cidade de Campina Grande, na Paraíba, onde moro atualmente. Tenho 18 anos atualmente, estou no segundo ano do curso de medicina e publico textos de cunho científico ou filosófico para o presente site, porém, em virtude dos estudos, não estou a fazê-lo com muita frequência. De todas as minhas publicações, gosto de publicar no âmbito de minha área (saúde), mas também arrisco em postar textos que contradigam o senso comum e que criticam as pseudociências, o que me faz ser esquartejado por muitos irracionalistas (que, inclusive, andam vagando por essa página). As críticas que mais recebo desses senhores são as de que não tenho autoridade o suficiente para falar de determinado assunto (mesmo que eu poste artigos científicos advindos de sites e/ou universidades de confiança). Então, em razão dos 'amigáveis' seguidores que se travestem de conhecedores de argumentação lógica e que rejeitam qualquer postagem minha por tal status, por favor, finjam que eu sou uma pessoa com 40 anos doutor em filosofia, cosmologia, biologia e medicina.