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Paradigmas e revoluções na ciência e na técnica

Desde seu começo há quatro séculos, a ciência e a técnica modernas têm sido sacudidas esporadicamente por profundas revoluções. Basta recordar algumas das que ocorreram em nosso século: o nascimento da física atômica e nuclear, a criação das duas relatividades e da teoria quântica, a emergência da teoria sintética da evolução e da biologia molecular, os começos da psicologia fisiológica, a consolidação da historiografia econômica e social e, segundo alguns, a invenção da gramática gerativo-transformacional. Quanto às revoluções tecnológicas, é sabido que transformaram radicalmente o estilo de vida nos povos industrializados. Basta recordar a revolução nos transportes operada pela difusão do automóvel e do avião, a revolução nas comunicações causada pela difusão do rádio e da televisão, a revolução industrial operada pelo trabalho em cadeia e o taylorismo, a revolução agropecuária produzida pela aplicação da biologia, a racionalização da administração de empresas em grande escala produzida pela pesquisa operacional e a revolução produzida no armazenamento e na elaboração de dados pelo uso dos computadores de alta velocidade.

Estas revoluções escaparam somente aos filósofos subjetivistas, dedicados à autocontemplação, e aos glossocêntricos, fascinados pelo verbo. Os demais filósofos advertiram, junto com os cientistas e os tecnólogos, as revoluções científicas e técnicas de nosso tempo, ou ao menos algumas delas. Alguns intelectuais se entusiasmaram tanto com algumas dessas revoluções, que ignoraram a aguda observação de Friedrich Engels, de que todo progresso é unilateral e comporta um regresso em algum outro aspecto. Por exemplo, o levantamento de Chomsky constituiu um avanço decisivo em sintaxe mas um retrocesso em outros ramos da linguística (devido a seu menosprezo pela investigação empírica), assim como na psicolinguística (devido a sua tese inatista). E os computadores desviaram a atenção, da geração de informação, a sua elaboração, da criação de ideias, a sua aplicação, da tomada de decisões, ao cumprimento destas.

O conceito de revolução científica ou técnica não é novo: era familiar a cientistas, tecnólogos e historiadores da ciência desde o século XVIII. Mas se pôs em moda recém há um par de décadas graças a Kuhn (1962). Desde então todos falamos de revoluções conceituais ou mudanças radicais de paradigma. Em particular, exagerou-se a ruptura ou descontinuidade às expensas da continuidade. O mesmo Kuhn (1962), Feyerabend (1962), e seus numerosos prosélitos, sustentaram a tese de que todo novo paradigma é incomensuravelcom o deslocado: os novos conceitos e marcos conceituais teriam significados totalmente disjuntos dos velhos. Desgraçadamente, nenhum desses autores analisou adequadamente as noções de paradigma, marco conceitual, mudança de significado, ou revolução. Seus pronunciamentos são tipicamente imprecisos. Mais ainda, Feyerabend (1981) elogiou a imprecisão, acreditando que desta maneira se livra da responsabilidade de expressar-se com claridade. Com este artigo me proponho a elucidar algumas das noções-chave que manejam Kuhn, Feyerabend e seus prosélitos com a leviandade que caracteriza uma filosofia sem princípios, ou gnoseologia anarquista, como a chama Feyerabend (1975).

Paradigmas

Todo ser humano nasce no seio de uma sociedade que inclui uma cultura, e toda cultura inclui um ou mais campos do conhecimento. Alguns destes campos são sistemas fechados de crenças (por exemplo, religiões), enquanto que outros são campos abertos de investigação (Bunge, 1983a, 1983b).

Cada campo de conhecimento inclui um ou mais marcos conceituais. Cada um destes marcos está composto de um ponto de vista geral (ou filosofia), um corpo de conhecimentos admitidos ou pressupostos, e um estilo aceito de pensamento, que inclui certos métodos para tratar problemas de um tipo dado.

Nos campos de investigação maduros predominam, em cada momento, uns poucos marcos conceituais: os marcos rivais, se os há, são marginais. Os marcos conceituais dominantes, ou parangões, foram chamados estilos de pensamento (Fleck, 1935) e paradigmas (Kuhn, 1962). Nos campos de investigação emergentes, ou em desenvolvimento, não há tais marcos conceituais dominantes, estilos de pensamento, ou paradigmas. Por exemplo, a psicologia e a sociologia ainda estão à busca de seus paradigmas, enquanto que a química tem os seus. (Contrariamente a uma opinião difundida, uma ciência madura pode possuir mais de um paradigma. Por exemplo, um químico teórico pode utilizar, na mesma investigação, a cinética química clássica, um modelo de moléculas composto de esferas e raios, e a química quântica, ou seja, um total de três paradigmas.)

Aqueles de nós que nos convertemos em investigadores profissionais (cientistas, tecnólogos ou humanistas criadores) o fazemos apreendendo os traços principais dos marcos dominantes (paradigmas) em um ou mais campos de investigação (por exemplo, física e matemática, ou biologia celular e bioquímica, ou economia política e história). Aprendemos principalmente estudando casos modelo ou exemplares (como os chama Kuhn, 1970) de resolução de problemas. E aportamos contribuições originais quando planteamos ou resolvemos problemas novos dentro do marco existente, ou quando propomos mudanças importantes e viáveis em dito marco. No primeiro caso fazemos, para empregar termos favoritos de Kuhn, investigação normal. No segundo fazemos investigação extraordinária, a que pode desembocar em um avanço decisivo (breakthrough) ou inclusive em uma revolução conceitual.

