Ophiocordyceps: o “fungo-zumbi” que inspirou o jogo The Last of Us

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Às vezes, há casos em que o mundo dos videogames não se baseiam propriamente em um mundo fictício com enredo e personagens envolventes; pode haver até um aspecto científico do mundo real. Esse é o caso de um dos jogos mais bem avaliados e famosos dos últimos anos: The Last of Us. O jogo foi lançado em 2013 pela distribuidora Naughty Dog, sendo esse formado por uma atmosfera de survival horror. A história é fundamentada em um cenário pós-apocalíptico em que a raça humana fora abalada pela infestação de um fungo, o Cordyceps, sendo a tentativa de resistência e sobrevivência sobre as condições em que o Planeta ficara após a invasão e consumação da população mundial, a principal trama.

Os personagens principais do jogo: Joe e Ellie. A história não se trata apenas de sobrevivência em um mundo apocalíptico, como também da integração entre humanos; no caso, uma garota órfã e um pai que perdera a filha. Créditos: Naughty Dog.
As personagens principais do jogo: Joe e Ellie. A história não se trata apenas de sobrevivência em um mundo apocalíptico, como também da integração entre humanos; no caso, uma garota órfã e um pai que perdera a filha. Créditos: Naughty Dog.

O mais interessante da trama é na fundamentação inicial dela: o fungo. Segundo os desenvolvedores do jogo, Neil Druckmann e Bruce Straley, a história só teve inicio após o conhecimento deles por um documentário da BBC – “Planet Earth” de 2006, onde em um dos episódios há a documentação de um gênero muito instigante de fungo: Ophiocordyceps. No respectivo episódio, é narrada a vida de uma das operárias de uma colônia de formigas, estando ela infectada por uma espécie desse fungo; o mais interessante é a mudança de comportamento que o hospedeiro apresenta na presença fúngica; literalmente, se portam como zumbis. Pois é, esse fato mórbido acabou gerando ideias para o desenvolvimento de The Last of Us… não é à toa que levou o título da postagem.

Estaladores; um dos típicos inimigos encontrados durante grande parte do jogo. Nesse caso, o humano apresenta o segundo estágio da infecção pelo Cordyceps. Créditos: Naughty Dog.
Estaladores; um dos típicos inimigos encontrados durante grande parte do jogo. Nesse caso, o humano apresenta o segundo estágio da infecção pelo Cordyceps, um outro gênero de fungo endoparasitário. Créditos: Naughty Dog.

O fungo: características gerais

No jogo – como dito anteriormente – o espécime transforma os seres humanos em zumbis, ou se preferir “seres errantes”, esperando por vítimas saudáveis para infectá-las e assim possuir novos hospedeiros que no futuro irão dispersar mais esporos e infectar mais humanos; de um ponto de vista geral, não há zumbis mas sim um ser parasitário usando você como fantoche para sobrevivência, dispersão e locomoção da espécie. A propósito, locomover-se para um fungo deve ser estranho, levando em consideração que não tem meios para caminhar – a não ser através dos esporos ou se alguém faça isso!

Como já especificado, o fungo do jogo é inspirado em uma espécie real. Seu nome é longo e estranho: Ophiocordyceps unilateralis. Esse fungo pertence à ordem Ascomycota (aqueles que têm uma microscópica estrutura sexual que produzem esporos dentro de um asco), e foi descoberto pela primeira vez pelo naturalista britânico Alfred R. Wallace em 1859.

O estágio final da infecção, onde o hospedeiro é morto e há o aparecimento do corpo de frutificação. Autor desconhecido.
O estágio final da infecção, onde o hospedeiro é morto e há o aparecimento do corpo de frutificação. Autor desconhecido.

Ele é bastante conhecido por ser capaz de alterar os comportamentos de certas espécies de formigas, remetendo-se realmente ao termo “zumbi”. Logo após um determinado ciclo, o hospedeiro morre e um corpo de frutificação cresce liberando esporos.

Basicamente ele é uma espécie de fungo entomopatogenico, ou seja, é um parasita de insetos capaz de matá-los ou mudar seu comportamento. Atualmente, é um espécime encontrado em florestas tropicais (Tailândia e algumas florestas brasileiras), sendo naturalmente um parasita comum de formigas do gênero C. leonardi apesar dele também infectar outras espécies. O mais intrigante é o que ocorre com os indivíduos parasitados.

A cabeça de uma formiga Camponotus leonardi, já tomada e morta pelo fungo Ophiocordyceps unilateralis. Créditos: David Hughes.
A cabeça de uma formiga Camponotus leonardi, já tomada e morta pelo fungo Ophiocordyceps unilateralis. Créditos: David Hughes.

