Os estudos de Whitehall: como a hierarquia do trabalho pode ser mortal

0
122
O complexo administrativo de Whitehall, onde foram realizados os estudos. Crédito: Parlamento Britânico.

Por Margaux Bricteux
Publicado no Blog Master de Salud Pública y Gestión Sanitaria da EASP

Em 1967, uma equipe de pesquisadores da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, liderada pelo epidemiologista inglês Michael Marmot, empreendeu uma série de estudos de coorte sobre a saúde de funcionários públicos britânicos. Esses estudos, chamados de Estudos de Whitehall (Whitehall Studies) em homenagem ao complexo administrativo onde os funcionários trabalhavam, tornariam-se um ponto de referência para quem trabalha com saúde pública. Os resultados que obtiveram transformariam a percepção que temos das desigualdades da saúde e seus determinantes sociais.

O objetivo inicial desses estudos era descobrir o impacto de um ambiente de trabalho altamente hierárquico na mortalidade e morbidade dos funcionários públicos. O Estudo Whitehall I examinou a saúde de 17.530 servidores públicos do sexo masculino por mais de sete anos e encontrou uma forte correlação inversa entre o grau de emprego e mortalidade, especialmente por doenças coronárias. Dessa forma, funcionários menos qualificados, como mensageiros, tiveram mortalidade por doença coronariana 3,6 vezes maior do que diretores que ocupavam cargos mais altos. Essas diferenças na mortalidade continuaram a persistir mesmo que os resultados fossem ajustados por fatores de risco para essas doenças, como obesidade e sedentarismo.

Fatores de risco de mortalidade e doença coronariana em funcionários do estudo Whitehall I. Tradução: na horizontal, da esquerda para direita: cargo administrativo; profissional/executivo; emprego de escritório; outros. Na vertical, os fatores de risco, de cima para baixo: sem explicação; outros; pressão sanguínea; relacionados ao fumo; colesterol. Crédito: The Founders’ Network, com base em dados de Marmot, 1978.

Alguns anos depois, o Estudo Whitehall II buscou aprofundar os resultados do primeiro estudo, além de investigar as diferenças entre servidores públicos do sexo feminino e masculino. Um gradiente semelhante foi observado na morbidade dos participantes, não só nas doenças cardiovasculares, mas também nos comportamentos de risco à saúde: quanto menor a hierarquia de trabalho, maior a morbidade e os comportamentos de risco.

Os funcionários de Whitehall serviram como uma população base ideal para essas investigações, já que pertencem a uma classe social relativamente homogênea – não são os mais ricos nem os mais desfavorecidos da sociedade – e têm empregos da mesma categoria, já que nenhum dos dois é expostos a riscos ocupacionais físicos ou à precariedade econômica. A única coisa que distinguiu os participantes do estudo foi seu status na escala de empregos.

À primeira vista, os resultados desses estudos podem parecer contraditórios. Muitos pensam que posições de trabalho mais elevadas levam a mais estresse no trabalho e forte demanda psicológica, levando a mais mortes por ataques cardíacos. Em vez disso, esses estudos desmascararam esse mito e revelaram que uma posição inferior em uma hierarquia tem efeitos deletérios sobre a saúde e a expectativa de vida. Da mesma forma, esses resultados não só foram observados na administração pública britânica, mas também se manifestaram em outros países desenvolvidos.

Assim, esses estudos são significativos porque mostram que as desigualdades de saúde afetam toda a sociedade, e não apenas os mais desfavorecidos. Esse gradiente social na saúde abrange a população mundial como um todo e, portanto, diz respeito a cada um de nós, não apenas aos casos mais extremos.

Também nos ajudam a compreender os efeitos dos fatores psicossociais na saúde, uma vez que estabelecem a ligação entre condições de trabalho estritamente hierárquicas e doenças cardiovasculares. Para explicar os mecanismos que transformam esses elementos sociais em uma patologia física, várias linhas de causalidade foram propostas. A explicação que Marmot propõe é que os funcionários menos qualificados trabalham em um ambiente de alta pressão, mas também têm menos controle sobre suas tarefas e menos recursos disponíveis para gerenciar as demandas de seu trabalho. Isso gera uma situação de estresse maior do que a de conselheiros e executivos, que possuem mais previsibilidade e flexibilidade no desempenho de suas funções, e um maior nível de suporte social. Esse aumento do estresse aumenta a produção do hormônio cortisol, o que, por sua vez, reduz a eficácia do sistema imunológico e, com o tempo, pode resultar em aumento do risco de doenças cardiovasculares.

Independentemente do mecanismo causal pelo qual o gradiente social afeta a saúde e a morbidade, as descobertas dos estudos de Whitehall têm um significado indiscutível para a pesquisa sobre os determinantes sociais da doença cardíaca coronária e para a saúde pública em geral. Ao estabelecer a ligação entre trabalho e status social e morbidade, esses estudos abriram as portas para pesquisas sobre o gradiente de desigualdades sociais da saúde que afeta a população como um todo. Mais especificamente, demonstraram a importância de se dar mais atenção ao ambiente de trabalho e às consequências de hierarquias rígidas na saúde dos trabalhadores, uma vez que têm efeitos de longo prazo em populações cada vez mais afetadas por doenças crônicas.