Os investigadores em ciência, tecnologia e as humanidades sabem tudo isso desde há tempo: todos compreendemos que não é o mesmo andar por caminho trilhado que abrir novos caminhos, resolver um exercício que escrever uma tese de doutorado, modificar um artefato que inventá-lo. Kuhn teve o mérito de chamar a atenção sobre estas ideias. O que segue sendo problemático são as noções mesmas de marco conceitual, de paradigma, e de revolução no mesmo. Nenhuma destas noções foi elucidada cuidadosamente, seja por Kuhn, seja por seus prosélitos ou críticos (Lakatos e Musgrave, 1970). Intentemos aclarar essas noções.

Marco conceitual

Um campo de investigação pode analisar-se como composto por um marco material e um marco conceitual. (Este dualismo é metodológico, não ontológico). O primeiro está constituído por uma comunidade de investigadores, a sociedade que a apoia (ou ao menos a tolera), e o domínio de objetos que estudam os investigadores (por exemplo, os ecossistemas no caso da ecologia). (No caso das disciplinas formais e humanísticas os objetos de estudo são conceituais, de modo que a expressão marco material é um tanto enganosa: necessita-se um nome mais adequado).

Um marco conceitual em um campo epistêmico E dado pode caracterizar-se como uma séptupla Ec = [G, F, B, P, K, A, M], onde:

G = concepção geral ou transfundo filosófico.
F = transfundo formal (pressuposições lógicas ou matemáticas)
B = transfundo específico (corpo de conhecimentos tomados de empréstimo)
P = problemática (coleção de problemas que pode investigar-se em E)
K = fundo de conhecimentos obtidos previamente por membros da comunidade de investigadores
A = objetivos ou metas da investigação, e
M = metódica (coleção de métodos de E).

Todo membro de uma comunidade de investigadores, com exceção do impostor ocasional, se ocupa de desenhar ou de pôr em prática um ou mais projetos de investigação. Um projeto de investigação em um campo de investigação caracterizado por um marco conceitual Ec = [G, F, B, P, K, A, M] pode entender-se como uma séptupla P = [g, f, b, p, k, a, m], cada uma de cujas componentes é um subconjunto da correspondente componente de Ec.

Diz-se que dois ou mais projetos de investigação competem entre si, se tratam dos mesmos (ou quase os mesmos) problemas de maneira diferente, por exemplo, empregando métodos especiais diferentes. Por exemplo, em uma época os físicos se dividiam em corpuscularistas e plenistas (ou continuístas), e hoje em dia os cientistas sociais podem classificar-se em globalistas, individualistas e sistemistas. Não há competência se os objetos que se investiga ou os objetivos são diferentes, por exemplo, teóricos em um caso e práticos no outro.

Um exemplar pode definir-se como um projeto de investigação que, (a) tendo sido exitoso no passado, (b) é imitado (tomado como modelo) em um novo trabalho de investigação. Lakatos (1978) propôs sua própria noção de programa de investigação, concebido como sucessão de teorias em si mesmas (ou seja, habitantes do reino platônico das ideias), como reconstrução objetiva da noção kuhniana de paradigma. De fato constitui uma adulteração desta porque para Kuhn, com toda razão, (a) a investigação científica não se limita a teorizar, e (b) as teorias não pairam acima das circunstâncias sociais. Kuhn insiste, acertadamente, em que os investigadores não se desenvolvem em um vácuo social senão no seio de comunidades de investigadores. Uma crítica parecida pode fazer-se à análise de Stegmüller (1976), a qual, para pior, repousa sobre a análise errônea das teorias científicas proposto por Sneed (1971), quem, entre outras coisas, ignora o conceito de significado fático (Bunge, 1983a, 1983b).

Investigação normal e extraordinária

Definiremos a investigação normal, seja em ciência, tecnologia, ou as humanidades, como a posta em prática de um projeto de investigação dentro de um marco conceitual existente e em imitação de algum exemplar. Em contrapartida, investigação extraordinária é aquela que pode desembocar em uma inovação radical em algum marco conceitual, tal como uma mudança importante na concepção geral, na problemática, ou na metódica. Se tem êxito o novo marco conceitual engendra novos exemplares que inspiram um novo ciclo de investigação normal.

A investigação normal acapara quase toda a atenção dos investigadores, e frequentemente é excitante. (Inclusive aqueles revolucionários que logram construir um novo marco conceitual fazem investigação normal quando adotam o novo paradigma para investigar problemas distintos dos que deram lugar ao nascimento do novo marco.) A investigação normal é frequentemente previsível em grandes linhas, mas algumas vezes não o é. Com efeito, algumas vezes nos mostra que nossas intuições e expectativas eram errôneas, como quando Maxwell descobriu teoricamente que a viscosidade de um gás não está relacionada com sua densidade (Peierls, 1979, oferece uma boa seleção de surpresas no curso de investigações normais em física teórica).

