Os hábitos culturais em Montaigne

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"Os Filhos de Pindorama" de Theodor de Bry. Gravura retratando as práticas de canibalismo no Brasil.

Autora: Roberta Alessandra.

Michel de Montaigne é considerado o criador do gênero literário Ensaio. O ensaio possui um modelo diferente das escritas tradicionais, pois não há um modelo metódico a ser seguido, o autor explora um assunto com total liberdade, misturando instinto com experiência, circulando pelos temas mais diversos, sem compromissos com a autoridade, ao mesmo tempo que uma história é narrada, consegue-se passar para outra relacionada, opinar sobre o assunto e depois retomá-lo, explorando-o assim através de tentativas, mas sem rigores metódicos.

O ensaio Os canibais, publicado em 1580 quando Michel de Montaigne tinha 47 anos, é uma parte de sua obra dedicada a fazer uma análise crítica aos hábitos culturais dos indivíduos, a forma de como se vê o desconhecido, e como reagimos diante dele. No texto d’Os canibais, o autor disserta objetivamente a forma como os Europeus viam os povos Tupinambás durante a época do descobrimento, mediante atributos usados por eles como “bárbaro” e “selvagem” para designar o modo de vida dos povos indígenas. As informações obtidas por Montaigne sobre tal fato vieram de um homem próximo a Montaigne que viveu por dez ou doze anos nesse lugar até então desconhecido, da qual posteriormente foi nomeado de “França Antártica”.

Montaigne inicia seu texto abordando sobre a origem do termo “bárbaro”, utilizado pelos gregos para se referirem a todas as nações estranhas, isto é, toda nação que não fosse grega, como por exemplo os Romanos, que apesar de seu desenvolvimento em sociedade, eram tidos como Bárbaros simplesmente por serem de territórios diferentes. Essa definição de bárbaro, para Michel Montaigne, só comprova a existência de uma ignorância diante daquilo que é diferente e desconhecido.

“Cada qual considera Bárbaro o que não se pratica em sua terra. E é natural, porque só podemos julgar da verdade e da razão de ser das coisas pelo exemplo e pela ideia dos usos e costumes do país em que vivemos” (Ensaios I – Os canibais , Pág 195)

Pode-se perceber, portanto, que não podemos ter outros critérios de verdade e razão além daqueles que o nosso pais e os nossos costumes nos promove, e para Montaigne esse é um dos pontos centrais da sua obra, dos quais mediante essa ausência de critérios adotará uma concepção de relativização perante as culturas.

Assim como foram nomeados de bárbaros, também foram tidos como selvagens, devido a sua nudez, a ausência de utensílios e armas rebuscadas, sem ideia de bens à conquistar ou qualquer coisa que representasse uma ideia de superficialidade. Montaigne os define como seres de uma simplicidade natural de tão alto grau, que seria impossível imaginar uma sociedade subsistir com tão poucos recursos.

“Esses povos não me parecem, pois, merecer o qualificativo de selvagens somente por não terem sido senão muito pouco modificados pela ingerência do espírito humano e não haverem quase nada perdido de sua simplicidade primitiva”. (Ensaios I – Pag. 196)

Dessa forma, essa concepção de simplicidade natural que dava origem a esse modo selvagem de ser, também estava vinculada a uma vida sem modificações humanas. Montaigne descreve os índios como seres que viviam da forma que vieram ao mundo, não tinham seu intelecto desenvolvido a ponto de possuir habilidades de manipular e modificar a realidade ao seu redor, apenas se ocupavam do que era necessário à sua sobrevivência e a ociosidade. “É um país onde não há comércio de qualquer natureza, nem literatura, nem matemática, nem vestuário, nem hierarquia política, nem ricos e pobres” (Ibid).

A maneira como os povos Tupinambás lidavam com o combate e com a guerra também era algo incomum para os europeus. Sua moral resumia-se sobretudo a ter valentia na guerra, e por isso, “seus combates sempre terminavam com efusão de sangue e mortes, pois ignoram a fuga e o medo” (Ensaios I – Pag 198) , onde como sinal de vitória, traziam a cabeça do inimigo como troféu para pendurar em suas residências. Os demais que atuavam junto ao inimigo, eram colocados como prisioneiros até o momento em que caso não se reconheciam como derrotados, eram mortos a pauladas e em seguida realizava-se um ritual que representava um sinal de vingança, onde devido a crença da imortalidade da alma, assavam os prisioneiros e comiam, pois acreditava-se que iriam absorver as virtudes dos inimigos e assim ficariam mais fortes para vencer os combates. Ao passo que, os europeus realizavam um outro gênero de morte, que consistia em enterrá-los até a cintura, acertando flechas no restante do corpo exposto e mais adiante depois de um razoável tempo de sofrimento, o enforcavam.

Diante desses fatos, Montaigne traça um paralelo entre os costumes indígenas e os costumes europeus, se questionando o que seria ser bárbaro e selvagem, pois ambos praticavam atos semelhantes, além de citar outras práticas europeias de execução como o uso das fogueiras, da guilhotina e os enforcamentos em praça pública. Portanto, o autor conclui que se os povos indígenas são cruéis, os “civilizados” também são, pois “É mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto”, (Ensaios I – Pag 198) Diante dessa diferença entre os costumes de cada sociedade, o autor nos propõe uma visão de relativização cultural, isto é, compreender que cada lugar, povo e sociedade terá hábitos e costumes diferentes. Montaigne finaliza seu ensaio com uma frase, que demonstra toda a universalização dos seu pensamento: “Em tudo o que aí fica dito não há nada de mau; o que há é que esta gente não usa calções.” (Ensaios I – Pag. 203) . Ou seja, não há diferença entre a essência europeia e a indígena. O que há são opiniões que partem de uma perspectiva que difere sobre outra cultura.

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MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. São Paulo: Abril Cultural, 1996.

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