Ciclo de vida

O “fungo zumbi”, como também chamado, tem um ciclo básico:

  • Infecta com seus esporos uma determinada formiga;
  • Logo após a dada infecção, o fungo se anexa ao exoesqueleto através de enzimas e pressões mecânicas com o crescimento de suas hifas. A sua condição natural em seguida é consumir e apoderar-se da grande parte interna do organismo, liberando logo em seguida uma espécie de composto químico capaz de manipular os padrões comportamentais deste;
  • Uma vez infectada, a formiga-zumbi agora sob o comando do fungo é forçada a subir sobre o caule de alguma planta e lá se fixar com suas mandíbulas em um local preciso. Segundo pesquisas recentes, o paradeiro delas quase sempre é encontrado sobre as condições:

O posicionamento da mordida sempre ao norte da folha; cerca de 25 centímetros de altura do solo; seleção de uma folha com pelo menos 94-95% de umidade e uma variação de temperatura da região entre 20 e 30 graus Celsius.

  • De uma forma mórbida e extraordinária, o fungo consegue controlar o sistema nervoso da formiga, impedindo que esta abra suas mandíbulas e permanecendo-a “agarrada” à região específica até que por fim ele mata a hospedeira.
  • As hifas continuam a crescer até destruir o exoesqueleto, brotando de dentro para fora um corpo de frutificação – a partir da cabeça da formiga. Esse estágio se da de 4-10 dias; só então os esporos são liberados.
O ciclo do O. unilateralis resumido. Crédito: David. P Hughes, Harvard University.
O ciclo completo do O. unilateralis resumido. Crédito: David. P Hughes, Harvard University.

Pesquisadores chamam esse momento da esporulação como “campo de infecção da morte”, isso porque os locais precisos em que essas formigas são forjadas a ir, geralmente, situam-se bem acima de um formigueiro! A necessidade final do fungo é infectar novas vítimas para que o seu ciclo de vida recomece.

A real natureza do “fungo-zumbi”

Para nós o comportamento do O. unilateralis é interessante ou até mesmo bizarro, porém, há realmente sentidos naturais para que isso ocorra. Primeiramente, o fungo-zumbi precisa de um método de locomoção para procurar áreas úmidas e prósperas para sua sobrevivência; Não obstante, fazer isso apenas pela esporulação não é cem por cento eficiente quando há a possibilidade de alguém fazer o serviço todo. No caso, as formigas. Após a infecção e o apoderamento do seu sistema nervoso, fica fácil controlar seus hospedeiros e utilizá-los pelo bem quiser. Há maldade nisso?

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Em uma metáfora eficiente: a formiga é o automóvel e o fungo o condutor. O pesquisador
David Hughes da Universidade do Estado da Pennsylvania, afirma que o O. unilateralis é um dos exemplos mais complexos de parasitas capazes de controlar o comportamento animal.

Não obstante, biólogos também concordam que essa interação não é tão negativa, isso se levarmos em consideração o controle de população das colônias… uma espécie de fator homeostático a fim de evitar quaisquer descontrole populacional das formigas. Em um ponto de vista distinto, ambos podem sair ganhando nisso tudo.

Ophiocordyceps não é o único gênero de fungo capaz de manusear a mente, há muitos outros gêneros e famílias do reino Fungi com o mesmo potencial (ou parecido). O que nos resta compreender é o quanto podemos aprender através dessa capacidade de “controle cerebral” e o que é possível retirar disso.

Em The Last of Us, os seres humanos são as formigas. Por hora, agradecemos que a natureza do Cordyceps se restrinja aos artrópodes e que a ficção permaneça onde está.


Já no mundo da ficção científica de The Last of Us, o Ophiocordyceps é capaz de assimilar o seu ciclo e vida com os seres humanos. Será que isso é realmente possível? Confira aqui.

Veja também uma parte crucial do episódio da BBC Planet Earth que inspirou os desenvolvedores de The Last of Us:

Confira um pouco mais sobre o fungo de The Last of Us e o dito Cordyceps com o vídeo do Átila Iamarino no Canal Nerdologia, clicando aqui.

Referências

Fungus makes zombie ants do all the work, Scientific American. Link.

The zombie-ant fungus is under atack, PennState Science. Link.

Zombie fungus enslaves only its favorite ant brains, Live science. Link.

The zombie ant and the fungus that controls its mind, Wired. Link.

Hidden Diversity Behind the Zombie-Ant Fungus Ophiocordyceps unilateralis: Four New Species Described from Carpenter Ants in Minas Gerais, Brazil; Harry C. Evans, Simon L. Elliot, David P. Hughes. 2010.

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