Os filósofos têm preferência pelos resultados da investigação extraordinária: estes brilham mais e são os únicos que chegam aos livros de divulgação. Alguns, em particular Popper (1970), creem que a investigação normal é coisa de rotina ou até de dogma, e portanto perigosa. Isto não é assim: a maior parte dos avanços decisivos (breakthroughs) ocorrem dentro de marcos conceituais existentes. Exemplos: a análise matemática no século XVIII (em contraste com o do século anterior), os trabalhos de Laplace sobre probabilidades (versus os trabalhos anteriores), a contribuição de Frege à lógica (a diferença da de Boole e de Morgan), a axiomatização da teoria de conjuntos (vs. sua criação por Cantor), a moderna teoria do estado sólido e a química quântica (vs. a invenção da teoria quântica básica), e inclusive a genética molecular (vs. a genética clássica), se devemos crer em Maynard Smith (1972).

Mais ainda, toda revolução conceitual tem suas raízes em algum marco conceitual. O que é verdade é que a investigação normal não é tão atrativa como a extraordinária, e por este motivo não costuma aparecer na televisão. Também é verdade que o apegar-se a um marco conceitual qualquer, por fértil que tenha sido, pode acabar em rigidez dogmática: em recusar-se a ensaiar novas teorias ou desenhos, e inclusive na negativa a admitir a derrota por obra de observações, experimentos ou ensaios. Voltaremos a este ponto.

A investigação extraordinária envolve uma mudança no estilo de pensamento e, por conseguinte, causa uma reorientação da investigação. Se o resultado é um avanço considerável, constitui uma revolução epistêmica, ou o que Bachelard (1938) chamou uma rupture épistémologique. Mais precisamente, diremos que um projeto de investigação exitoso constitui uma revolução epistêmica, relativa a um marco conceitual Ec dado, se, e somente se, (a) envolve afastamentos em algumas das componentes de Ec (não em todas), ou (b) abre um novo campo de investigação sem cortar seus laços com todos os existentes. Exemplos de revoluções epistêmicas: as efetuadas por Newton, Darwin, Marx e Cantor. Estes homens alteraram de maneira profunda e duradoura os parangões ou estilos de pensamento prevalecentes.

Contudo, a investigação extraordinária não é necessariamente revolucionária: pode acabar em uma contrarrevolução epistêmica, ou seja, em um retorno parcial a algum marco conceitual anterior. (Nunca há retornos completos.) Diremos que um projeto de investigação é uma contrarrevolução epistêmica relativamente a um marco conceitual Ec se, e somente se, envolve (a) o abandonar, sem bons motivos, partes importantes de quaisquer das sete componentes de Ec, ou (b) o regressar a ideias ou procedimentos que resultaram ser inadequados no passado e, mais ainda, foram superados por Ec.

O cognitivismo (ou psicologia informacionista) contemporâneo é um caso de contrarrevolução epistêmica, por seu mentalismo, seu desinteresse pela biologia (em particular a neurociência) e sua falta de preocupação pelo experimento. Outro exemplo é a revolta romântica contra o positivismo (por exemplo, Feyerabend, 1975). Em outros casos a investigação extraordinária resulta em uma mescla de revolução com contrarrevolução. Um exemplo de semelhante mescla é o condutismo, com sua metódica escrupulosa, sua problemática estreita, e sua renúncia quase total à teoria. Outro misto de revolução e contrarrevolução é, como se afirmou ao começo, a gramática gerativo-transformacional.

A investigação normal e a extraordinária se dão ao mesmo tempo. Em todo campo de investigação se dá a tensão, que assinala Kuhn (1977) entre a tradição e a mudança. Esta tensão, embora óbvia, é ignorada pelos gradualistas (que concebem a história do conhecimento como uma acumulação) e pelos catastrofistas (quienes se ocupam tão só das revoluções). Não se alcança uma visão equilibrada do desenvolvimento histórico do conhecimento a menos que se tenha em conta dita tensão.

A contribuição mais importante de Kuhn (1977) à metodologia é sua observação de que os dados negativos ou desfavoráveis a alguma hipótese ou teoria, são tratados de maneira diferente na investigação normal e na extraordinária. No primeiro caso se intenta acomodar a evidência negativa ao marco conceitual dominante (ou paradigma), enquanto que no caso da investigação extraordinária dita anomalia se emprega para minar o marco conceitual. (Em outras palavras, enquanto em investigação normal se nega ou reinterpreta o dado desfavorável, na extraordinária se nega ou reinterpreta a teoria.)

O dado negativo pode acomodar-se ao marco conceitual dominante aumentando a teoria tradicional com hipóteses ad hoc destinadas a salvá-la, ou propondo novas teorias no espírito do marco conceitual prevalecente (Bunge, 1973, 1983a, para a noção de hipótese ad hoc de boa-fé). Não há nada que objetar a estas táticas a menos que sigam aparecendo sérias anomalias, ou seja, a menos que o marco conceitual entre em crise. Em tal caso é aconselhável ensaiar alterações radicais. Por suposto, qualquer projeto de reforma radical será resistido pelos investigadores que se habituaram ao velho marco conceitual. Às vezes se tornam tão conservadores que intentam censurar a publicação de críticas, de ideias novas, ou inclusive de dados desfavoráveis. Mas eventualmente a resistência à novidade se debilita e o novo marco conceitual prevalece. A mudança é essencial à ciência e à tecnologia.

