Paralisia do sono: demônios ou neurociência?

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Imagem: Johann Heinrich Füssli.

Por Taylor Christine Jones*

A paralisia do sono é um estado de semiconsciência em que o indivíduo começa a acordar mentalmente, porém ainda sob efeito da paralisia muscular que o cérebro induz durante a fase REM do sono. Essa paralisia incapacita o indivíduo de se mover ou falar, mas não afeta os movimentos respiratórios e oculares. Sua duração é de segundos a alguns minutos e é geralmente acompanhada de alucinações visuais, auditivas e sentimento de uma presença maligna no local. Essas percepções visuais podem ocasionalmente ser tão reais que nem a argumentação lógica é capaz de diminuir a inquietação gerada pelo episódio. Segundo o artigo The occurrence and predictive factors of sleep paralysis in university students publicado em 2016, a paralisia do sono tem maior ocorrência em jovens adultos, principalmente mulheres. Primeiramente associada a narcolepsia – um distúrbio autoimune raro do sono que causa sonolência diurna em excesso e afeta menos de 1% da população – a paralisia do sono é, na verdade, passível de ocorrer em qualquer pessoa sob alto estresse e afeta em torno de 20% da população geral segundo os artigos Lifetime prevalence rates of sleep paralysis: a systematic review publicado em 2011 e Rates and characteristics of sleep paralysis in the general population of Denmark and Egypt publicado em 2013. Também pode ocorrer devido ao uso de certos medicamentos, transtornos de saúde mental ou abuso de substâncias.

Para entender melhor o que desencadeia um episódio de paralisia do sono, devemos entender como nosso corpo age durante o sono na fase REM, na qual o corpo está paralisado. O sono REM ou Rapid Eye Movement (Movimento Rápido dos Olhos), como o próprio nome evidencia, é a fase do sono em que os olhos se movimentam muito rapidamente e a atividade cerebral é similar àquela que se passa nas horas em que estamos acordados. Dessa forma, o padrão de disparo da maioria dos neurônios durante o sono REM assemelha-se ao de vigília, podendo, em alguns casos, disparar em rajadas ainda mais intensas do que quando estamos acordados. Em termos fisiológicos, a respiração torna-se rápida e irregular e a frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam. É nessa fase que temos os sonhos mais vívidos e com enredos mais complexos. Para que não tentemos agir ou encenar durante o sonho e, consequentemente nos machucar, o cérebro criou um mecanismo, em conjunto com a ponte e a medula ventromedial, que paralisa o músculo esquelético. Nesse mecanismo ocorre inibição dos neurotransmissores GABA e glicina, substâncias químicas produzidas pelos neurônios que enviam informações a outras células, que acabam inibindo os neurônios motores na medula espinhal. Com a inibição dos neurônios motores, não há transporte de sinais do sistema nervoso central para as extremidades (músculos, pele, glândulas) do corpo e, consequentemente, não há movimento dos membros.

Conforme proposto no artigo Sleep Paralysis, “The Ghostly Bedroom Intruder” and Out-of-Body Experiences: The Role of Mirror Neurons, publicado em 2017, a alucinação de uma presença fantasmagórica e maligna durante a paralisia do sono é decorrente de uma perturbação funcional no córtex parietal direito do cérebro. Ainda descrito no artigo, o sistema de neurônios espelhos são essenciais para dar origem à alucinação de intruso fantasmagórico. Esses neurônios disparam tanto quando um animal realiza um determinado ato, como quando observa outro animal (normalmente da mesma espécie) a fazer o mesmo ato. Por exemplo, quando você está prestes a pegar um copo d’água estes neurônios são ativados, porém se você ver uma pessoa prestes a pegar um copo d´água você automaticamente simula a ação dessa pessoa em seu cérebro e estes mesmos neurônios também são ativados. Dessa forma, o sistema de neurônios espelhos possibilita que você “veja” o mundo do ponto de vista de outra pessoa. De acordo com o artigo Induction of an illusory shadow person publicado na Nature em 2006, esse intruso nada mais é do que uma percepção do próprio corpo do indivíduo (do “eu”) devido a uma perturbação da informação em relação ao corpo na junção temporoparietal, conhecida por estar envolvida em outras percepções ilusórias do próprio corpo. Portanto a desinibição do sistema de neurônios espelhos devido à ausência de sinais sensoriais (não há sensações pois os músculos estão paralisados) durante a paralisia do sono, juntamente com perturbações na junção temporoparietal, irão criar a alucinação de um intruso ou sombra maligna, comum entre os episódios de paralisia do sono. Vale ressaltar que o ambiente é capaz de criar uma narrativa para o cérebro, ou seja, se a pessoa acorda em um ambiente escuro, com barulhos estranhos e sem conseguir se mexer, esse ambiente formará pistas para que o cérebro tente encontrar algo maligno no local.