O evolucionismo supera o gradualismo e o catastrofismo

O conhecimento humano pode avançar de três maneiras: Gradualmente, por avanços decisivos (breakthoughs), ou por revoluções. O avanço gradual consiste em agregados ou em desgastes: em ganhar alguns itens de informação ou em descartar outros ao advertir que são inadequados. O avanço gradual se dá sempre dentro de algum marco conceitual. De vez em quando ocorre neste um avanço decisivo: a saber, quando se resolve um problema ou constelação de problemas, de modo que se pode formular novos problemas dentro do mesmo marco conceitual. E as revoluções consistem na emergência de novos marcos conceituais, que substituem aos anteriores ou substituem à mera ignorância.

Sendo assim, é um erro optar pelo gradualismo (favorecido pelo empirismo) ou pelo catastrofismo (favorecido tanto pelo racionalismo como pelo irracionalismo). A história do conhecimento, como a de qualquer outra empresa humana, e inclusive a de qualquer setor da realidade, mostra não só mudanças graduais e decisivas, senão também revoluções. A síntese de gradualismo e catastrofismo é, por suposto, o evolucionismo.

Segundo a concepção evolucionista do desenvolvimento do conhecimento, que propomos, há (a) permanência de alguns princípios filosóficos gerais que impulsionam toda investigação objetiva (por exemplo, as teses de que a realidade é legal e pode conhecer-se), (b) agregado e suprimido incessantes de dados, técnicas, hipóteses, teorias e planos, (c) revoluções ocasionais, que respeitam partes do transfundo de conhecimento e alteram outras, e que acabam em novos marcos conceituais.

A concepção evolucionista da marcha do conhecimento conserva as teses verdadeiras do gradualismo e do catastrofismo ao par que rejeita suas teses falsas. Em particular, o evolucionismo rejeita a tese da moda, de que o conhecimento avança primordialmente por substituição, não por adição. Isto não é sempre assim: a análise matemática, a álgebra abstrata, a genética, a teoria do controle, e a história econômica, para não citar senão cinco inovações revolucionárias, não substituíram senão à ignorância. Nestes casos e vários outros não houve marco conceitual rival que criticar e substituir.

Uma segunda tese, relacionada com a anterior e igualmente errônea, é a de que toda revolução responde a alguma crise. (Podemos dizer que um campo de investigação está em estado de crise se está estagnado, ou está dominado por uma única escola estreita, ou está fragmentado em diversas escolas rivais, ou está dividido em muitas especialidades estreitas e apenas relacionadas entre si, ou alguns de seus próprios resultados ameaçam a seus marcos conceituais dominantes.) Algumas crises preparam revoluções, mas nem toda revolução resulta de uma crise.

É certo que todo campo epistêmico parece ter passado por algum período de crise, e que alguns campos, tais como a sociologia, parecem estar em estado de crise permanente. Contudo, em alguns campos ocorrem avanços decisivos e até revoluções sem que os preceda nenhuma crise profunda. Por exemplo, a descoberta de certas contradições (paradoxos) na análise matemática, e mais tarde na teoria de conjuntos, não causou a debandada da profissão matemática nem a obrigou a abandonar princípios básicos. Os problemas foram resolvidos com uma dose maior da medicina habitual, a saber, rigor e teoria. E quando Husserl publicou A crise da ciência europeia (1936), o que estava verdadeiramente em crise era a sociedade alemã e em particular a filosofia alemã: fora dela a ciência florescia, embora por suposto tivesse seus problemas, como têm tudo o que cresce.

Uma terceira tese errônea do catastrofismo é a de que toda revolução epistêmica acaba com as realizações anteriores: que produz o colapso de teorias e métodos anteriores, os que são derrotados por rivais vitoriosos. (Lakatos, 1978, é um dos filósofos que empregam essa terminologia política.) Esta analogia com a política e a guerra é equivocada em muitos casos. Por exemplo, as duas relatividades de Einstein, longe de demolir a física clássica, constituem sua cúspide: Einstein continuou e culminou o trabalho começado por Faraday e Maxwell, assim como por Poisson e Riemann. Mais ainda, a notícia do falecimento da mecânica clássica e outras teorias clássicas é exagerada, como diria Mark Twain: todavia se as trabalha e moderniza, como pode ver qualquer um que se tome a molestia de consultar o Journal of Rational Mechanics and Analysis. Ao fim de contas, as teorias clássicas permitem resolver muitos problemas em boa aproximação. E em todo caso até as revoluções mais drásticas são sempre parciais: só alteram algumas das componentes do sistema total de conhecimentos do momento. Por exemplo, a relatividade especial não tocou a matemática nem a eletrodinâmica clássica, e a biologia molecular não alterou a química.

Uma quarta tese errônea do catastrofismo, e por certo que é uma tese perigosa, é a de que todo marco conceitual é uma espécie de prisão mental da que não podemos escapar de maneira racional: quando nos escapamos o fazemos como ato de fé. Esta tese é errônea tanto psicologicamente como metodologicamente. Os cientistas e tecnólogos não operam como místicos ou como prosélitos fanáticos de uma ideologia religiosa ou política. Pelo contrário, frequentemente são capazes de examinar suas teorias ou métodos favoritos. São capazes de reconhecer erros formais ou empíricos, e quase sempre logram corrigi-los. Como diz Popper (1970, p. 56), se o intentamos, podemos livrar-nos de nosso marco em qualquer momento.

Na seção seguinte criticaremos uma quinta tese errada do catastrofismo: a da incomensurabilidade de paradigmas rivais. Por agora basta o dito para refutar tanto ao catastrofismo como ao gradualismo (ou cumulativismo). A marcha do conhecimento é contínua em alguns aspectos e descontínua em outros. Toda mudança epistêmica, por drástica que seja, é parcial antes que total. (Só os charlatães rejeitam a totalidade do sistema de conhecimentos existentes.) E as mudanças epistêmicas são desiguais: em cada período alguns ramos da investigação avançam mais rapidamente que outros, com o qual dão inspiração e às vezes inclusive direção às menos desenvolvidas. Mais ainda, a fronteira não avança preenchendo todos os buracos: ficam para trás incontáveis bolsões de problemas não resolvidos, alguns dos quais serão planteados mais adiante, enquanto que outros serão esquecidos para sempre.

O mito da incomensurabilidade

De todas as teses catastrofistas, a mais catastrófica é a da incomensurabilidade dos marcos conceituais e teorias que se sucedem historicamente (Kuhn, 1962, 1977; Feyerabend, 1962, 1975). Alguns pretensos revolucionários políticos acolheram com entusiasmo esta tese por considerá-la revolucionária. Verá a continuação que, embora inovadora, a tese da incomensurabilidade é contrarrevolucionária, porque destrói o conceito de verdade objetiva e elimina a ideia de progresso do conhecimento. Ademais, deixa de lado os critérios de avaliação objetiva das teorias e, com isto, apaga a distinção entre ciência e pseudociência, assim como a fronteira entre tecnologia e magia.

Nem Kuhn nem Feyerabend, os campeões da tese da incomensurabilidade, formularam claramente o que entendem por esta. Ambos são filósofos inexatos e se limitaram, essencialmente, a discutir o caso dos conceitos de massa que figuram na mecânica clássica de partículas e a mecânica relativista de partículas. (Uma comparação responsável destas teorias exige sua prévia axiomatização, tarefa esta que não é de competência de Kuhn nem de Feyerabend, e que nenhum dos dois considera útil.)

Ao parecer, a incomensurabilidade seria uma incompatibilidade gnoseológica derivada do deslocamento de significado da palavra massa que aparece nas linguagens das teorias em questão. É verdade que a palavra massa não significa exatamente o mesmo na mecânica clássica e na relativista: na primeira denota uma propriedade intrínseca das partículas, e na segunda uma propriedade destas relativa a sistemas de referência. (Recorde-se que a massa relativista cresce com a velocidade relativa ao referencial adotado.) Por conseguinte, embora a velha teoria pareça reduzir-se formalmente à primeira (ou seja, deduzir-se desta), em realidade não estaria incluída nela porque massa não designa o mesmo conceito em ambas teorias. Ao não denotar a mesma propriedade, as duas teorias não compartilham o mesmo vocabulário observacional, de modo que não há maneira de decidir entre elas mediante dados empíricos. A experiência não pode favorecer a uma delas: se elegemos a mecânica relativista não é porque a experiência a tenha confirmado.

Em suma, segundo Kuhn e Feyerabend, quando uma teoria substitui a outra, não é porque a primeira seja mais compreensiva que a segunda: não há invariantes da mudança teórica, nada permanece no curso da mesma. O mesmo valeria para todas as revoluções científicas: ao adotar-se uma nova teoria se faria tábula rasa. A história do conhecimento seria um eterno recomeçar: não haveria progresso senão um ziguezaguear. Até aqui, Kuhn e Feyerabend.

As objeções mais óbvias à tese da incomensurabilidade são estas: (a) Os físicos sempre compararam os conceitos (comparáveis) que figuram em teorias rivais. Esta comparação foi tanto teórica como empírica: no primeiro caso se averigua como se relaciona o novo conceito com o velho, e no segundo se investiga se há dados empíricos que favorecem a um deles. Vejamos como se procede teoricamente no caso do conceito relativista MR de massa de um corpo. Do ponto de vista matemático, MR é uma função MR: C × S × UM → IR+ que asigna a cada terna [c, s, u] formada por um corpo c ∈ C, um sistema de referências s ∈ S (por exemplo, um laboratório) e uma unidade de massa u ∈ UM (por exemplo, o grama), um número real não nulo r ∈ IR+. Ou seja, MR (C, S, U) = r. Se agora fingimos que a coleção íntegra S de sistemas de referência se reduz a um referencial s único (o referencial de repouso), obtemos a definição da massa clássica, a saber, a função MC: C × UM → IR+ tal que MC (C, U) = MR {C, s, U). Ou seja, contrariamente à afirmação de Kuhn e Feyerabend, o conceito clássico de massa se reduz exatamente ao relativista. Com os demais conceitos sucede algo similar.