Uma das soluções para intervenção direta durante um episódio de paralisia do sono, proposta no artigo How to Make the Ghosts in my Bedroom Disappear? Focused-Attention Meditation Combined with Muscle Relaxation (MR Therapy) – A Direct Treatment Intervention for Sleep Paralysis publicado em 2016, é um tipo de meditação focada na atenção interna combinada com o relaxamento muscular. Essa intervenção requere reavaliar o motivo da paralisia (por isso a importância de se saber a origem da paralisia muscular), distanciar a atenção dos estímulos externos desagradáveis focando em uma memória positiva, e o relaxamento muscular. A intervenção pode facilitar um estado meditativo relaxado, podendo levar à sonolência e potencialmente sono. Tratar sintomas de ansiedade e estresse, que podem ser os causadores iniciais da paralisia, também são alternativas para diminuir as chances de ocorrência de novos episódios, porém o mais importante é disseminar o conhecimento de que não ocorre de fato nenhuma experiência sobrenatural ou demoníaca durante a paralisia do sono. O sentimento de esmagamento ou sufocamento durante um episódio não é causado por um diabinho assustador sentado em cima do peito do indivíduo como foi retratado na pintura Renascentista de Henry Fuseli, mas sim por algo muito mais complexo e intimidante: o cérebro humano.

Referências:

  • Arzy S., Seeck M., Ortigue S., Spinelli L., Blanke O. (2006). Induction of an illusory shadow person. Nature.
  • Blakeslee S. (2006). Cells that Read Minds. New York Times.
  • Jalal B. (2016). How to Make the Ghosts in my Bedroom Disappear? Focused-Attention Meditation Combined with Muscle Relaxation (MR Therapy) – A Direct Treatment Intervention for Sleep Paralysis. Front Psychol. 7:28. 10.3389/fpsyg.2016.00028
  • Jalal B., Ramachandran V.S. (2017). Sleep Paralysis, “The Ghostly Bedroom Intruder” and Out-of-Body Experiences: The Role of Mirror Neurons. Front Hum Neurosci. 11:92.
  • Lišková M., Janečková D., Kráčmarová L.K., Mladá K., Bušková J. (2016). The occurrence and predictive factors of sleep paralysis in university students. Neuropsychiatr Dis Treat. 12:2957–2962.

 

*Este texto foi produzido por Taylor Christine Jones, graduanda em Biomedicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como proposta de trabalho da disciplina Introdução à Psicologia para Biomedicina. Simulando o processo editorial de publicações científicas (double-blind peer review), após a produção do texto original, dois outros alunos revisaram anonimamente o manuscrito da colega e deram sugestões para o aperfeiçoamento do mesmo. Assim, Taylor produziu e aprimorou o texto acima, o qual revisei e selecionei para ser publicado aqui, no Universo Racionalista.
Destaco e agradeço a importante iniciativa do Universo Racionalista neste projeto. Ao incentivar a divulgação científica produzida por alunos de graduação, ele não apenas amplia o acesso ao conhecimento gerado na academia, como também ajuda a expandir as perspectivas destes profissionais em formação.
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