(b) Os físicos e outros cientistas estão também habituados a comparar teorias rivais, tanto empírica como teoricamente. No caso das mecânicas clássica e relativista se comprova que todas as fórmulas clássicas resultam de fórmulas relativistas correspondentes para velocidades pequenas comparadas com a velocidade da luz no vácuo. A recíproca é falsa: há fórmulas relativistas carentes de correlato clássico. (Por exemplo, a energia em repouso é igual à massa em repouso multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz.) A conclusão é óbvia: é possível comparar as teorias clássica e relativista, e o resultado desta comparação é que a segunda é mais ampla que a primeira. Cada vez que surge uma teoria rival se a compara com a teoria dominante. Mais ainda, longe de ser livres criações do espírito, as teorias científicas se constroem tendo em conta certas limitações que reduzem as possibilidades teóricas. Uma delas é a exigência de compatibilidade com a informação empírica disponível. Outras limitações são certos princípios metateóricos, dos quais destacamos o princípio de correspondência. Este princípio, ao que deve sujeitar-se toda teoria nova que tenha rival, estabelece que a primeira deve incluir a segunda como caso particular (por exemplo, para pequenas velocidades).

(c) Embora Kuhn e Feyerabend centrem sua discussão da pretendida incomensurabilidade nos conceitos de significado e de mudança de significado, carecem de uma semântica capaz de elucidar ditos conceitos. Por conseguinte seu discurso permanece nas nuvens não técnicas da linguagem ordinária: trata-se de ideias inexatas acerca de teorias exatas tais como as mecânicas. Contudo, é possível construir uma teoria exata do significado e aplicá-la a pares de teorias rivais (Bunge, 1974a, 1974b, 1978). Segundo esta teoria, o significado de um conceito é igual ao par ordenado [sentido, referência]. Dois conceitos são comparáveis se, e somente se, compartilham em alguma medida seu sentido ou sua referência. (Como vimos, este é o caso dos conceitos de massa nas mecânicas clássica e relativista.) Duas teorias são comparáveis se possuem conceitos comparáveis. Ao ser comparáveis permitem o planteio de alguns problemas comuns, embora os resolvam de maneiras diferentes. Ao sopesar as teorias se avalia as soluções que dão a tais problemas comuns. Prefere-se a teoria que dê as soluções que melhor se ajustam aos dados empíricos e a outras teorias. Mas já estamos nos metendo no terreno que cobre a próxima seção.

Em resolução, se duas teorias são rivais é porque têm algo em comum e a vez diferem em algum outro aspecto. Por exemplo, a teoria segundo a qual algumas mutações gênicas são neutras compete com a genética padrão, segundo a qual toda mutação é, já vantajosa, já desvantajosa. Em contrapartida, uma teoria linguística não pode competir com uma teoria geológica, porque suas classes de referência, e portanto seus sentidos, são disjuntos: este é um caso de incomensurabilidade, mas não de rivalidade. Para que duas teorias sejam genuinamente rivais devem disputar-se um domínio de fatos, ou seja, devem ter referentes comuns. (Por exemplo, a mecânica clássica e a relativista se referem a corpos, em particular partículas.) Isto basta para que compartilhem um núcleo de significado. Uma vez estabelecida a rivalidade de duas teorias se apresenta o problema de eleger entre elas. Este será tema da seção seguinte.

Critérios de avaliação de teorias

Segundo Kuhn, Feyerabend, e seus prosélitos, posto que as teorias rivais são incomensuráveis ou incomparáveis, não pode haver critérios objetivos que permitam escolher entre elas. Contudo, todos os investigadores sérios sabem que há critérios objetivos. O que estes não sempre se formulem explicitamente, e o que não se possa aplicá-los mecanicamente, é farinha de outro saco. O essencial é que, em ciência, as teorias não se elegem arbitrariamente, ou porque convenham a interesses criados. Pelo contrário, a eleição se faz sobre a base dos resultados de certos tests, alguns dos quais são conceituais e os demais empíricos. Bastará mencionar os principais (para análises detalhadas veja Bunge, 1969, 1983d).

Os tests a que se submete uma teoria científica antes de aceitá-la ou rejeitá-la são de distintos tipos: lógico-matemáticos, semânticos, gnoseológicos, metodológicos, e filosóficos. Mais precisamente, dada uma teoria T tem-se a obrigação moral de formular-se (mais ou menos explicitamente) as perguntas seguintes:

(I) Contém T fórmulas mal formadas, tais como y = x/0?

(II) Contém T contradições, tal como x = a & x ≠ a?

(III) É T uma teoria propriamente dita (um sistema hipotético-dedutivo), ou é meramente um conjunto de fórmulas sem estrutura dedutiva?

(IV) Contém T erros matemáticos insalváveis, ou seja, cuja correção lhe tira interesse ou é causa de que fracasse nos demais tests?

(V) Contém T fórmulas semanticamente mal construídas, ou seja, interpretadas incorretamente?

(VI) É T incompatível com alguma teoria vizinha satisfatoriamente estabelecida? (Exemplo: uma teoria biológica, ou psicológica, que contradiga as leis da física ou da química.)

(VII) É T incompatível com um grande número de dados empíricos?

(VIII) É T ad hoc ou cobre um campo de fatos mais amplo que o conjunto de dados que o teórico se propõe explicar?

(IX) É T superficial ou profunda? (Por exemplo, explica T o comportamento exploratório de um animal, ou se limita a descrevê-lo?)

(X) Sugere T novas técnicas ou novos experimentos?

(XI) Unifica T campos do conhecimento, ou domínios de fatos, antes disjuntos?

(XII) É T de um tipo conhecido, ou de um gênero novo?

(XIII) É T susceptível de ser posta à prova empírica, ou contém hipóteses que lhe permitem sustentar-se qualquer que seja o resultado da experiência?

(XIV) Contém ou pressupõe T hipóteses incompatíveis com a ontologia científica, segundo a qual o mundo está composto exclusivamente de coisas concretas (materiais) em fluxo? (Exemplo de uma teoria incompatível com dita ontologia: uma que contenha a hipótese de que existem mentes desencarnadas.)

(XV) Contém ou pressupõe T alguma hipótese incompatível com a gnoseologia científica, segundo a qual (a) é possível conhecer (gradual e parcialmente) algumas coisas, (b) toda investigação científica usa a vez a razão e a experiência, a construção conceitual e a percepção, e (c) todo conhecimento científico é tanto falível como perfectível?

Em última instância todos estes tests nos proveem indicadores ambíguos de verdade objetiva. Alguns deles (por exemplo, coerência interna e compatibilidade com os dados) são necessários. Outros (por exemplo, poder unificador e poder heurístico) são somente desejáveis. Nenhum deles é suficiente para aceitar uma teoria, embora o incumprimento de algumas condições (as necessárias) basta para rejeitá-la. Por este motivo, ou seja, porque os tests nos dão somente indicadores, necessitamos uma bateria íntegra deles. (Algo similar acontece com os indicadores em física atômica e em economia política: quantos mais sejam os indicadores mutuamente independentes, tanto melhor se reforçarão mutuamente.)

O estudo da história da ciência revela que, com efeito, os cientistas confrontados com teorias rivais se serviram de alguns dos critérios mencionados. É verdade que, em ocasiões, prevaleceram considerações extracientíficas, tais como a moda ou a ideologia dominante. Por exemplo, enquanto reinou o mecanicismo se preferiu teorias que explicavam tudo em termos de corpos em movimento. E rejeitaram-se teorias sobre a geração espontânea (a origem abiótica) da vida por considerá-las incompatíveis com um dogma religioso. Mas isto só mostra que os cientistas, por destacados que sejam, não logram subtrair-se a todas as pressões do meio, pelo qual às vezes se comportam de maneira não científica. (A metodologia é normativa, não descritiva: diz como há que proceder se se há de alcançar resultados ótimos. A história, em contrapartida, diz como se procede de fato. O historiador conta a verdade, o metodólogo diz o que é a verdade.)

Também é certo que, como o sublinha Kuhn, não há algoritmos de eleição de teorias: é impossível programar um computador para que faça a eleição por nós. Mas isto não demonstra que não se faça uso de critérios de eleição. Tampouco dispomos de algoritmos para eleger carreiras, mas disto não se segue que o que fazemos arbitrariamente ou empurrados tão só pelas circunstâncias. Tampouco está demonstrado que jamais se logre construir receitas para eleger teorias. Acaso se logre se a metodologia alcança um alto grau de desenvolvimento.

Em definitivo, dispõe-se de tests estritamente metodológicos para avaliar teorias científicas. Estes são tests de verdade objetiva e portanto diferem tanto dos critérios subjetivos tais como a beleza e a simplicidade, quanto dos tests sociais tais como o ajuste à moda ou aos interesses de um grupo social determinado. O que aqueles tests não sempre se executem, não indica que sejam impotentes para distinguir a verdade do erro, a ciência da pseudociência, ou a tecnologia da magia. Só indicam que o cientista está tão exposto ao erro como qualquer filho de vizinho.

Conclusão: nem anarquismo nem autoritarismo

Há um momento recordamos que a metodologia é prescritiva ou normativa: indica como deveria proceder-se para investigar com êxito, ou seja, para obter soluções maximamente verdadeiras a problemas de conhecimento. Agora bem, não toda metodologia cumpre de fato esta função. Há metodologias excessivamente restritivas que, longe de impulsionar a investigação, a constringem. Um exemplo de semelhante metodologia autoritária é o empirismo radical, que aprova somente os conceitos que têm contrapartes perceptuais ou operatórias.

Contudo, acreditou-se frequentemente que o empirismo radical, ao opor-se à especulação desenfreada, constituiu uma revolução gnoseológica que abriu as portas ao avanço científico. Isto valeria se, com efeito, a investigação científica se limitara a acumular dados para a obtenção dos quais não faz falta teoria alguma. Dado que de fato a investigação científica possui uma componente teórica, e que não há dados empíricos interessantes que não tenham sido obtidos à luz de alguma hipótese ou teoria, essa filosofia não propende ao avanço do conhecimento. No máximo serve para podar especulações infundadas.

Mais ainda, o empirismo radical, ao apegar-se à ilusória certeza da experiência sensível, é um eficaz preventivo de revoluções científicas. Assim o compreendeu o fundador do operacionismo, o eminente físico (prêmio Nobel) Percy W. Bridgman. Com efeito, este escreveu que somente o firme apego à experiência poderia garantir o que se tome por sempre impossível outra mudança de nossa atitude, tal como o devido a Einstein. Acaso foi perdoável o que tenha ocorrido uma revolução na atitude mental, dado que, ao fim e ao cabo, a física é uma ciência jovem, e os físicos estiveram muito ocupados, mas seria certamente imperdoável o que semelhante revolução volte a fazer-se necessária (Bridgman, 1927, p. 2). O operacionismo foi visto, pois, como garantia contra o que mais apreciamos: as revoluções científicas.

O fracasso da metodologia empirista radical (ou de qualquer outra metodologia igualmente restritiva) sugere o substituí-la por outra, mais aberta à teoria, embora não menos rigorosa a respeito da contrastação empírica. Contudo, quando se carece de alternativa é tentador o abraçar o ceticismo radical e proclamar o necessário fracasso de toda metodologia, ou até a inexistência de todo método. Este é o caso de Feyerabend (1975), o metodoclasta da moda. Este filósofo expôs (de maneira pouco clara embora com muita redundância) a doutrina que chama anarquismo gnoseológico. Esta doutrina não tem senão um princípio: Anything goes (Tudo vale). Em outras palavras, segundo o anarquismo metodológico, tal como na luta livre (catch-as catch-can), não há princípios.

Compreende-se que, quando se carece de princípios, sente-se um livre de pensar e obrar como lhe pareça. Isto ocorre não só em filosofia e em moral senão também em ciência. Com efeito, em ausência de teorias se pode esperar qualquer coisa: milagres, telepatia, psicocinese, magia, etc. Tão logo se dispõe de uma teoria referente a fatos de certo tipo, os fatos esperáveis constituem um pequeno subconjunto dos fatos logicamente possíveis. Esta atitude de expectativa teórica, a diferença da ingênua ou ateórica, economiza muita busca ao acaso e portanto de baixo rendimento. É verdade que em ocasiões pode levar a negar a existência de fatos bem certificados. Mas este perigo se conjura, não abrindo a mente a qualquer coisa, senão adotando regras adicionais, por exemplo, a regra que manda investigar todo fato anômalo em lugar de ignorá-lo ou racionalizá-lo.

Quem quer que tenha feito investigação científica, ou meramente averiguações escrupulosas, sabe que a consigna Tudo vale não se emprega nem deveria empregar-se. O anarquismo gnoseológico não é a resposta adequada ao autoritarismo metodológico. Assim como este se opõe às revoluções conceituais, aquele fomenta a superstição, o charlatanismo e a improvisação. (Não é coincidência o que Feyerabend (1975) sustente que o criacionismo, a astrologia e a magia não são menos respeitáveis que o evolucionismo, a astronomia e a tecnologia respectivamente.) O anarquismo gnoseológico (ou ceticismo radical) não constitui o triunfo de uma tolerância intelectual senão do vazio e irresponsabilidade intelectuais. Quando se joga pela borda todo critério de avaliação, nada vale.

A resposta correta a uma metodologia autoritária e dogmática não é a antimetodologia senão uma metodologia que ajude a buscar a verdade profunda e a avaliar propostas de reforma ou de revolução em matéria de conhecimento. Semelhante metodologia inclui o ceticismo metódico ou moderado (em contraste com o sistemático ou radical), único antídoto eficaz contra o dogmatismo (ou autoritarismo gnoseológico). Mas tal ceticismo não basta porque não é construtivo: a dúvida é um ponto de partida ou uma etapa de trânsito, não de chegada. Uma metodologia capaz de fomentar a busca da verdade profunda deve incluir também princípios positivos. Entre estes devem figurar os que mandam buscar pautas gerais e expressá-las com a maior exatidão possível, construir teorias audazes e submetê-las a provas empíricas rigorosas, examinar com tolerância ideias novas mas abster-se de abraçá-las enquanto não tenham aprovado exames que indiquem que são suficientemente verdadeiras. Mas tudo isto é motivo de outro conto (Bunge, 1983a, 1983b).

Referências bibliográficas

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O artigo foi publicado originalmente por Mario Bunge na revista El Basilisco, número 15, março-agosto de 1983.

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Douglas Rodrigues Aguiar de Oliveira

Divulgador Científico há mais de 10 anos. Fundador do Universo Racionalista. Penetration Tester. Pós-Graduado em Computação Forense, Cybersecurity, Ethical Hacking, Full Stack Java Developer e Inteligência Artificial, Machine Learning e Data Science. Endereço do LinkedIn e do meu site pessoal.